O mais curioso é ter a sensação de que tudo em Tóquio sempre foi assim. Claro que não foi: a capital japonesa já teve ruas pacatas - como as dos tortuosos labirintos residenciais que se escondem a apenas alguns passos das avenidas vibrantes. Mas ali, no centro de Shibuya, de preferência à noite, com as luzes dos néons e das telas gigantescas de plasma, a impressão é de que aquele lugar sempre existiu, congelado num futuro que talvez nunca vamos alcançar.
É possível entrar no ritmo? O visitante consegue esquecer que é estrangeiro para se misturar aos locais? Esse é o primeiro desafio proposto para as 24 horas iniciais em Tóquio. A mesma cidade que convida ao desfrute manda sinais de que essa é uma traiçoeira tentação. A língua é o obstáculo mais óbvio. Mesmo assim, a rua insiste em te absorver - e, ainda que seus olhos apenas raramente se cruzem com os de um japonês, logo você começa a relaxar e perceber o quanto é bem-vindo.
É verdade que falar apenas inglês não nos leva muito longe no Japão. Mas em Tóquio, pelo menos, não se surpreenda se algum jovem - ou mesmo um casal mais idoso - se aproxime perguntando: "Lost?" Especialmente se você estiver mesmo com aquela cara de quem está perdido... Ainda que numa comunicação cheia de buracos, eles vão fazer o possível para orientá-lo. E, se o diálogo não passar disso, tudo bem: descubra, sem sofrimento, o prazer de sentar-se a um balcão sobre o qual um falante sushiman divide sua concentração entre o meticuloso corte do peixe e uma longa e talvez engraçada narrativa pessoal... em japonês mesmo! Entender, aí, é algo totalmente secundário. Interação, ainda que capenga, é a palavra-chave.
A melhor maneira de aproveitar essa animação é se soltar. Com as lojas abertas até por volta das 21 horas, as ruas de Shibuya são uma tentação acessível - bem mais que a antiga fama de Tóquio como a cidade mais cara do mundo costumava vender. Essa não é nem a região mais famosa por seu comércio de moda (já, já falo de Harajuku), mas é possível garimpar boas coisas por ali. E, só reforçando, baratas. Ali, lojinhas espremidas, com prateleiras abarrotadas e manequins vestidos com improváveis sobreposições de roupas disputam seus ienes. Um prólogo legal do que virá depois, as várias e bacanas lojas de departamentos (as depato).
São metros e metros quadrados dedicados a roupas e acessórios... Mas, se você descer até o subsolo, terá a grata surpresa de encontrar dois tipos bem particulares de comércio: comida e livros. Não juntos, claro: cada um em seu canto para estimular fortemente seus sentidos. As enormes mesas de livros - a grande maioria, gomen-nassai (quis dizer: desculpaê), em japonês - despertam primeiro o tato e depois a visão, com lindas reproduções e designs gráficos ousados. Já os estandes de comida provocam primeiro o olfato, passam em seguida a ter o olhar como alvo (algumas vitrines parecem guardar jóias), mas o objetivo final é mesmo a boca!
O que não é nada estranho numa cidade que recentemente foi "premiada" com um Guia Michelin para seus restaurantes - e, já em sua primeira edição, conseguiu ganhar 191 estrelas, mais que as 147 concedidas aos chefs de Nova York e Paris! A variedade do que é possível experimentar (e olha que quem escreve estas linhas não é exatamente alguém que despreza uma degustação exótica!) é enorme. Pode ser da "biboca" especializada no que eles chamam de "peixe seco" (na verdade, defumado), escondida embaixo de uma entrada apertada numa rua ordinária de Shibuya, até um dos lugares mais caros para comer sushi, o Kanesaka, no bairro cosmopolita de Ginza - onde o sushiman Shinji Kanesaka faz tanto segredo sobre seu arroz que não permite que ele seja fotografado. (E onde você irá enlouquecer com uma porção dourada de ouriço-do-mar - sim, é para comer). Peixe é coisa seríssima no Japão. O sushiman Toshiya Kadowaki, dono do Azabu Kadowaki, restaurante que fica no bairro de Minato, por exemplo, indignou-se com o Michelin. Não reconheceu em seus avaliadores capacidade técnica suficiente para bem julgá-lo. Numa explicação algo xenófoba, disse que de comida japonesa só japonês entende. Especula-se que o homem não queria ver seu restaurante de 20 lugares cheio de "turistas".
Muitos desses restaurantes não estão "na calçada". Espaço é um problema real em Tóquio, então não se surpreenda se tiver de pegar um elevador para jantar aqui e ali. Existem muitos prédios com andares repletos de restaurantes e, no térreo, a indicação de seus cardápios. Faça a sua escolha e bom apetite! Para quem tem menos grana - ou tempo -, há sempre os supermercados, em que se pode comprar um lanche às escuras. Com rótulos incompreensíveis, você só vai saber o conteúdo dos produtos quando chegar à boca. Nesse caso, melhor é desejar "boa sorte".
