Na vida real, porém, não é bem isso que acontece. Às 6 e meia da matina, TRIIIIMMMMM, toca o telefone do seu quarto. É a chamada de despertar que você tinha pedido na noite anterior. Você está em férias, mas sua agenda não. É preciso descer, tomar café e estar a postos no lobby. Antes das 8, um ônibus ou uma van vai passar para levá-lo a algum lugar entre 40 e 130 quilômetros do seu hotel. As agências de turismo receptivo têm um passeio diferente para cada dia. Seu único trabalho é acordar cedo; o resto fica por conta delas. Pensando bem, como viajar por Maceió e não visitar a foz do São Francisco? Ou a mitológica Praia do Gunga? Ou as falésias coloridas do Carro Quebrado? Ou as piscinas naturais de Maragogi?
Mas daí eu pergunto: como viajar para Maceió e não aproveitar Maceió? Existe uma Maceió que não aparece na programação dos pacotes. Alguns dos seus segredos, pasme, estão bem debaixo do nosso nariz besuntado de protetor solar. Outros, por sorte, permanecem fora do circuito dos passeios organizados. Veja bem: não estou dizendo para você tirar do seu mapa todos os lugares visitados pelos grupos. Todos são lindos e valem a viagem. Agora: sempre que você quiser dormir até mais tarde, ter seus próprios horários ou simplesmente ir a lugares pouco manjados, vá atrás das dicas a seguir. Rumbora?
Lopana, a barraca nota 10
Ipioca, a praia nota 1 000
Cor local: Praia do Saco e Massagueira
Sabor internacional: Wanchako
Uma esticada no paraíso: Rota Ecológica
Lopana, a barraca nota 10
É fácil entender por que a melhor barraca de praia de Maceió passa despercebida dos turistas. É que ela está localizada justamente num trecho da beira-mar em que não há hotéis: na parte mais residencial de Ponta Verde. Não é nenhum ponto da orla que um forasteiro escolheria naturalmente para tomar sol. A praia ali tem faixa de areia estreita e quase some na maré alta. Mas preste atenção: assim que a praia se alarga um pouquinho, na divisa de Ponta Verde com Sete Coqueiros, lá está ela - a barraca Lopana.
Se quiser um bom lugar na areia, chegue antes das 10. A barraca lota logo com o pessoal dos edifícios chiques em frente que, como você, ficou com preguiça de pegar o carro para ir a Barra de São Miguel ou Guaxuma. Os garçons, de lenço na cabeça, usam palms para anotar seu pedido. Querendo almoçar, mude para o deque, onde as mesas têm tampo de vidro que deixa à mostra uma coleção de conchas e búzios. Ou vá ao ambiente refrigerado, onde executivos aproveitam a internet wi-fi para trabalhar com vista para o mar.
Na maré baixa, enquanto todo mundo que ficou na cidade procura uma jangada para ir às apinhadas piscinas naturais de Pajuçara, você pode embarcar no catamarã da barraca, que vai às bem mais sossegadas piscinas naturais de Ponta Verde, ótimas para mergulho (mas atenção: cheque antes a balneabilidade da orla no site do Instituto do Meio Ambiente, ima.al.gov.br - clique em "Serviços". Em dezembro e janeiro, a Ponta Verde estava ok). Na saída, atravesse a avenida e experimente um dos caprichados cafés do Nakaffa, de preferência acompa nhado da ótima cheesecake da casa.
Ipioca, a praia nota 1 000
Quem aluga carro em Maceió não se arrepende. É impossível se perder: dá para entrar e sair da cidade sem deixar a orla. Só que muita gente acaba usando o carro alugado para ir exatamente aos mesmos lugares a que vão os ônibus e as vans: Francês, Gunga, Sonho Verde...
