Depois de mais ou menos meia hora angustiante no céu escuro, o comandante informou que "uma pequena vibração na turbina" obrigava o avião a retornar a Miami, "por uma questão de segurança". Outros infindáveis minutos se passaram, sem novas informações, até que o avião pousou sem problemas no Aeroporto Internacional de Miami. Uma salva de palmas e gritos de satisfação dos passageiros, mais por alívio que por qualquer outra coisa. A rigor, o incidente acabaria aqui, no que se refere à parte técnica. O relato que segue, entretanto, é o registro de uma seqüência de erros.
Os comissários estavam despreparados para manter a calma no vôo. Alguns deles se comportaram como garçonetes de luxo e demonstraram ter apenas ligeiras noções de segurança. Eu mesmo precisei, ao lado do companheiro de assento, Aldo, acalmar uma aeromoça e lembrar a ela que os nossos papéis ali estavam invertidos. Na falta de uma versão oficial, os passageiros passaram a comentar entre si o que viram (ou achavam ter visto) durante o incidente. Instalou-se progressivamente um clima de pânico coletivo, sem o controle adequado por parte dos comissários - apesar de bem-intencionados, pareciam jacarés paralisados diante do foco de uma lanterna. Só não houve maiores conseqüências porque as pessoas estavam meio atordoadas com o incidente e nenhum problema mecânico adicional piorou a situação.
A versão sintética do comandante sobre o que ocorreu deu a sensação de que ele omitiu fatos. A intenção de tranqüilizar os passageiros é compreensível. Mas, depois do pouso, por uma questão de respeito, nós bem que merecíamos uma explicação honesta e completa dos fatos.
Nos balcões da TAM, marcianos teriam sido tratados de forma mais calorosa pelos despachantes de plantão. Houve longas esperas e muita improvisação (entende-se que, naquela hora da noite, encontrar lugar para tanta gente não foi tarefa fácil). Os 227 passageiros acabaram encaminhados para um resort de Aventura, área milionária a 35 minutos de Miami. O trajeto foi feito em ônibus que pareciam viaturas escolares, cujos motoristas não sabiam direito o caminho. Não fosse pela ajuda de alguns passageiros que conheciam a região, não teríamos chegado. Em nenhum momento houve sequer um representante da TAM para apoiar essa operação - nem a volta ao aeroporto, no dia seguinte.
O resort era uma unidade do Fairmont, pertencente a uma cadeia canadense de hotéis de luxo. Ironicamente, todos nós, que havíamos nos preparado para viajar como sardinha em lata na classe econômica, nos vimos, por poucas horas, num ambiente altamente sofisticado. A menor cama era king-size, os banheiros tinham jacuzzi e os quartos imensos contavam com telas planas e mordomias de última geração. O problema é que, na prática, público e local não combinavam. Afi nal, como compatibilizar com os preços praticados pelo Fairmont a baixíssima quantia, 28 dólares, que cada um recebeu da TAM para jantar e tomar café-da-manhã? Lá, um suco de laranja custa 5,50 dólares e quatro torradas com manteiga não saem por menos de 6,50. Assim, o café-da-manhã incompleto para dois que pedi (entregue no quarto às 4h30, em cima da hora marcada para voltar ao aeroporto), com os 20% e a taxa de entrega, saiu por 43 dólares - gorjeta, claro, à parte. E o jantar? Nem pensar. O serviço de quarto mal conseguiu responder às ligações. Naquela noite, eram mais de 200 pedidos de uma só vez, e o tempo de espera informado foi "entre uma hora e meia e duas horas". Assim, com saudades da gororoba do avião, todos passamos fome juntos.
O Fairmont foi um desastre à parte. Na chegada, à 1h, cansados e estressados, os passageiros tiveram de entrar numa interminável fila de check-in para se registrar e informar seus cartões de crédito. Era como se não houvesse ali nenhuma situação de emergência e todos fossem hóspedes normais que chegam relaxados a mais uma temporada de golfe. E no check-out, por volta das 5h, houve nova fila, dessa vez para ver se os débitos dos passageiros correspondiam aos créditos autorizados pela TAM (que pagou nossas diárias). Pasme: um único funcionário do hotel estava ali para atender a todos.
Passado o calor do momento, será que foi tudo apenas um incidente a que toda companhia aérea está sujeita, falta de manutenção ou azar? Pessoalmente, aposto nas três coisas.