Para ir do pequeno aeroporto de Carrasco ao bairro de Pocitos, onde fica nosso hotel, seguimos a dica de uma amiga e pedimos para o motorista pegar a rambla, a avenida beira-rio que muda de nome e percorre Montevidéu. A cada curva, um pouco do jeito da cidade vai se revelando. Prédios baixos, muitas árvores, praias e calçadões. O grande número de montevideanos aproveitando o sol do sábado para se exercitar - seja correndo, seja andando de bicicleta - me faz lembrar imediatamente do Rio de Janeiro. Montevidéu tem praia!
Mas não temos tempo para um footing relaxado. Depois do check-in, partimos para o Mercado del Puerto, o grande centro gastronômico, cheio de restaurantes especializados em parrilla, o churrasco à moda uruguaia. No caminho, a primeira coisa que chama atenção é o táxi: dentro da capital, todos têm um vidro à prova de balas que separa o condutor dos passageiros no banco de trás - uma medida de segurança tomada nos anos 90 para conter os assaltos a taxistas. Hoje, muitos dos motoristas dizem que a proteção é um exagero e não ligam se o passageiro viaja no banco da frente.
Foi onde me sentei pra bater um papo com o taxista Julio: "É notório. Nunca houve tantos brasileiros aqui", diz ele. Talvez por isso eu e meu castelhano esforçado não tenhamos demorado para nos sentir em casa. Dentro do mercado ouvi muito português, é verdade (ou "brassilêro", como os uruguaios dizem). Mas, sob a estrutura de ferro do galpão de 1868, há gente de outras partes do mundo. A explicação: o porto, logo ali em frente, é onde atracam os cruzeiros internacionais.
Diante de cortes como chinchulín (intestino delgado) e riñones (rins), faço uma opção conservadora: peço asado de tira (costela), chorizo (lingüiça) e, vá lá, uma morcilla (lingüiça feita com sangue). Tudo simples e ótimo, o que me traz a seguinte questão: se no Brasil também temos vaca, sal e lenha, por que somos incapazes de fazer um churrasco tão bom? O momento de filosofia gastronômica é interrompido por Mario, um indonésio que trabalha como garçom em um cruzeiro e me pede ajuda para escolher seu prato. Ele come rápido, pois tem de estar de volta ao navio às 16h (a partida é às 17h). Assim que Mario se levanta, uma brasileira se senta ao meu lado e vai logo pedindo uma Patricia, a cerveja preferida dos uruguaios. Angela Wolf, de 47 anos, é professora de história da arte, dá aulas na PUC do Rio Grande do Sul e costuma vir dirigindo seu próprio carro. "No verão é muito cheio. Já no inverno a cidade fica mais dos uruguaios, menos turística. Eu adoro", diz ela.
Saindo do mercado, vou caminhar pela Ciudad Vieja, o bairro mais antigo da cidade. Nos cruzamentos há guardas com colete verde-limão. É a Polícia Turística, criada para garantir a segurança dos visitantes. Numa placa descubro que a Calle Sarandí foi batizada em homenagem a uma batalha em que as tropas do então Império Brasileiro levaram uma surra das forças do Uruguai, em 1825 (três anos depois, o país conseguiria ratificar sua independência do Brasil e da Argentina).
No calçadão da Sarandí, às 16h30, o comércio já fechou. Na Plaza Constitución há uma feirinha de antiguidades que, àquela altura, estava sendo desmontada - o ritmo ali parece ser ditado pelos passageiros dos cruzeiros. "Se você quer fazer compras agora, é melhor ir ao shopping", diz uma vendedora. Descubro que na Ciudad Vieja, à exceção das lojas descoladas da Calle 25 de Mayo, que ficam abertas até as 18h, o comércio fecha por volta do meio-dia e só reabre na segunda.
A Sarandí desemboca na Plaza Independencia através da Puerta de la Ciudadela, portal que fazia parte do muro erguido no século 18 para proteger a antiga Montevidéu. No meio da praça, sob uma enorme estátua eqüestre, fica o mausoléu do general José Gervasio Artigas, herói máximo da independência uruguaia - que, tragicamente, foi obrigado a acompanhá-la do exílio no Paraguai, onde viveu até a morte, em 1850.
Ao redor da Plaza Independencia, a construção que mais se destaca é o rebuscado Palacio Salvo, de 1928. Ainda hoje o prédio mais alto da cidade, com quase 100 metros de altura e 26 andares, é carinhosamente chamado pelos uruguaios de El Feo. O apelido ("O Feio"), entretanto, ficaria melhor em outro edifício da Plaza Independencia: a pós-moderna Torre Ejecutiva, coberta de vidros azuis, que está em obras e, quando estiver pronta, deve ser a sede do governo uruguaio.
Diante do Palacio Salvo, quem já visitou Buenos Aires pode ter a sensação de déjà vu. Na Avenida de Mayo, uma das principais da capital argentina, fica um enorme edifício muito parecido com ele, o Palacio Barolo, de 1923 - ambos foram projetados pelo italiano Mario Palanti. Há muitas outras semelhanças entre Montevidéu e Buenos Aires, a começar pelo fato de as duas ficarem às margens do Rio da Prata. Mas uma diferença é fundamental: com seu 1,8 milhão de habitantes, a capital uruguaia ainda se mantém incrivelmente tranquila. Seis vezes maior, Buenos Aires sofre muito mais com o trânsito e outras faces do caos metropolitano.
