Depois de uma cirurgia cardíaca no ano passado, Van Gelderen deixou de navegar. Baleeiros jovens substituíram-no na tarefa. Mas ele ainda passa horas e horas a olhar o mar com cara de quem está entendendo tudo. O calendário indicava 12 de dezembro, fim da alta temporada: as tarifas dos hotéis baixaram e a presença da maior estrela não estava mais garantida naquelas águas. Numa caminhada pela praia ao alvorecer, eu havia visto duas listras pretas que apareciam e desapareciam no mar.
- Seriam baleias, seu Mariano?
- Puede ser.
- Mas elas não foram embora?
- Puede ser.
- E vocês continuam fazendo o passeio?
- Se não houver baleias, devolvemos la plata.
- Para todo mundo?
- Por supuesto.
A lancha Mimosa 2 navegou por 40 minutos, em diferentes direções, e nada de baleias. Estávamos quase conformados, meus 46 compañeros de barco e eu, em voltar para terra sem nenhuma aparição. Afinal, vimos simpáticos leões-marinhos e gaivotas em vôo elegante, mas já pensávamos que poderíamos pedir o dinheiro de volta. De repente, suspiros. Todas as máquinas fotográficas se voltam para a direita, onde se vê uma mancha negra embaixo d'água. O guia pede calma para que a embarcação não vire. A primeira fila deve sentar-se, a segunda fica em pé e a terceira sobe nos bancos. Depois o marinheiro contorna a baleia e o posicionamento se inverte para que todos os passageiros possam vê-la de perto. O senhor austríaco com sua Canon automática cutuca a dona da Nikon profissional com imponente lente teleobjetiva que lhe impede a visão. Mãe e filho passam por baixo do barco, nadam ao redor, mostram cabeça e cauda, mergulham e voltam à superfície jorrando água pelo buraquinho das costas (o orifício dorsal serve para trocar o ar dos pulmões). Depois de meia hora e centenas de cliques, a Mimosa 2 deu meia-volta rumo ao continente. O espetáculo havia sido difícil o suficiente para emocionar a platéia. Uma salva de palmas aos dois tripulantes. Na volta, competição para descobrir quem tinha as melhores fotos. E não é que o zoom do austríaco era mesmo poderoso?!
Em agosto e setembro, as baleias-francas ficam pertinho da praia. Imagine como é se hospedar no Hotel Las Restingas, o único de frente para o mar em Puerto Pirámides, e, ao abrir as cortinas do quarto, dar de cara com uma delas? Durante esses dois meses, é possível admirá-las mesmo em Puerto Madryn, cidade que concentra a maior infra-estrutura hoteleira da região e, por isso, serve de base para conhecer a península, onde há poucos hotéis e restaurantes. Até pouco tempo atrás, a vida em Madryn era um marasmo. O clima extremamente árido desencorajava o povoamento da zona - a chuva atinge cerca de 200 milímetros cúbicos por ano, e a principal fonte de água potável é o Rio Chubut, que passa a 60 quilômetros dali. A cidade contava 3 mil habitantes até 1970, quando foi inaugurada uma fábrica de alumínio. Com a brutal desvalorização do peso, em 2001, ganharam espaço a pesca (de polvo, merluza e lagosta, sobretudo para exportação) e, claro, o turismo. Puerto Madryn mudou de cara e de hábitos. Chegaram argentinos de outras regiões, e a população saltou para 85 mil pessoas. Ruas de terra foram asfaltadas, e pipocaram restaurantes, lojinhas e empreendimentos turísticos de primeira linha, como o hotel-butique Territorio. Inaugurado em 2006 por um grupo de Buenos Aires, tem 36 apartamentos com banheira, aquecedores de toalha, cama king-size e temperatura ambiente regulada por controle remoto. A maior atração é a vista para o mar (e, com sorte, para as baleias...). Ainda em construção, o primeiro cinco-estrelas de Madryn tem abertura prevista para junho.
