Ela ignora as identificadas como "Economic Class" e "Business Class" e pára em frente à placa "First Class". Ela a retira e, no lugar, encaixa outra em que se lê a palava "Suites". Nos aeroportos do mundo, essa cena só ocorre nos balcões da Singapore, antes do embarque do A380, o maior avião de passageiros já construído. Graças à reputação de excelência da empresa asiática, a Airbus reservou à Singapore a primazia de operar a aeronave.
Os cinco primeiros A380 a fazer rotas regulares serão da Singapore. A estréia foi em 27 de outubro passado, no trecho Cingapura-Sydney. O segundo superjumbo entrou em uso em janeiro, também na rota para Sydney, e o terceiro, em março, com destino a Londres. A companhia redesenhou a primeira classe dos A380: são as tais suítes, cabines que se tornaram a nova referência de conforto na aviação. Para a classe econômica, a empresa alardeou diversos itens de conforto, que eu estava prestes a conhecer.
Fiz o check-in rapidamente e, às 7h30, fui ao portão de embarque 57. Lá vi o A380 pela primeira vez. Com uma "testa" proeminente e largas asas arqueadas, o superjumbo despertava a curiosidade dos passageiros, que se aproximavam das janelas para tirar fotos. De repente surgiram no lounge as comissárias de bordo com seus coloridos sarongues kebaya. O traje é a marca registrada das aeromoças da companhia - as famosas Singapore girls.
Às 8h28, com 38 minutos de atraso, houve o início do embarque. Fui um dos últimos a entrar no A380, às 8h50. O corredor, com 52 centímetros de largura, reeditava o aperto de uma aeronave comum. A configuração de três assentos em cada lateral e quatro no centro formava uma paisagem em que só se viam cabeças e encostos. Foi preciso sentir o cheiro de avião novo, mesclado com um perfume adocicado, para lembrar que se tratava do A380.
No meu lugar, encontrei revistas de bordo, manta e travesseiro. Ao me acomodar, percebi que a distância entre os bancos, só 27 centímetros na altura do joelho, era igual à do modesto A320 da Jetstar, a low-fare que me levara de Melbourne a Sydney. As dimensões da poltrona também eram idênticas: o assento, por exemplo, tinha 50 centímetros de largura. Pouco depois que eu me sentei, as comissárias ofereceram uma pequena toalha branca embebida em água quente para limpar as mãos, retirada minutos depois.
Eu havia feito a reserva um mês antes, pela internet. O site da Singapore permitia escolher diversos tipos de refeição especial. Mexendo na ferramenta online, sem querer
registrei "frutos do mar" como minha seleção para o café-da-manhã (!) e o almoço da ida, além do jantar da volta - opção que, ao finalizar a reserva, não consegui alterar. Lembrei-me disso antes da decolagem, quando um funcionário se aproximou de prancheta na mão e perguntou: "Mister Saussa, seafood?". Acabei concordando em comer frutos do mar no café.
Às 9h26, com atraso de 36 minutos, o superjumbo começou a arrancada, operação pouco mais suave que nos outros aviões - as costas não colam tanto no banco. Foram longos 44 segundos até decolar de modo sutil. Imediatamente, porém, uma trepidação fez as partes soltas do interior tremer. É como se, num esforço colossal, o avião usasse todas as suas energias para sair do chão.
O cardápio chegou às 9h42, com uma longa lista de bebidas (que incluía uísques Red Label e Jim Beam, gim Gordon's e licores Cointreau e Baileys). Enquanto aguardava a comida, tentei explorar as diversões eletrônicas. Algum tipo de mau funcionamento fez o sistema travar e reiniciar. Antes que eu pudesse tentar de novo, chegou o café-da-manhã: estranhamente, era uma receita indiana. Três minutos depois, sem que eu solicitasse, a comissária retornou e trocou a refeição errada pela de frutos do mar.
O prato principal, servido num recipiente de plástico, tinha um filé de peixe de bom tamanho, fresco e de sabor suave, acompanhado de cenouras e batatas. Os passageiros que não haviam encomendado refeição especial - cerca de 90% do total - receberam suas bandejas cerca de 40 minutos depois de mim. Para eles, as opções eram macarrão do tipo noodles ou ovo poché com bacon.
Duas horas após a decolagem, uma gentil Singapore girl concedeu-me uma entrevista sobre como é trabalhar no A380. "Para as comissárias, não muda muito, à exceção das suítes, onde a expectativa dos passageiros é alta e a privacidade precisa ser mais respeitada. As aeromoças de lá são as mais experientes", disse a cingapurense Goh Karen, de 28 anos. Após insistir, consegui permissão para conhecer as classes mais abastadas da aeronave.
