Quem motivou a estudante Christiane Pereira a visitar o MLP foi o professor da disciplina português instrumental do seu curso de Relações Internacionais. Ele dispensou os alunos de um dos períodos de sua aula para que fossem ao museu. Ao circular pelos 4 mil metros quadrados distribuídos por três andares repletos de instalações luminosas, livros estilizados e milhares de palavras, Christiane surpreendeu-se. Ao contrário do que pensava, não encontrou ali lições básicas de gramática. "É muito interessante conhecer a história da língua portuguesa e perceber as mudanças pelas quais ela passou", disse logo após descobrir que o vocábulo "almofada" tem origem na palavra árabe almokhadda, que na verdade significa "travesseiro".
A seção em que Christine fez sua descoberta chama-se Palavras Cruzadas. Lá, programas de computador mostram a origem de cerca de 700 vocábulos que o português brasileiro tomou emprestado de línguas africanas e indígenas, do árabe, do francês, entre outras. Outro ambiente bastante lúdico é o Beco das Palavras, onde vocábulos, sufi xos, prefi xos e radicais são projetados em dois telões sensíveis ao toque dispostos como se fossem mesas. Com a palma das mãos, é possível movimentar cada fragmento e dar origem aos mais diversos termos de nossa língua.
Além do acervo permanente do qual fazem parte o Palavras Cruzadas e o Beco das Palavras, entre outras instalações, o museu também abriga exposições temporárias, no 1o andar do prédio. Até o dia 18, documentos, livros, quadros e muitos textos do escritor Gilberto Freyre podem ser vistos numa mostra. Lá a criançada se diverte abrindo gavetas e armários para chegar até as fotos e os textos, além de geladeiras e microondas, para descobrir as receitas brasileiras pesquisadas pelo autor de clássicos como Açúcar (ou Assucar, como se escrevia à época do lançamento) e Casa-Grande & Senzala. Para o segundo semestre está programada uma exposição em homenagem ao centenário da morte de Machado de Assis, cujos organizadores esperam a visita de mais de 50 mil pessoas por mês.
Mas o sucesso do museu, que inicialmente se chamaria Estação Luz da Nossa Língua, não se deve apenas ao apelo educativo. Planejado durante três anos por uma equipe de 35 profissionais, entre sociólogos, museólogos, artistas e especialistas em língua portuguesa, ele atrai também pelo ineditismo do projeto, pela localização e, claro, pela boa divulgação. "Sempre tivemos uma exposição maciça nos veículos de comunicação. A Rede Globo, em especial, foi nossa patrocinadora na montagem e até filmou capítulos da novela Belíssima aqui", diz o superintendente do museu, Antonio Sartini. "E, além disso e do acervo em si, que já é suficiente para despertar atenção, o museu tem localização privilegiada. A Estação da Luz é referência cultural antiga da cidade e de acesso fácil por trem e metrô." Isso foi o que atraiu o microempresário Richard Klink e sua mulher, a psicanalista Clarissa Porciuncula. Morador de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, o casal deixou o carro numa oficina em Santo André, no ABC Paulista, e de lá pegou o trem até o museu, levando menos de meia hora. "Gosto desta região do Parque da Luz. E, como já conheço a Pinacoteca, resolvi visitar este museu agora, que é bem diferente", explica Richard.
Até mesmo a Pinacoteca do Estado já se aproveita do sucesso do museu. "Houve um aumento de público na Pinacoteca imediatamente após a inauguração do Museu da Língua Portuguesa", atesta Sartini. "Da mesma forma, observamos que, dependendo das exposições deles, também vem mais gente pra cá", completa.
O MLP adotou alguns padrões já utilizados na Pinacoteca, como o preço do ingresso e o dia de gratuidade, aos sábados - quando o público chega a 2,5 mil pessoas. O MLP já atrai interesse estrangeiro. Além dos turistas que recebe, deve cooperar com a criação de um museu português nos moldes do brasileiro. Inspirado no MLP, o Instituto Goethe, da Alemanha, planeja a Casa da Língua Alemã, em Berlim. Alguns estudantes da Universidade de Winchester, na Inglaterra, vieram ao Brasil a procura de modelos para criar um futuro museu no seu campus, e representantes do governo da Noruega e da Universidade de Milão, na Itália, também devem reunir-se com a direção do MLP. Ainda que deixe de ser o único, que seu sucesso se mantenha.
ANOTE AÍ
São necessárias cerca de 3 horas para visitar o Museu da Língua Portuguesa (Praça da Luz, 3326-0775, estacaodaluz.org.br). A bilheteria funciona de terça-feira a domingo (10h/17h). Os ingressos custam R$ 4 e, aos sábados, a entrada é grátis.
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