Andréia retificou uma injustiça histórica com o inconfidente, mas não está sozinha. Mais outras pessoas - físicas e jurídicas - estão trabalhando em favor de Ouro Preto. Em 2006, a maria-fumaça para Mariana voltou a andar nos trilhos após o investimento da Companhia Vale do Rio Doce no trem e nas quatro estações do trecho de 18 quilômetros. Em julho passado, a reinauguração do Teatro Municipal, antiga Casa da Ópera, de 1770, trouxe de volta ao lugar o título de teatro mais antigo do Brasil em funcionamento.
Isso tem ajudado a compor um cenário bem diferente do de quatro ou cinco anos atrás, quando a história parecia rolar ladeiras - e morros - abaixo. Em 2002, um caminhão destruiu um chafariz do século 18 na Rua das Escadinhas. Depois um incêndio consumiu completamente o antigo Hotel Pilão, na Praça Tiradentes, marco zero ofi cioso de Ouro Preto, deixando um vazio na praça e no peito de quem prezava a cidade. Pelas encostas seguiam a proliferar casas humildes, criando uma nódoa visual no conjunto arquitetônico secular. Naquela época pairava uma ameaça sobre Ouro Preto: a perda do título de Patrimônio da Humanidade dado pela Unesco. Ouro Preto foi a primeira cidade brasileira assim denominada, ainda em 1980. Em 2003, depois de uma denúncia do próprio Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o arquiteto da Unesco Estéban Prieto redigiu um laudo oficial. Informava às autoridades locais que, se nada fosse feito, a comenda cairia.
Seria um golpe mortal. Ouro Preto tem o mais importante e o mais numeroso patrimônio arquitetônico do Brasil colonial, com 2 mil imóveis de algum interesse histórico (a contagem exata está sendo feita pela Secretaria de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano local). Se havia alguém a personificar tanto descaso, era a então prefeita, Marisa Xavier. Que em 2003 foi afastada pela Câmara dos Vereadores justamente por sua negligência com o patrimônio histórico da cidade. Ela ficou famosa por desdenhar do resultado econômico do turismo em Ouro Preto - e não implantou um Plano Diretor aprovado em 1996.
A mineração é - como sempre foi - a "locomotiva" do município: representa 80% da receita local. Mas o turismo cresce. Segundo a Secretaria de Turismo de Minas Gerais, 300 mil visitantes foram à cidade em 2005. Em 2007, 460 mil. Angelo Oswaldo, atual prefeito, é homem afeito às coisas da conservação. Traz no currículo, por exemplo, a presidência do Iphan entre 1985 e 1987. Mas ele sabe que é impossível congelar a cidade que administra no século 18 e virar as costas às demandas da atividade mineradora. "Ouro Preto não é uma Disney colonial, como Williamsbourg, nos Estados Unidos", disse à VT. "Isto aqui não é um cenário.
Mesmo assim, sua gestão vem conseguindo produzir boas notícias. Já foram entregues à população bons projetos de restauração, como a casa de Tomaz Antônio Gonzaga, outro ilustre poeta inconfidente, que hoje hospeda a Secretaria Municipal
de Cultura. Ainda neste semestre deve ser inaugurado o Horto Botânico. A área de 70 mil metros quadrados deve se tornar um parque municipal urbano com trilhas para caminhadas, brinquedos, fontes, lagos e dois anfi teatros. O diabo é que depois da restauração vem outro desafi o: a preservação contínua dos locais, sobretudo na época de maior visitação, o Carnaval, quando a cidade costuma receber 50 mil foliões.
Pode parecer paradoxal, mas o turismo de massa é um problema para Ouro Preto. A cidade, de clara vocação para o turismo histórico, e, portanto, mais sofisticado, se desenvolve à custa de um público digno de Porto Seguro. Que prefere pegação e capeta a retábulos de ouro e aos jogos ópticos de Mestre Athayde, pintor de algumas obras-primas barrocas, como o teto da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis. A cidade enche no Carnaval, na festa do "12" (o 12 de Outubro, que em outras universidades é a Semana do Saco Cheio) e em mais algumas datas festivas. A julgar pela pesquisa feita pela repórter Camila Rossi para o Guia Brasil 2009, Ouro Preto, estudantes e suas repúblicas estão ainda mais indissociáveis. O Solar da Ópera e o Triumpho, dois restaurantes, abandonaram seus cardápios e nomes originais para investir em algo mais rentável: chope e cachaça.