Para minimizar os riscos, minha dica é explorar a seção de comida da Muji. Essa é uma loja revolucionária que já existe em várias capitais do mundo (especialmente em Londres, em que a proliferação é massiva!), mas cujo conceito nasceu no Japão: nada ali tem marca. Roupas, acessórios, móveis, objetos de casa, para a cozinha, lençóis e toalhas, enfeites - e, no caso da loja principal, em Tóquio mesmo, até bicicletas e uma casa pré-fabricada (!) -, tudo está disponível sem nome ou etiqueta. Os produtos têm um design simples, prático, impecável - e japonês! E o mesmo princípio aplica-se às comidas: quadradinhos de queijo roquefort com pimenta-do-reino, biscoitos de feijão, sucos de frutas com vinagre (uma moda recente), balas de alga e até espetinhos de alguma criatura marinha (lula, cavalo-marinho?) defumada estão a venda. Arrisque.
Tem comida por todo o lado, e por isso é muito difícil entender como os japoneses são tão magros. Essa observação é ainda mais cruel quando você circula por Harajuku, o bairro da moda, e tenta experimentar alguma roupa. Quem disse que elas cabem? E não é só a cintura: as mangas são mais curtas, o tórax, apertado, as barras de calça são inviáveis. Enfim, a modelagem japonesa não é para brasileiros...
Mas claro que, se você procurar direito... Além das grandes grifes com megalojas em Harajuku (principalmente aquelas cujos estilistas conquistaram mercados europeus e americanos, como Yamamoto, Miyake e Kawakubo, o último da Comme des Garçons), há confecções menores e menos conhecidas no emaranhado de ruelas atrás das avenidas principais. É aí que está o ouro!
Mas se a idéia for apenas olhar - e não comprar -, uma tarde de domingo na rua Takeshita (também em Harajuku) pode trazer muita inspiração, especialmente se você se identificar com o estilo ali chamado de gothic lolita. Mesmo que essas "frutas exóticas", que se vestem como bonecas de porcelana européias, não estejam passeando no dia, só a população local já enche essa rua de pedestres de figuras estranhas e inesperadas.
Com tanta agitação, como deixar as ruas? Só, talvez, para vê-las de cima. Não faltam edifícios com grandes miradas, mas o Park Hotel Tokyo tem uma vista que é mais do que motivo para uma parada estratégica. Basta dizer que ele fica numa das torres mais altas da cidade e que suas dependências começam no 22º andar do prédio onde está instalado. Para chegar ali, toma-se um elevador panorâmico com visão para a sensacional Torre de Tóquio (uma linda versão high-tech da Eiffel). Mas se você preferir olhar para baixo, vai se imaginar transposto para uma cena do filme Blade Runner, de Ridley Scott.
Se achar que é possível cansar de Tóquio - e se esse for seu caso -, uma idéia é tentar uma escapada mais "radical" por seus arredores. Sugiro a visita a um dos muitos ryokan, as tradicionais pousadas com sauna e piscinas que resistem há décadas na região montanhosa que circunda Tóquio. No Mikawaya, em que a única "peça de roupa" permitida é uma toalha do tamanho de um guardanapo, a água das piscinas vem de fontes cristalinas. A paisagem ali é digna dos desenhos daqueles antigos biombos japoneses, e a casa, preservada no estilo tradicional do país, tem paredes de papel e assoalhos de tatame.
O problema é que logo volta a vontade de estar de novo no meio da agitação da capital japonesa. Isso ocorre mesmo se você decidir fazer uma viagem mais ambiciosa pelo país. Não importa se o destino é Kyoto, que já foi a capital imperial e mostra orgulhosa seus palácios desse tempo; Kiyomizu, que parece flutuar imponente no meio de uma mata; Kinkakuju, com seu lago calmo e dourado; Okinawa, em que é quase possível esquecer que se está no Japão, com tanta evocação tropical e amabilidade local. Ou mesmo a região do zen absoluto, a pequena Ilha de Naoshima, onde a casa Benesse mistura elementos tradicionais japoneses com o melhor da arte contemporânea - sem falar no próprio espaço projetado pela maior estrela da arquitetura japonesa, Tadao Ando - e transmite uma atmosfera de tranqüilidade contemplativa difícil de ser encontrada em qualquer outro lugar do mundo.
Mas basta um dia, dois, três, no máximo, e a síndrome de abstinência de Tóquio atinge níveis insuportáveis. Passe 24 horas na capital japonesa e tente não se contagiar por seu estilo de vida. Mesmo no último dia por lá, quando, digamos, você toma coragem para conhecer o wild side, e vai ao bairro de Shinjuku, famoso pela vida noturna "carregada" e suas incontáveis boates (como no caso dos restaurantes, distribuídas em prédios de vários andares) de reputação duvidosa, é capaz de descobrir ali algo surpreendente: uma quadra inteira de nomiyas (os chamados "bares de balcão": alguns tão espremidos que lotam com uma freqüência maior que cinco pessoas!), cada um com um grupo reduzido de amigos amontoados e sons que desafiam as definições de gêneros musicais.
Diante de mais um achado desses, você sabe que sua vida nunca mais vai ser a mesma longe de Tóquio.
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