O baleeiro Mariano van Gelderen, o empresário Gustavo Walter, a estudante Guadalupe Coll, o dono de albergue Gastón Wynne e todos que encontrei em Madryn eram forasteiros. Eles se cumprimentam com dois beijinhos, sorriem à toa e não reclamam de dirigir horas a fio, em estrada de cascalho, sob sol forte - e bem devagar para não atropelar nenhum espécime da rica fauna local. Nas longas estradas da Península Valdés (são 400 quilômetros só de litoral), transitam bichos característicos da Patagônia, como mara (roedor de pernas longas), guanaco (que lembra o lhama) e peludo (tatu com pêlo), além de espécies importadas, como ovelha e coelho. Estes últimos multiplicaram-se como praga, de maneira quase tão surreal quanto o conto do argentino Júlio Cortázar em que o personagem regurgita coelhos sem parar. No extremo leste da península se localiza a Punta Delgada, refúgio de elefantes-marinhos, tipo de foca que deve o nome à tromba que exibe a partir dos 3 anos de vida. Quem se hospeda no Hotel de Campo Faro Punta Delgada ou na Estância Rincón Chico fica mais perto deles. Durante o período em que trocam de pele (cerca de um mês, em dezembro), os elefantes-marinhos vivem paradões, na maior boa vida. "Eles não se alimentam quando estão na praia e, para economizar energia, evitam qualquer movimento", explica Guadalupe Coll, estudante de biologia marinha responsável pelos passeios com os hóspedes da Rincón Chico. Para não assustá-los, andamos agachados, em silêncio. A Península Valdés é extensa (3 600 quilômetros quadrados) e pouco populosa. Por isso, mesmo com o forte aumento do número de visitantes nos últimos anos (de 66 mil pernoites em 2001 para mais de 200 mil em 2006), passear por ali ainda tem o gostinho de percorrer trilhas inexploradas - experiência pouco provável em Buenos Aires.
Se você esteve na capital argentina há pouco tempo, sabe que os brasileiros invadiram a cidade. O risco de esbarrar em conterrâneos é certo em San Telmo, no Caminito e nas lojas da Calle Florida. Ouve-se português o tempo todo. Afinal, a cidade concentra a maior parte dos brasileiros que visitam o país - e não são poucos. Mais de 400 mil só no ano passado. Desse total, menos de 20% se aventuram pelas maravilhas que não ficam às margens do Rio da Prata. Assim, é hora de rumar para o norte e/ou o sul do país. Boa notícia para quem não quer nem ouvir falar do Corinthians, da Ivete Sangalo e de transplantes de cabelo na cabeça de políticos: quase não esbarramos em conterrâneos ao longo dos 12 dias de viagem desta reportagem. Percorremos os dois extremos da Argentina. Não ouvi português em nenhum dos três dias que passei na região de Salta, no norte, e na Península de Valdés, no sul. Os brasileiros só começaram a aparecer mais abaixo, em El Calafate e em Ushuaia, as duas últimas cidades de nosso trajeto - mas mesmo ali éramos minoria. Predominavam canadenses, suíços, alemães, chilenos e... argentinos.
O clima particular (ensolarado e árido no norte, frio e com fortes ventos no sul) e a distância da capital mantiveram esses lugares praticamente isolados por muito tempo. Hoje, porém, tanto a região de Salta, perto da fronteira com a Bolívia, quanto a Patagônia Austral (ao sul de Bariloche, formada pelas províncias de Chubut, Santa Cruz e Terra do Fogo) não cessam de atrair estrangeiros e argentinos de espírito desbravador.
O norte está entre as zonas mais pobres do país e é menos explorado pelo turismo. As operadoras que vendem pacotes para lá costumam hospedar os turistas em Salta - a cidade concentra alguns bons hotéis e 137 agências de turismo, responsáveis por excursões pelas províncias vizinhas Jujuy e Tucumán, além de ser interessante do ponto de vista cultural e histórico. A arquitetura colonial é o que mais chama atenção em Salta, fundada em 1582. Observe como fica bonito à noite o Convento de San Bernardo, do século 16. Durante o dia, visite o Cabildo, antiga sede do governo municipal, atual Museu Histórico del Norte, e a catedral, erguida no século 19 para abrigar uma imagem de Nossa Senhora, a Virgen del Milagro, que, acredita-se, conseguiu parar o terremoto que arrasou Salta em 1642. A cidade é também conhecida por sua gastronomia, de tradição indígena. No inverno, prove o consistente e saboroso locro, uma espécie de feijoada à base de milho, feijão-branco, carne de porco e de boi, servido como sopa, sem arroz nem farofa. Mas são as empanadas salteñas que detêm a maior fama. Só levei a sério o apelido da iguaria - "empanadas pernas abertas" - quando a primeira gota do recheio manchou minha saia. O molho suculento e a carne picada com faca (e não passada no moedor) são as principais características das salteñas. Salta vale um ou no máximo dois dias de sua viagem. Se a idéia é conhecer bem o norte argentino, o melhor é fazer um roteiro linear: pouse em Jujuy, passe por