É pouco provável que os estudantes cerrem fileiras pela música barroca ou pela iconografia cristã. Assim, os "pensadores" do turismo local buscam um público afim com a história e o patrimônio. "Buscamos turistas que não queiram só cair na gandaia", diz Deise Lustosa, diretora do Museu do Oratório, o mais interessante da cidade. Ela e outros museólogos reúnem-se para pensar programas de promoção da cidade. Um que deu certo foi o Museu Aberto - Cidade Viva, que identifica as antigas casas de personalidades ouro-pretanas. Como a de Cláudio Manoel da Costa.
Outro imóvel sinalizado pelo Museu Aberto, a do engenheiro Henrique Dumont, pai de Alberto Santos Dumont, hoje é ocupado pela quituteira Ione Trópia. Ela inventou o Café Mineiro na Casa Colonial - nada mais do que a velha hospitalidade mineira ambientada numa casa secular. Cozinheira de mão-cheia, Ione recebe sempre às 6 da tarde grupos com o seguinte cardápio: bambá de couve, pasteizinhos de angu, broa de canjica, pão de queijo com lingüiça, bolo de mandioca. A visita termina três horas depois, com uma brevidade (para os não-mineiros, um bolo). A pedidos, há ainda contação de lendas e causos de Ouro Preto.
Aqueles que se interessam por música barroca não estão órfãos. Ouro Preto, em seu auge aurífero, entre 1750 e 1810, gestou mais de mil músicos e viu surgir 2 500 composições. Um terço dessas partituras está no Museu da Inconfi dência, que em 2006, aos 62 anos, recebeu sua primeira reforma. Mas quando Elisa Freixo, a organista da Catedral da Sé, em Mariana, abre sua casa em Ouro Preto para concertos intimistas, a conversa é outra. Elisa conta bastidores da criação das músicas, chama atenção para as sonoridades particulares e os instrumentos da época - proporciona, em suma, uma deliciosa aula de história musicada. Como ela estava de mudança em abril, suas apresentações devem ocorrrem este mês no Museu do Oratório.
As novidades de Ouro Preto demandam uma maior organização quanto à informação dada aos turistas. Segundo um estudo levado a cabo por diversas instituições, visitantes que passaram pela cidade nos dois últimos anos criticaram bastante os preços e a informação e sinalização turística". Mas há boas notícias aí também. No lugar do incendiado Hotel Pilão surgiu o Bureau do Instituto Estrada Real, um bem-vindo ponto de apoio aos turistas, com quatro computadores.
O esforço não resolveu um problema que parece tão secular quanto a cidade - a abordagem dos guias de turismo, digna de vendedores marroquinos. A situação piora em feriados, quando os visitantes são quase disputados no tapa. O melhor a fazer é perguntar nos hotéis pelos melhores guias - muitos não conseguem sair daquele ramerrão decorado. Ao menos agora usam crachá e uniforme. Os desafi os não acabam por aí. A ocupação das encostas pela população descaracteriza o conjunto arquitetônico - 60% dos 42 mil habitantes que vivem na área central de Ouro Preto estão nas encostas. O prefeito Angelo Oswaldo tenta "desafogar a cidade", em suas palavras, estimulando habitantes desses locais a se mudar para os 12 distritos vizinhos. Apenas 100 famílias foram efetivamente retiradas, por risco de desabamento. Por fim, há o tráfego de caminhões e ônibus pelo Centro Histórico. Foi preciso ocorrer uma morte, na Rua das Flores, no começo do ano, para que a prefeitura e o Ministério Púbico decidissem limitar a circulação desses veículos. Ainda assim, sem tanto rigor. Enquanto os visitantes tentam andar pelas ruas, veículos de até 7 toneladas e 8 metros de comprimento seguem trafegando - antes o limite era de 10 toneladas.
Fico estarrecido ao saber que, em outro acidente, um automóvel quase derrubou um muro da própria Casa do Poeta durante o trabalho de restauração. Nada que turvasse o justo e bonito tributo que Andréia Ribeiro prepara para Cláudio Manoel da Costa: um altar do tamanho da cela em que ele foi confinado e mais tarde encontrado morto, na antiga Casa dos Contos. Como seus colegas inconfidentes que sonhavam com os ideais republicanos
em voga com a Revolução Francesa, o poeta foi delatado por Joaquim Silvério dos Reis. Preso, morreu no cárcere em circunstâncias não esclarecidas. Felizmente, no imóvel em que viveu e que é símbolo do hoje em dia de Ouro Preto, memória e história estão sendo preservadas.
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