Permita-me sugerir uma praia que sempre esteve entre as minhas favoritas: Ipioca. Ela fica 22 quilômetros ao norte dos hotéis da Jatiúca. Até há pouco, curtir essa praia de areias brancas e águas esverdeadas era privilégio dos hóspedes do pequeno resort d'Anatureza ou então de quem se dispusesse a deixar seu carro no vilarejo de pescadores e andar bastante até a praia. Mas na virada do ano abriu um bar tão luxuoso quanto a paisagem: o Hibiscus.
Não há placas na estrada. Assim que passar a entrada do d'Anatureza, fique de olho: logo vai aparecer a guarita do condomínio Angra de Ipioca. Basta identificar-se que você entra. Se não chegar muito tarde, você pode pegar uma das tendas armadas no deque. Ou pedir um dos colchões infláveis atoalhados que servem tanto para torrar na areia quanto para boiar na água. À sua esquerda, a praia, habitada apenas por um coqueiral, faz uma das curvas mais fotogênicas de Alagoas. As caipiroscas são ótimas. E não há nenhum móvel de plástico branco a poluir o visual. Garanto que você não vai sentir saudade nenhuma do Gunga.
Na volta, suba até o Alto de Ipioca e almoce no Oca, um restaurante rústico-chique com vista linda e receitas criativas com frutos do mar - e que acaba de ganhar uma estrela no Guia Brasil 2008.
Cor local: Praia do Saco e Massagueira
Calma. Nem só de lugares metidinhos é feito nosso roteiro desempacotado de Maceió. No litoral sul, um pouco antes da muvucada Praia do Francês, existe uma sossegadíssima, a Praia do Saco. Em vez das grandes barracas do Francês, aqui ainda sobrevivem as simplesinhas de antigamente. Na maré baixa, os recifes represam a água e o mar se torna uma piscina. Venha num dia de semana, e você vai dividir a praia com poucos vizinhos.
A estradinha de terra que leva à Praia do Saco sai da AL-101 Sul exatamente em frente à entrada do vilarejo de Massagueira, que é para onde você deve ir depois da praia. Ali, à beira do canal, com vista para o mangue, enfileiram-se bares e restaurantes que servem receitas típicas em porções enormes e baratíssimas. E, já que o espírito do nosso passeio é experimentar uma Maceió diferente, procure o Bar do Pato - que, ao lado das moquecas e "camarãozadas" de sempre, prepara um belo pato guisado na cerveja, acompanhado de feijão-de-corda.
Na saída, pare numa das barraquinhas e leve compotas e cocadas feitas ali mesmo na vila. Continuando no clima, aproveite o caminho de volta a Maceió para passar no Pontal da Barra, onde dá para comprar direto das rendeiras belíssimos trabalhos em filé (a técnica típica de Alagoas).
Sabor internacional: Wanchako
Das capitais de porte médio do Nordeste, Maceió sempre foi a mais cosmopolita no quesito gastronomia, com restaurantes dedicados às cozinhas mineira (Divina Gula), contemporânea (o elegante Le Corbu), japonesa (o Takê), afro-baiana (Akuaba), italiana (Massarela, La Pasta Gialla), regional (Irmãs Rocha) e sertaneja (Carne de Sol do Picuí), e também às moquecas (Canto da Boca) e pizzas (Santo-régano). Neste verão, a cidade ganhou seu primeiro botequim-de-paulista-imitando-botequim-de-carioca, a Cervejaria Alagoana.
Mas, se você só tiver um jantar em Maceió, o lugar aonde ir é o Wanchako, o restaurante peruano mais bem-sucedido do Brasil. Acredite: comida peruana tem tudo a ver com praia. Os ceviches, peixes marinados no limão e servidos com milho e batata-doce, são uma espécie de upgrade do sashimi. E, já que estamos falando em Japão, procure no cardápio os pratos da cozinha nikkei, resultado da fusão entre as culinárias japonesa e peruana, que está na crista da onda depois de ter sido revelada ao mundo pelo überchef Nobu Matsuhisa, do Nobu nova-iorquino.
