Precisamente um mês depois eu estava na carroceria de uma picape, música folclórica alta tocando no rádio, deixando Quito, a capital, rumo ao sul pela Rodovia Panamericana. A via está sobre o vale que separa duas cordilheiras - a leste, a Cordilheira Real; a oeste, a Ocidental. Percorria a Avenida dos Vulcões, nome dado pelo explorador alemão Alexander von Humbolt, em 1802, àquele pedaço de terra. A cada quilômetro da estrada se descortinavam novos cenários, um patchwork de tons de amarelo, verde e laranja, desenhado nas encostas pelas plantações de quínua e batata. Mas é olhando para cima que a Avenida revela o porquê de seu nome. Dos 55 vulcões do país - oito em atividade -, os nove mais grandiosos estão ali.
Como um aperitivo para o prato principal da viagem, os primeiros a se apresentar são os "nanicos", como o Pasochoa, o mais baixo da Avenida, com 4 200 metros de altitude. Localizado a apenas 30 quilômetros de Quito, em um parque que leva seu nome, ele é utilizado por escaladores e trekkers para aclimatação à altitude. É bom saber que Quito já está a 2 800 metros, ou seja, já saímos de lá, para os padrões brasileiros, nas alturas. As trilhas do parque variam de fáceis a verdadeiramente extenuantes e levam a um dos poucos redutos de plantas endêmicas dos Andes, que ficaram protegidas pelas paredes da cratera.
À medida que eu avançava ao sul pela Avenida, outros vulcões, cada vez maiores, ponteavam o trajeto. Quase todos secundários diante do Cotopaxi, o vulcão ativo mais alto do mundo, com 5 897 metros, adornado com seu manto glaciar e que reina suntuoso na paisagem. A seus pés, cavalos selvagens pastam em campos verdes. O Cotopaxi pode ser "enfrentado" em níveis distintos de dificuldade - e adrenalina. Se sua respiração fica ofegante depois de um pequeno lance de escadas, melhor tentar as cavalgadas e caminhadas na base; para quem tem preparo físico mediano e se dá o direito de alguns dias de aclimatação, uma boa idéia é carimbar o tíquete para algo maior, o popular tour até o Refúgio José F. Ribas, a 4 800 metros.
Nos passeios a partir de Quito, os turistas são deixados 200 metros abaixo do abrigo para seguir a pé. Parece pouco? Parece. Só que a essa altitude as pernas ficam pesadas e até respirar exige certo esforço. Junte a isso uma trilha íngreme e fofa - o que lembrava uma duna -, o vento gelado dos Andes e a poeira vulcânica que penetra onde menos se espera. Resultado: os 200 metros, que numa caminhada normal são cumpridos em três minutos, ali levam 45. Mas, depois de um chá quente e de uns minutos de contemplação, você descobre que ainda restou gás para prosseguir na trilha de rocha vulcânica que começa ao lado do refúgio e leva até a borda do glaciar.
Quem decidir ir ao topo do vulcão não precisa de grande técnica. Basta ter noções básicas de escalada, boa forma física - boa mesmo - e estar adaptado a grandes altitudes. Os grupos saem do refúgio perto da 1 da madrugada. Deve-se subir até o amanhecer e fazer o caminho de volta antes que o sol deixe a neve e o gelo instáveis, o que aumenta o risco. São extenuantes sete horas galgando rampas de lava solidificada, fincando grampões no gelo e se desviando de gretas que é melhor nem imaginar aonde podem levar. O corpo parece responder com atraso aos comandos do cérebro, e cada passo transforma-se em vitória pessoal. O esforço é amenizado com a visão do vale pintado numa palheta de tons pastel nas primeiras horas do dia. A recompensa final é sentar-se à beira da boca do titã conquistado e observar a fumaça de gases sulfurosos que emanam daquele cone perfeito. A descida dura de três a quatro horas.
Depois de um merecido "até breve" ao Cotopaxi, a viagem segue, rumo ao sul. Um bom desvio da Panamericana é na entrada para Latacunga, em direção à Laguna Quilotoa. Sobre uma cratera de um vulcão extinto está um lago de um verde-esmeralda tão intenso que parece ter recebido uns galões de tinta. A cor é resultado dos minerais existentes na água e da grande quantidade de gás carbônico mesclado com hidrogênio sulfuroso. É possível descer do mirante até a beira da lagoa por uma trilha difícil. Caso falte energia para fazer o caminho inverso, considere voltar no lombo de uma mula (a módicos 5 dólares). As agências de turismo de Quito levam à região, em passeio que também inclui visita a povoados e aos coloridos mercados da região.
De volta à Avenida dos Vulcões, a rodovia leva à cidade de Riobamba, a 170 quilômetros de Quito, para um encontro com o gigante entre os gigantes: o Chimborazo. Com 6 310 metros, ele foi considerado, durante muito tempo, a montanha mais alta do mundo. Mas, em 1852, foi destronado - e não, definitivamente, por qualquer um. Ele foi superado pelo Everest e seus 8 848 metros. Hoje sabe-se que há montanhas mais altas no próprio Himalaia e, bem mais perto, no Peru: o Huascarán, na famosa Cordilheira Branca, tem 6 768 metros.
Mas 6 310 metros é muita, muita coisa. A subida ao cume é considerada técnica e exige boa experiência em escalada, equipamento de montanhismo completo e preparo físico excelente. Com três "nãos" na lista de pré-requisitos básicos, não arrisquei. Em contrapartida, turbinei o trekking até o segundo refúgio do Chimborazo com uma descida de mountain bike. Fui ejetado do conforto do 4x4 em um ponto varrido por um vento gelado que não poupa nem um centímetro de pele descoberto. Na subida de cerca de uma hora até o Refúgio Edward Whymper, a 5 mil metros de altitude, lápides com o nome dos escaladores que morreram na tentativa de chegar ao topo confirmaram minha boa escolha.
A rota dos passeios de bikes pode variar de 30 a 40 quilômetros. No pontoinicial do trekking, as bicicletas já nos aguardavam para começar a descida. O chiar do vento que penetrava pelo capacete às vezes era interrompido pelo grito dos pastores que conduziam seus rebanhos de alpaca. Vicunhas selvagens e lhamas também passeiam tranqüilos ali, protegidos dos caçadores e consumidores por estarem numa reserva criada em 1987. Cada dobrada de esquina no trajeto me revelava novos ângulos do imponente Chimborazo, que escoltou boa parte do percurso.
De volta ao hotel, ao tentar tirar do solado da bota o que eu esperava muito ser uma pedra de lava, me veio aquele pensamento que acomete o viajante após a conclusão de um roteiro aventureiro como esse: "E agora? Qual será meu próximo destino?" Isla Margarita, alguém?
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