Os fenícios chamaram-lhe Enseada Amena. Entende-se: a mão em concha, protetora e tépida, em redor da qual a cidade nasceu. Veio o cruzado Osberno, mercenário e poeta, e colocou tritões nas águas do rio, em cujas areias havia ouro. Uma cidade assim é cobiçada como quem cobiça a mulher do próximo. Um mito, uma lenda e uma descoberta mestiça. Nesse caldeirão cruzaram-se e cruzam-se, em leitos imemoriais, visigodos, celtas e sarracenos, pretos e amarelos e o mais que chegou e o que está para chegar. Lisboa é uma cidade feminina, coquete, com meneios atrevidos e um recato de comediante. É o lugar que o cronista real Fernão Lopes colocou a arraia-miúda como protagonista da história no século 15. Ainda soam os espantos, ainda se misturam os suores dos corpos com o aroma dos fritos, a fava-rica com o estalar da sardinha assada. Dos seus cais saiu a língua, ufana, e com a persistência das antigas utopias. Câmara Cascudo, o (etnógrafo) potiguar: "As naus não eram, somente, projetos de conquista e aventura. Em seus bojos, transportavam livros para falar e pedra de Pêro Pinheiro para demarcar fronteiras".
Lisboa é o Rio de Janeiro que Lisboa sonhou ser. Que idade tem? Quatro mil anos? Dois mil? Trezentos anos? Lisboa permanece sempre na nossa adolescência. É sempre a mesma, mesmo mascarada de pós-modernidade. Vá ali ao Rossio, junto de São Domingos, à ilharga, na lateral do Teatro Nacional. Há quatro séculos, aglomeravam-se negros, oferecendo a força dos músculos para rudes trabalhos. Agora, é local de reunião, feira de produtos, rezas e sainetes (graças) de boa fortuna: os mesmos negros de então? Como foram ali parar, a que chamamentos remotíssimos responderam? É o calor que aquece o espírito ao mesmo tempo que fortalece o corpo. Também os dominicanos instalaram, bem perto, o palácio da ideologia carceral: a Inquisição. E daquela praça sempre emergiram os protestos indignados de um povo cercado pelo terror. Vivia-se, então, um amor sem felicidade. Mas Lisboa não se cala, nunca se calou. Os cravos substituíram as sardinheiras que, por seu turno, haviam substituído as hidrângeas e as papoulas medievais que ornaram 1383. Percorra as ruas velhas, deixe-se embalar pelas noites do rio, observe o beira antigo dos edifícios, olhe para as pessoas; sorria em Lisboa. Lisboa é um caso de coração.
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