Salta de carro e decole de Tucumán. No caminho, você vai encontrar as maiores jóias da região: a Quebrada de Humahuaca e a Quebrada de Cafayate. Quebradas são na verdade cânions. Nos dois casos, trata-se de vales esculpidos por rios formados por águas de degelo vindas da Cordilheira dos Andes. Parece improvável que o magro filete que vemos correr entre os rochedos vermelhos, verdes e acinzentados tenha sido responsável por lapidar aquela imensidão toda. O tempo e o vento contribuíram para desenhar o cenário, ao longo de milhares e milhares de anos. Foi a erosão eólica que desenhou o Anfiteatro, concha acústica natural entre Salta e Cafayate, ponto de encontro de vendedores de artesanato, ônibus de excursão e músicos. Sim, aqueles mesmos com flauta, tambor e violão. Eles não são bolivianos nem peruanos, mas argentinos mesmo, de origem indígena. Há diversas etnias na região. A Quebrada de Humahuaca foi ocupada por povos pré-hispânicos desde 10000 a.C. Em Tilcara, o sítio arqueológico conhecido como Pucará tem resquícios de uma fortaleza que pertenceu aos incas e prosperou entre os anos 1000 e 1480. Lá viveram 5 600 índios pucaras. Hoje a paisagem é dominada por cactos milenares de até 6 metros de altura - os cardones. De lá, rume para a pequena Purmamarca, cidadezinha em que o vermelho das montanhas se mistura às paredes das casas e às ruas de terra. Tapetes e casacos de lã tecidos artesanalmente por comunidades indígenas acrescentam colorido. Por que não fugir do óbvio e hospedar-se ali? A recém-aberta pousada Los Colorados é a campeã no quesito charme. Os donos explicam o estilo com o adjetivo "mediterrâneo", mas quem determina as linhas e as cores é mesmo a geografia local. Sua construção irregular no mesmo tom da montanha parece, por essa razão, emergir naturalmente dela. Tem sete cabanas bem equipadas (TV, DVD, cozinha, sala, aquecimento central, lareira, varanda e hidromassagem). Depois de Purmamarca, a próxima parada é Humahuaca. Mais interessante que a Igreja da Candelária é observar a população da etnia quíchua vendendo artesanato nas ruas. Com a filha amarrada nas costas por um manto vermelho, Nicolasa oferecia broches de lã por 1 peso. Comprei três. Quando Abigail, de 12 anos, propôs a mesma mercadoria, ensaiei uma esquiva. Ela saiu-se com uma paródia de um verso tão conhecido por lá quanto "Batatinha quando nasce" por aqui: "En la punta de aquel cerro Hay una planta de albahaca Si usted no me da la propina No se va de Humahuaca".
Preciso dizer que levei mais um brochinho para casa? Antes de seguir viagem, não se acanhe de experimentar folhas de coca, vendidas em saquinhos plásticos pelos locais, que costumam mascálas para minimizar os efeitos da altitude. O desconforto causado pelo ar rarefeito (tontura, enjôo, dor de cabeça) provavelmente será sentido ao cruzar a Puna de Jujuy, a 4 mil metros de altitude, para chegar a Salinas Grandes, um lago salgado de 12 mil hectares de onde se extrai sal - é possível caminhar sobre ele e ver os trabalhadores em ação. Em Cafayate, descubra as bodegas, que têm conquistado prestígio graças à uva torrontés, símbolo da região. Ela produz vinhos brancos frutados - "os mais expressivos da Argentina", na opinião do músico e enófilo Ed Motta. A imersão completa inclui os sorvetes de vinho da sorveteria Miranda (nos sabores branco e tinto; prove os dois e observe a suave dormência na língua e nos lábios) e o wine-spa do Hotel Patios de Cafayate, luxuoso palacete cercado pelas vinhas da tradicional bodega El Esteco, um oásis de conforto no deserto.
No extremo oposto do país situa-se Ushuaia (pronuncia-se "ussuaia", já que o "h" é mudo em castelhano), que tem o duplo aposto de cidade mais austral do globo e fim do mundo. Ali, também é com o requinte dos hotéis e restaurantes que se combate o clima inóspito. No livro Na Patagônia, relato de sua viagem pelo extremo sul da América, o inglês Bruce Chatwin diz que os moradores "daquela cidade aparentemente sem crianças tinham o rosto azulado de frio e encaravam as pessoas de fora com bem pouca cordialidade". De 1977, quando o livro foi lançado, até hoje, muita coisa mudou. A temperatura continua baixa (os termômetros indicam uma média de 4 graus no inverno e 13 no verão), e o céu vive nublado. Quanto à simpatia dos habitantes, pode-se dizer que a situação melhorou.
