O dizer de um lísbio* nascido, criado e domiciliado é decerto suspeito, mas para mim Lisboa é a primeiríssima. O dramaturgo espanhol Tirso de Molina saudou-a como a "oitava maravilha". Outros, azedos como o romancista inglês Henry Fielding, não se deram bem com o cheiro a estuário podre do Tejo. O escarcéu dos bairros estreitos, árabes, imundos e angulosos. As fachadas decrépitas, a falta de chá e de brio imperial. A decadência, porém, é condição da grandeza, e mil anos de história não a tornaram uma velha sem dentes. A alma acriançada abençoou-a como um eterno reino de Lilliput. É o lugar do mundo com mais campeões do desenrasca (o "jogo de cintura"), homens tanto grosseiros como sábios, católicos de pia batismal que chamam catedrais aos estádios de futebol e jogam bola e dominó depois de velhos. As alfacinhas* passaram dos xales negros e do buço à civilização do Sex & The City.
Quem lhe apanha o tom de falsa tímida e impudica enamora-se perdidamente. Apesar de romântica e travessa, como briosa herdeira árabe, oculta e guarda a luxúria dos seus encantos para o recato do lar. Quem a ouve por dentro fica eternamente cativo. As pedras falam, e em Lisboa contam histórias de mil e muitas noites gravadas no chão por artesãos calceteiros. Mestres operários que fizeram das ruas e avenidas empedrados artísticos e prolongaram a nobreza do seu ofício nos calçadões do Brasil. É uma cidade que se pode soletrar com passos, da barra de Belém ao coração do Chiado e da Baixa, da epopéia quinhentista às origens do fado, o seu canto dos cânticos, que alguns dizem nascido do lado de lá do Atlântico e cuja alma tropical nos une - portugueses, africanos e brasileiros - por cumplicidade e destino.
Nas letras, Camões, Bocage, Pessoa e Almada (Negreiros) aqui escreveram as suas vidas com ornato e liberdade. Os estrangeiros procuram-lhe os líricos, induzidos pelo slide oficial, de "país de poetas". Sobretudo o Fernando Pessoa de bronze na esplanada da Rua Garrett no Chiado. Tributam-no com pênaltis de aguardente na Brasileira, o café mais famoso da cidade.
Há ainda a Lisboa de belezas evidentes,os miradouros, as alfamas, as sete colinas, os pregões, os céus altos, o ancoradouro de Ulisses, o rio estuário oceânico. Quando a vida vai torta, os lisboetas, o maior elenco de sonhadores do sistema solar, evolam-se do castelo, a janela mais alta de Lisboa, onde se está como no silêncio da província. Galopam então pelos ares como ciganos malteses ou gaivotas e andorinhas e vão plantar tendas no firmamento.
* Termos populares para designar os naturais de Lisboa
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