Os forasteiros já descobriram o Wanchako: na temporada, a fila de espera é demoradíssima - se não quiser esperar, tente o almoço, de segunda a sexta, quando é mais tranqüilo. Venha em turma para experimentar pelo menos dois ceviches (um tradicional e um moderninho - o Nazca, com shoyu e pepino sunomono, por exemplo) e dividir alguns pratos principais, como o arroz de mariscos ou o peixe grelhado ao molho de gengibre com arroz de alho. Mas não deixe a mesa sem provar um suspiro limeño, o creme mais gostoso do planeta.
Querendo esticar em algum lugar em que os maceioenses estejam em maior número que os turistas, vá ao bairro de Jaraguá, onde a Chopperia Orákulo tem noites dedicadas a samba, forró e música de barzinho. Para dançar, faça como o povo mais moderno da cidade e se jogue na danceteria GLS Toy, que abre às sextas e aos sábados.
Uma esticada no paraíso: Rota Ecológica
A região mais desempacotada de Alagoas - nem os passeios bate-e-volta chegam ali - fica entre Barra de Santo Antônio e Maragogi, num trecho em que a estrada principal se afasta da costa. Conhecido pelos íntimos como Rota Ecológica, esse pedacinho do paraíso reúne algumas das pousadas mais charmosas do Nordeste. Alguns dias lá dão o fecho ideal a uma temporada em Maceió.
Não é nenhum lugar próprio para ir e voltar no mesmo dia. A estrada é difícil (e interrompida por uma balsa), e o acesso aos melhores trechos de praia se dá invariavelmente pelas pousadas, que nem sempre estão abertas a visitantes. Para curtir a maior virtude desse litoral - o sossego -, é preciso dormir e acordar por lá.
São Miguel dos Milagres, a 100 quilômetros de Maceió, concentra o maior número de pousadas, entre as praias do Toque e de Porto da Rua. Ali, a decana Pousada do Toque possui bangalôs espaçosíssimos, quase todos com jardim de-inverno; três têm piscinas privativas (e lotam com bastante antecedência). Sua vizinha, a Pousada do Caju, neste ano ganhou novos proprietários, portugueses, que passaram a tocar o lugar com requintes de alta hotelaria. Tipo assim: em que lugar do jardim você quer que sua mesa seja montada para o jantar? Mais adiante, a Pousada da Amendoeira afirmou-se como reduto de uma moçada animada que usa a praia para praticar esportes e adora os pratos saudáveis e saborosos que saem da cozinha (até o arroz integral é gostoso). Do ladinho do vilarejo de Porto da Rua, a Côté Sud espalha seus chalés por um coqueiral e tem um riozinho que corre no fundo da propriedade; a piscina, debruçada na praia, é um charme.
Já no município de Porto de Pedras, os donos da pousada Aldeia Beijupirá - que fica na Praia da Lage, a mais bonita da região - assumiram a antiga Um Milhão de Estrelas, agora Borapirá. Em conjunto com o Ibama, a Borapirá quer construir um viveiro para os peixes-bois do Rio Tatuamunha, visando cativar hóspedes que não gostam de resorts e têm filhos pequenos. Já a Praia do Patacho é o endereço da novidade rústico-chique da região: a Pousada Patacho, com apenas três quartos pé-na-areia.
Atravessando o Rio Manguaba de balsa, você chega a Japaratinga, já a caminho de Maragogi. Ali está a Estalagem Caiuia, cujos quartos ficam praticamente dentro d'água na maré cheia e cujo restaurante, recomendadíssimo, está sempre aberto a quem passa. A melhor vistada região fica quase no fim da Rota Ecológica, na elegante Pousada do Alto, que acaba de inaugurar uma supersuíte perfeita para lua-de-mel.
![]()
Conheça: Guia Quatro Rodas | National Geographic Brasil | Viagem e Turismo
Expediente | Mapa do site | Política de privacidade | Anuncie | Faleaqui
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados. All rights reserved.
Site melhor visualizado em 1024x768