Depois de observar os meninos jogando futebol na praça, seguimos pela 18 de Julio até a Plaza del Entrevero, um agradável jardim diante do qual, rodeado por uma pequena platéia, um casal de velhinhos dança tango docemente. Alheios ao espetáculo, os namorados Marco, de 23 anos, e Victoria, de 22, tomam seu mate - se você acha que os gaúchos são maníacos por chimarrão, é porque nunca esteve no Uruguai. Entre um gole e outro, ele sugere um bom programa para o fim da tarde: "Vocês deveriam ir à rambla".
Dica aceita. De táxi, vamos pela rambla até chegar à Playa Ramírez. Sentamos na mureta que divide o calçadão da areia. De um lado, o Rio da Prata. De outro, o Parque Rodó, uma espécie de Central Park. Alguns jovens se exercitam, outros tomam cerveja direto na garrafa e papeiam enquanto o sol se põe. Está na hora de ir jantar e se preparar para conhecer a noite da capital.
Graças aos inúmeros boliches, Montevidéu é um paraíso para os boêmios. A tempo de evitar um mal-entendido, a explicação: boliche é como são chamados os bares no Uruguai - se você quiser se divertir derrubando pinos, deve procurar um bowling. Um dos templos da noite montevideana é o Fun Fun, desde 1895 na Calle Ciudadela, no Centro. As fotos e relíquias penduradas na parede e o balcão de estanho são sua marca registrada. Aos sábados, para conseguir uma mesa no lugar em que Carlos Gardel cantou em 1933 e Jorge Amado jogou conversa fora nos anos 50, é preciso chegar antes das 22h30. Como eu e Caio só aparecemos lá por volta de meia-noite, foi impossível sentar, encostar no balcão ou tirar fotos. Todos os cantos estavam lotados - às mesas havia desde velhinhas que freqüentam o lugar há décadas até jovens em busca de boa música. Para não perder a viagem, provei rapidamente a doce uvita, drinque à base de vinho tinto e vinho do Porto que foi inventado ali mesmo. Do lado de fora, encontro uma elegante senhora de branco. É Edid Ábalos, que se prepara para cantar no palco do Fun Fun - o que ela tem feito nos últimos dez anos. No programa da noite, tango. "Aqui não se dança", diz ela, explicando que os freqüentadores da casa vão lá apenas para ver e ouvir.
No domingo de manhã Caio e eu fomos para a Calle Tristán Narvaja, no bairro de Cordón, em busca do mercado de rua mais famoso de Montevidéu. No início, perto da Avenida 18 de Julio, ele se parecia com uma feira livre, com frutas e legumes. Pouco a pouco, a descoberta: sob a sombra de plátanos, os feirantes vendem antiguidades, livros e artesanato. Nas ruas transversais, a oferta vai de material de construção a cacarecos, como rádios antigos e computadores - nem tão antigos, mas totalmente obsoletos. "Aqui tem de tudo", diz Francisco Peluffo, de 40 anos, há seis vendendo suas pinturas ali. "Dizem até que já apareceu um Stradivarius."
Enquanto os estrangeiros pechincham e fazem compras, os uruguaios parecem estar mais preocupados em passear entre as barracas e tomar mate. Saindo da Tristán Narvaja, vamos ao La Vaca, um dos bons restaurantes do bairro de Pocitos. Pedimos uma degustação de parrilla. Por menos de 40 reais, chega à mesa uma porção com picanha de novilho, costeletas de cordeiro, ojo de bife e filé de porco. Após o excesso carnívoro, nada melhor que uma caminhada pela Rambla.
Entre o Porto do Buceo e Pocitos, encontramos o Skate Park, uma pista em forma de piscina lotada de skatistas e ciclistas. Sentado numa mureta, um homem que aparenta 70 anos observa os meninos e meninas arriscarem suas manobras. Lembrei-me de, no Brasil, ter ouvido dizer que Montevidéu é uma "cidade de velhinhos". Na verdade, o número de idosos me impressionou menos que sua atitude: às mesas de bar ou numa pista de skate eles não hesitam em se misturar aos jovens. Ao lado do senhor de cabelos brancos, um casal também acompanha o cair da tarde - e de alguns skatistas. Pergunto a Jaime Cabrera, de 31 anos, como é a vida em Montevidéu. "Aqui é como uma cidade do interior, todo mundo se conhece", diz ele, um publicitário nascido na Argentina, criado no Uruguai e que fez o ensino médio no Rio Grande do Sul. Ele afirma que chegou a vender tudo o que tinha para morar no Brasil, mas resolveu ficar ao conhecer a atual namorada, Leticia, uruguaia. Apesar de preferir as grandes metrópoles, Jaime se rende a Montevidéu. "É uma aldeia linda, cara", diz, em bom português. Difícil não concordar com ele.
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