Onde você pegou gosto pela aviação?
Quando eu tinha 9 anos, fiz uma excursão com a escola até o aeroporto de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Pensei: "Se eu fosse homem, seria piloto". Só descobri que a carreira era possível aos 15, quando voei pela primeira vez em um pequeno avião, o Corisco Turbo, na companhia de um piloto amigo da família. Dois anos depois, estava pilotando o meu.
Em sua família ninguém é do setor. Que reação tiveram com a sua decisão?
Meu pai queria que eu fosse advogada. Eu cabulava as aulas do cursinho para freqüentar as preparatórias para o brevê, que aconteciam na mesma escola. Um dia, dei a notícia: passei, só que para o curso de piloto. Eles ficaram assustados, mas, com o tempo, absorveram a idéia. Ainda assim, tenho uma irmã gêmea que sua frio toda vez que tem de voar. Admira meu trabalho, mas prefere mesmo ficar no chão.
O que é mais difícil: aprender a voar ou vencer o preconceito?
São dois grandes desafios. Alcançar a carta de piloto comercial é um processo caro (em torno de 100 000 reais). Eu vim de família de classe média baixa - minha mãe é costureira e meu pai, modelista. Para completar as 150 horas necessárias de vôo, trabalhei como secretária no aeroclube de Santa Cruz do Sul, trocando o salário por horas de pilotagem. Preconceito, eu enfrentei na hora de conseguir emprego. Em 1996, uma empresa de táxi aéreo disse que não me daria emprego para não melindrar seus passageiros. Eu insisti: ia de bicicleta ao aeroporto de Chapecó e esperava pousarem os aviões para entregar meu currículo. Voei muitas vezes sem ganhar nada, como freelancer, em troca de experiência.
Como é pilotar um Boeing 737?
Todo piloto, quando começa a voar, sonha em pilotar um Boeing. É como dirigir uma Ferrari. O primeiro vôo que fiz em um desses foi em 2004. Decolei (de São Paulo ao aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte) com um piloto conterrâneo, que me deu seu voto de confiança e passou o comando. Mal acreditei quando tirei aquele maquinão do chão.
O que você leva na bolsa, Elisa?
Batom, para não errar o pouso (risos). E escova de cabelo, que pilota não pode sair desarrumada. Há quem relacione a profissão à masculinidade, mas todas as pilotas que eu conheço são muito vaidosas! Também levo presentinhos que recebo de passageiras, como um terço que ganhei há dez anos e um santinho de Nossa Senhora do Loretto, a protetora dos aviadores.
Você já voou para todo o Brasil. Para onde quer ir agora?
Já conheci todos os estados. E, de férias, fui para Paris e para os Estados Unidos. Meu sonho é voar nos Emirados Árabes. Se tudo der certo, ainda conheço todos os países do mundo. Tenho tempo: devo me aposentar, no mínimo, aos 85 anos (risos).