Silenciosa e escura, a classe executiva me transportou para o mundo da amplidão. Com o encaixe de um suporte estofado nas poltronas, os passageiros conseguem deitar a 18o graus. Mas nessa posição, atingida apenas na diagonal, eles têm de virar a cabeça ou deitar-se de lado para assitir à TV de 15 polegadas; "É um dos raros defeitos", disse o cingapurense Loy Chia, que viajava a negócios. "Mas a comida e o serviço são muito bons. Não conheço classe executiva melhor." As refeições são criadas por um time que inclui chefs com três estrelas no Guia Michelin.
Se quase tudo o que se vê nas classes executiva e econômica do A380 também está nos Boeings mais novos da Singapore, as suítes são mesmo um local de exclusividades. Na penumbra, vi cabines de plástico, dispostas no mesmo padrão 1-2-1 da executiva, com acabamento interno de couro. Os artigos de mesa e cama são mais sofisticados que os da classe executiva - e também da Givenchy. Para beber, champanhes Krug e Dom Pérignon. No cardápio, carré de cordeiro e camarões gigantes. Ali a passagem custa cerca de 9 mil dólares (contra os 4 mil da executiva).
Para dormir, os passageiros das suítes têm a seu dispor camas de verdade, arrumadas pelas comissárias. Na fileira dupla do centro, as cabines podem se unir para abrigar uma cama de casal - quando o A380 da Singapore foi lançado, piadas com aeromoças dizendo Senhor, essa não é uma posição de emergência" correram a internet. Embora não encoraje intimidades a bordo, a companhia orientou os comissários a respeitar a privacidade nas suítes.
Com cara de quem acabou de acordar, a empresária indonésia Imelda The voava pela primeira vez numa suíte do A380. "A viagem vai terminar e não me sinto cansada", contou enquanto eu caía de sono. "A comida é boa, mas a maior diferença está no espaço." Antes de voltar à pequenez do meu assento, passei os olhos por um dos banheiros da elite aérea (que não tinha chuveiro nem qualquer coisa de especial). Ao contrário do que faz imaginar a palavra "suíte", apenas dois banheiros atendiam toda a primeira classe.
Às 14h15, estou a postos para receber o almoço - novamente na opção frutos do mar. O prato principal é um filé de peixe fresco e saboroso. Como a Singapore não distribuiu kits de higiene pessoal na classe econômica, só pôde escovar os dentes quem tinha trazido os próprios apetrechos. Os banheiros, aliás, mal comportavam uma pessoa.
Após quase sete horas e meia de vôo, hora do pouso. O A380 tocou a pista do aeroporto de Changi, em Cingapura, sem problemas, às 13h52 do horário local (apenas sete minutos depois do previsto na reserva). Em dez minutos o avião foi conectado à ponte de desembarque. Levou apenas cinco minutos para que todos saíssem da aeronave.
A volta para Sydney foi num vôo noturno. Minha poltrona, de novo, ficava na classe econômica do piso principal. Às 21h01, 31 minutos atrasado, o A380 saiu suavemente do solo e então trepidou - de forma mais sutil que na ida. Após a decolagem, os comissários distribuíram um pequeno nécessaire de náilon marrom com meias, escova e pasta
de dentes. Útil mas simples (fora o logotipo da Givenchy). À parte isso, tudo foi semelhante ao vôo da ida.
Na madrugada, o serviço de bordo foi bastante discreto. Cinco horas e meia após a decolagem, veio o café-da-manhã. Pela primeira vez minha refeição no A380 da Singapore foi a mesma da maioria: pãozinho, muffi n com passas, pequeno pote de frutas e sachês de geléia de morango, manteiga e leite. Sem frios, achei o cardápio um pouco magro. Quando pedi um reles sachê de açúcar, uma Singapore girl me atendeu com má vontade, sem motivo aparente.
Às 6h56, pousamos em Sydney, quatro minutos antes do previsto. Com a pista molhada, a frenagem estendeuse por 32 segundos (contra os 20 da ida). Saí do A380 com a clara impressão de que seu tamanho não faz muita diferença para quem viaja na classe econômica da Singapore.
Desde o Concorde, que voou entre 1976 e 2003, a aviação não via fenômeno de popularidade como o A380. Sentados a meu lado na volta, dois jovens franceses estavam maravilhados. "É o maior avião do mundo", diziam. Como muitos outros, eles instigarão a curiosidade dos amigos, transmitindo a sensação de que viveram uma experiência desconhecida. Transformado em cartão-postal, o A380 tem dado um toque de Midas a tudo o que decola com ele. O tempo - e os passageiros - revelarão o que é ouro e o que não é.
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