De óculos escuros e costeletas à la Elvis Presley, Ruben Jofre, de 26 anos, comanda excursões pelo Canal Beagle (cujo nome foi emprestado do navio inglês que transportou o naturalista Charles Darwin pela região). A bordo do catamarã Elisabetta, ele comunica-se com os passageiros em espanhol, inglês e português e conta piadas para "quebrar a monotonia. Sabe como é, faço o mesmo trajeto todo dia". Mostra leões-marinhos, cormoranes (aves parecidas com o pingüim, mas que, diferentemente dele, conseguem voar) e gaivotas que vivem ao redor do Farol Les Éclaireurs, batizado pelo explorador francês Louis Martial. No caminho de volta, ele coloca o documentário A Marcha do Imperador na TV do barco. O pingüim-imperador, que aparece no filme, vive apenas na Antártica. Em Ushuaia, vêem-se os de-magalhães, os mesmos encontrados na Península Valdés, na Punta Tombo e na costa sul do Brasil. As duas espécies têm em comum a necessidade de percorrer centenas de quilômetros em busca de alimento para as crias, enfrentando as piores intempéries no caminho: neve, predadores, fome. O filme ajuda a entender como deve ser difícil (para qualquer ser vivo) sobreviver num ecossistema tão extremo quanto aquele. Os únicos que não se incomodam são os castores - importados da Europa na época em que a pele servia para fazer casacos, eles se multiplicaram como os coelhos da Península Valdés (e do conto de Cortázar) e causam estragos: roem árvores, inundam bosques e colocam outras espécies em risco.
O porto de Ushuaia vive cheio. Todos os dias zarpam e atracam navios com até 4 mil pessoas. Por causa disso, as ruas íngremes estão sempre movimentadas, assim como as lojas de eletrônicos (tratase de zona franca, ou seja, nada de imposto) e os restaurantes. Hotéis de primeiríssima linha surgiram para atender os passageiros que esperam o dia do embarque para cruzeiros à Antártica. Um dos mais exclusivos é o Finisterris Lodge - suas três cabanas com vista para o canal têm hidromassagem, lareira e sauna. Bons restaurantes, como o Chez Manu e o Gustino, servem cordeiro e centolla, um saboroso caranguejo gigante (ou king crab), além de vinhos patagônicos, da região de Neuquén.
Ainda assim, a cidade guarda um clima de faroeste, nostalgia da época em que o mecânico Leonardo Redi chegou à cidade pilotando seu Ford Falcon 1970. Nascido em La Plata, ele resolveu aventurarse em Ushuaia há mais de 20 anos, em função dos incentivos do governo, que queria povoar a região e garantir a soberania. Nada de impostos, moradia fácil, trabalho promissor, tranqüilidade... Lá estava ele. "Quando cheguei, isto aqui era uma aldeia", diz. Para relembrar a calmaria dos velhos tempos, Redi foge para o Parque Nacional Terra do Fogo em seus dias de folga. Acampa, faz churrasco e aproveita da proximidade da natureza. O Trem do Fim do Mundo, que corta o parque, refaz o trajeto dos prisioneiros da cidade, levados à floresta para cortar lenha. Quem quer adrenalina prefere o passeio de 4x4 pelos lagos Escondido e Fagnano, oferecido por diversas agências. Carlos "Chincho" Romero, o motorista, adora lama: não perde uma poça d'água - até porque depois enfia a Land Rover no lago para limpar. No final, prepara um café da montanha (com chocolate e conhaque) numa fogueira improvisada.
Viajar por Ushuaia e El Calafate não é a mesma pechincha que em outras partes da Argentina. O afluxo de turistas americanos e europeus elevou os preços - nada custa menos de 30 pesos (ou 10 dólares). El Calafate, cidade de veraneio do casal presidencial Kirchner, vive em função do turismo. Pudera: detém a maior beleza natural do país, uma coleção de glaciares de arrancar o fôlego. O Perito Moreno (veja infográfico na pág. oposta) é o mais acessível. Seu nome homenageia o explorador (e perito) Francisco Moreno, que estudou a região no século 19 e contribuiu na delimitação da fronteira com o Chile. Num minitrekking de uma hora, os visitantes marcham sobre o gelo, ajudados por grampos instalados em botas ou tênis comuns. Quem tem mais fôlego prefere o trajeto conhecido como Big Ice, de sete horas. Os dois roteiros (não recomendados para mulheres grávidas) são organizados pela agência Hielo y Aventura. Num e noutro, o clima muda de repente. Sol, chuva fina, vento, frio... Ninguém reclama, pois surpresas maiores (e não de ordem meteorológica) roubam a cena: grutas azuis, pequenos riachos e abismos assustadores surgem ao longo da caminhada, como presentes. Depois de retirar os grampos dos calçados, reserve uma hora para observar o glaciar da passarela de madeira. Você verá um bloco de gelo desprender-se da geleira e cair com força no lago, acompanhado de forte estalo - uma emoção e tanto. Minutos depois, outro estrondo. O bloco de gelo que acabara de afundar agora emerge do fundo do lago. Na hora de ir embora, dá vontade de falar em voz alta "Un gusto", expressão que os argentinos usam para despedir-se de quem acabaram de conhecer, algo como o nosso "Foi um prazer".