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Lisboa

Lisboa dos lisboetas

Fado no restaurante Parreirinha de Alfama: alma tropical?
Eles são escritores e artistas. Mas, sobretudo, são apaixonados por sua cidade natal. Com vocês, os segredos e mistérios de Lisboa, carregados do mais puro sotaque.
...UMA ESPÉCIE DE CORTESÃ QUE NÃO SE VENDE [...] LISBOA NÃO É VOLÚVEL, É APENAS DE QUEM A QUISER...

Do alto do Castelo de São Jorge, o mar ondulado de telhados vermelhos se espalha pelas colinas de Lisboa. Sete, dizem, para compará-la com Roma. Como se tivesse comparação... Olho a paisagem que se espalha pelo estuário do Tejo, razão da existência de Lisboa, e pergunto-me: o que teria conquistado Ulisses, lendário fundador da cidade? Lisboa é antiga. Por aqui já passaram dezenas de culturas diferentes. Talvez por isso ela seja uma espécie de cortesã que não se vende, mas que se abre por prazer. Ela não é volúvel, é apenas de quem a quiser; abriga e conquista fácil (o mesmo não se pode dizer das suas moças, ariscas, arredias). Quem chega a Lisboa se sente à vontade, encantado, especial. Se ela tem prazer em ser sua, você, inevitavelmente, será dela. Para sempre.

Lisboa é uma cidade luminosa, no verão e no inverno, e boa para flanar. Parar, por exemplo, no Café Nicola, no Rossio, pedir uma imperial (chope) e ficar vendo o mundo passar. Lisboa é cosmopolita por natureza. E ali, a frente do Nicola, velho de guerra, é uma das melhores passarelas. É a hora de um café curto, da bagaceira. Sigo pelo Bairro Alto, pelas ruas empedradas, de casario com roupa pendurada a secar, e desço depois, para o luxo da Baixa lisboeta, até o Terreiro do Paço, a monumental praça que dá para o Tejo, projetada pelo marquês de Pombal. Hora de comer, de entrar numa tasca, dessas tavernas onde o turista deveria entrar e não entra. Ali tudo é muito simples e se faz bem acompanhar por umajarra de vinho da casa e ao som do bruá-bruá da clientela habitual.

Vou sempre a Belém para visitar o Mosteiro dos Jerónimos, e sempre me arrepio. A pedra trabalhada, esculpida em detalhes e mais detalhes, todos aqueles rendilhados cinzelados, os tetos nervurados. Já no friozinho da tarde que me ameaça através das frestas da roupa, nada como umas castanhas assadas no fogareiro, vendidas ao virar da esquina. Por essas e outras é que Lisboa fica no sangue. No meu, pelo menos. 

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Por: José Eça de Queiroz | Foto: Marco Antônio Pomárico

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