Sim, queríamos. Ato contínuo, eu e Denise traçávamos um bife com batatas e salada enquanto víamos um match da Copa dos Campeões da Europa no bar. Jogava o Ajax, o mais tradicional clube holandês, contra o futebol degouté do escocês Celtic. A partida acabou empatada: 1 a 1. E os holandeses celebraram, pois o Ajax começou perdendo e, pelo jeito, vão longe os dias em que o velho time de Cruyff e Van Basten empolgava alguém.
Saímos do bar e fomos diminuir a pressão arterial no Hotel Pulitzer, onde estávamos. É um hotel aconchegante, construído sobre 25 casas reformadas dos séculos 17 e 18, com quartos espaçosos e janelas pequenas que dão para o Canal do Príncipe, o lindo Prinsengracht.
Se alguém vai a Amsterdã em busca de papéis mais lisérgicos que o nosso, é bom saber que a Holanda já não trata o consumo de drogas de um modo tão liberal. Um gabinete conservador assumiu recentemente e há a idéia de acabar completamente com as lojas que vendem artigos para cultivo de Cannabis sativa em casa. Até os famosos coffee shops, em que se vendem pequenas quantidades da erva para consumo interno, estão ameaçados. Discute-se no Parlamento a proibição desses estabelecimentos a até 200 metros de escolas.
Outra marca de Amsterdã, o Distrito da Luz Vermelha, também passa por mudanças. O governo já investiu 25 milhões de euros na compra de imóveis para diminuir a força do comércio sexual de lá. Antigas vitrines que mostravam lindas malaias, africanas e outras "etnias" exibem produtos de design. Talvez como compensação, o parque Vondelpark agora permite a livre prática sexual - desde que não seja à noite e longe das crianças.
Depois das emoções baratas de nossa chegada, um toque de elegância. Ao acordarmos, demos com um exemplar do diário The New York Times na porta do quarto. Chique. Mas não nos detivemos com os relatos entediantes de caucases e convenções. Queríamos mesmo era saborear aquele belo e anticontinental café-da-manhã. Croissants, geléias finíssimas, pastifícios e um café tirado na hora por um chef que afetava educação. Belo começo de dia.
Era hora de rasgar Amsterdã à maneira local. Passamos na loja Bike City e, por 10 euros, alugamos bicicletas para o dia inteiro. Elas eram à moda antiga, com cestinha (para os girassóis, quem sabe?) e campainha, sem câmbio. Mesmo tão simples, o dono recomendou: "Cuidado. Há ladrões por aqui. Usem estes cadeados". Tive vontade de dizer: "Aloooooou, você está em Amsterdã!", mas me lembrei de que o gringo no caso era eu. Então deixamos a Amstel - a rua que acompanha o rio homônimo - em direção a Brouwersgracht.
Depois de algumas paradas para reabastecimento, prendemos as bikes no corrimão de uma ponte e fomos à Casa de Anne Frank. A menina judia viveu escondida no próprio lar depois da invasão alemã durante a Segunda Guerra. Nesse tempo, escreveu seu famoso diário. Sua vida, encerrada aos 15 anos num campo de concentração, virou até musical - está em cartaz em Madri. Há na casa móveis e objetos pessoais da família, os diários e, mantidos como eram, desenhos, fotos de estrelas de cinema e postais que ela ia colando na parede do quarto para se distrair durante a longa temporada clandestina. A visita é emocionante.
No fim da tarde, voltamos pelo outro lado. Reparamos nos ganchos pendurados em todas as casas e a inclinação dos prédios para a frente. O desnível proposital é para que máquinas de lavar e geladeiras possam subir por cordas sem bater na parede. É claro que os construtores do século 14, época das primeiras obras, tinham outros objetos em mente: alimentos e mercadorias que precisavam ser levadas para as casas.
Radicalizamos no dia seguinte. Se era para ter uma experiência sensorial, que fosse de uma vez. E seguimos para o Museu Van Gogh. O pintor holandês, famosíssimo por suas cores saturadas, pelo tino comercial e pelo pendor para a automutilação, é homenageado com 200 de suas telas e 500 desenhos, as cartas que enviava a seu irmão Theo, além da exibição de sua coleção particular de quadros. Há também pinturas de outros impressionistas franceses, como Manet, Cézanne e Monet. Paramos bom tempo diante da série Os Girassóis, que ele produziu em 1888 e 1889. Inebriados, aproveitamos a onda para entrar no classudo Rijksmuseum, o grande museu do país, com 260 salas e 5 mil pinturas de nomões como Vermeer e Rembrandt - não deixe de ver seu imenso Ronda Noturna.
Depois de várias horas de arte, fomos desbaratinar na Oude Zidje (o bairro Cidade Velha). Nosso objetivo era comprar umas coisinhas no mercado de pulgas na rua Waterlooplein. Mas chegamos um pouco tarde e nada nos interessou. Então saímos pelo outro lado da praça. Ali, entre a Amstel e a continuação da Waterlooplein, em frente ao canal, várias lojas vendem tranqueiras e suvenires. Nossos três filhos não ficariam sem agrados.
Entramos logo na primeira loja. Mal cruzamos a porta, um sujeito sorridente e com uma camisa florida digna dos músicos do Jorge Ben(jor) mandou: "São Paulo". E prosseguiu: "Sou Curíntia, meu". "Brasil. King Lula. Brasil." O fanfarrão adorava o Brasil e achava que íamos comprar a loja inteira como, disse, faziam os brasileiros. Gastamos 50 euros, com direito a uns pirulitos não recomendados para crianças. Não sei se ele se despediu dizendo um anacrônico "Vai pra casa, Padilha".
Guardamos o último dia para um passeio por alguns dos 160 canais da cidade. Fomos à Central Station meio mareados - ressaca do pirulito, quem sabe -, dispostos a fazer como os outros milhões de turistas: pegar um barco. Será que precisaríamos abaixar a cabeça ao passar pelas 1 200 pontes de Amsterdã? Duas horas e 18 euros depois, tínhamos curtido momentos espetaculares. Enquanto o barco deslizava tranqüilo pelas águas, vimos casinhas altas, com vários pavimentos, estreitas, em fileiras, grudadas umas nas outras. Pelo alto-falante ficávamos sabendo em seis idiomas - claro que o português não era nenhum deles - que a igreja era a Oude Kerk; o canal, o Prinsengracht; o museu, a Casa de Anne Frank. Não entendi tudo que ouvi. Mas não vou me esquecer tão cedo do que vi.
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