Já passava das 4 da tarde quando eu e o fotógrafo Pablo de Sousa desembarcamos em Teresina, a cidade cajuína. Um bafo quente veio nos receber. Éramos assim apresentados à capital do Piauí, onde a temperatura quase nunca fica abaixo dos 35 graus e a sensação térmica, dos 50. Não havia multidões a nos esperar no saguão do aeroporto. Era, afinal, um dia útil. Havíamos reservado o hotel Rio Poty. O ar-condicionado funcionava, um bom augúrio, e no quarto ao lado, vimos pelo terraço, estavam duas garotas capixabas que vinham disputar em Teresina uma etapa do nacional de vôlei de praia. Incrível que eu houvesse puxado conversa com exatamente uma delas no avião. Era verdade, então: Teresina tinha praia. Foi preciso tomar um segundo táxi, ou melhor, uma mototáxi, que dá na cidade tanto quanto caju, para que fosse desfeita a confusão. Era uma arena de vôlei (de praia) construída no estacionamento de um shopping. Senza mare. Melhor assim. Já há água suficiente nos dois rios que encapsulam a cidade, o Poty e o Parnaíba. E conhecer o encontro desse Negro-Solimões do Piauí, ou melhor, desse Tigre-Eufrates (alguns chamam Teresina de "Mesopotâmia brasileira"), era uma obrigação, exatamente o que eu e Pablo íamos fazer na manhã seguinte.
O Piauí é um dos lugares mais subestimados do país. Nelson Rodrigues escreveu em 1969 que passou "40 anos sem lembrar do Piauí". Dessa frase em diante, lembrou-se bastante do estado. "Há quem diga que o Piauí é tão só, na comunidade brasileira, tão só como um Robinson Crusoé sem radinho de pilha", prosseguiu. E nos 39 anos seguintes, quando alguém se lembrava do Piauí, não o fazia para enaltecer a beleza de suas paisagens ou a simpatia de sua gente, mas para escarnecer. "O Piauí, como não pode exportar know-how, está exportando don't know what", escreveu Millôr Fernandes. É possível que você já tenha se aproximado do Piauí. Pode ter conhecido os Lençóis Maranhenses - que têm uma extensão no Piauí; pode ter freqüentado Jericoacoara e região, que se alarga, com dunas e muitas lagoas, a oeste, pelo Piauí; pode até ter ido ao Jalapão, cujo cenário adentra pelo sul do Piauí. E pode ter conhecido todas as capitais do Nordeste, menos uma: Teresina. Por essas e por outras, há no piauiense certa dor de olvido, a dor da falta de reconhecimento.
Há no Piauí lugares que vale conhecer. Seus parques nacionais, o de Sete Cidades, com as estranhas formações de pedra, e o da Serra da Capivara, com riquíssima coleção de desenhos pré-históricos, são atrações indiscutíveis. O Delta do Rio Parnaíba é um lindo ecossistema de mangue, dunas e lagoas. Teresina é diferente. Estávamos, você se lembra, indo ao encontro dos rios. Fomos aconselhados a evitar o bairro de Buenos Aires e seguir direto ao Poty Velho, onde está um interessante núcleo de ceramistas. O parque de onde saem os barquinhos para o encontro dos rios é facilmente localizável. Como referência, há uma escultura monumental do Cabeça de Cuia, mito fundador do estado. Por castigo materno, diz a lenda, o Cabeção vive submerso no Parnaíba, alimentando-se de virgens a cada sete anos. Quando rareiam, dá de atacar meninos, razão pela qual as mães piauienses põem suas barbas de molho. O Parnaíba ali é raso e tinhoso, cheio de bancos de areia e pequenas praias, exigindo habilidade e memória do capitão. O passeio não é um must, mas uma cerveja no bar flutuante ancorado na margem pode ser uma idéia.
Teresina não é pequena. Contado seu entorno, soma cerca de 1 milhão de habitantes. A leste, tem ruas com dezenas de espigões de apartamentos de alto padrão. Mas, nessas mesmas ruas, casinhas simples, árvores frondosas e iluminação deficiente irrompem, como a reclamar um lugar para os velhos costumes. É num desses quarteirões de semibreu que Elias da Costa toca seu botecão, o Camarão do Elias. Ele nos recebe com caju e cachaça piauiense, a (lá) famosa Mangueira. Explica que seu camarão viaja de Parnaíba, a 350 quilômetros, e que sua mistura de temperos agrada à clientela. O lugar já teve uma estrela do Guia Brasil, e com isso virou atração turística. A bonita ponte metálica sobre o Parnaíba liga a capital do Piauí à cidade-dormitório de Timon, já no Maranhão, onde mora a estrela teresinense do momento, a big sister Gyselle Soares. Sob a ponte, dezenas de lavadores puxam água do rio para dar um trato nos carros por menos de 10 reais. Coisa fina, com direito a aspirador no habitáculo e cera na lataria. A sessão dura uma boa hora, e os motoristas gostam de acompanhá-la. Mas não ficam para o espetáculo de verdade, quando os lavadores se vão com suas mangueiras e traquitanas em cima de bicicletas, num equilíbrio de circo.
Teresina evitou a tentação das obras faraônicas, algo louvável, conhecendo-se o espírito público dos administradores brasileiros. Até mesmo o palácio de governo está numa escala, digamos, residencial. Ironicamente, chama-se Palácio do Karnak, referência a um dos maiores santuários da Antigüidade. Não se tem notícia de que seu jovem governador, Wellington Dias, do PT, se poste diante de seus aspones com olhar altivo e pescoço imóvel, em gestual de quem legisla sobre sóis e luas. Com tudo isso, a despeito da importância simbólica e logística como capital de estado, uma visita ao Piauí prescinde de Teresina. À Serra da Capivara se pode chegar a partir de Petrolina (PE), que tem vôos diretos para São Paulo e Rio; e para o Delta do Parnaíba se vai por Jeri ou pelos Lençóis Maranhenses.
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