Para começar, não é à toa que a mascote de Lãs Leñas é um solzinho chamado Leny. O céu costuma estar azul o tempo todo. Mesmo no inverno há um certo "calor" na base: quando a temperatura passa um pouco dos 5 graus, muita gente toma sol de camiseta no terraço dos restaurantes. Alguém deveria avisar Al Gore. Mas os turistas, claro, adoram essa amostra de aquecimento global. Com o tempo assim, todos os meios de elevação ficam abertos, o que não acontece sempre - as telesillas (teleféricos) às vezes fecham por causa do vento, deixando pistas interditadas.
Las Leñas é o melhor terreno para esquiadores experientes da América do Sul graças aos half-pipes naturais (valas cheias de neve com formato tubular, ideais para manobras aéreas) e aos trechos fora-de-pista insanos, logo na saída de vários teleféricos. As pistas para intermediários são generosas: podem chegar a incríveis 7 quilômetros de extensão. Haja pernas! E, mesmo com essas características, a estação não é nem metade do que poderia ser - os lentos teleféricos, por exemplo, são praticamente os mesmos há 25 anos. Existe um imenso território esquiável ali perto que somente pode ser alcançado de carona em tratores do tipo snowcat, utilizados normalmente para aplainar a neve nas pistas.
Para esquiadores iniciantes, é verdade, não há muitas opções em Las Leñas. Lá só existem três pistas verdes (largas e com pouco desnível, sob medida para quem está começando), todas ao redor da base. Elas pelo menos são compridas o bastante para que os iniciantes não passem mais tempo na fila do teleférico do que esquiando. Apesar disso, os novatos não devem riscar Las Leñas de sua lista de estações: a escola de esqui e snowboard de lá é conhecida como a melhor do Cone Sul, com 150 instrutores para todos os níveis.
Assim como os teleféricos, a maior parte das instalações de Las Leñas mudou pouco desde a inauguração. As novidades nos últimos anos foram a abertura de um snowpark (área com obstáculos e rampas de saltos) e a construção do Virgo, hotel-spa que trouxe um padrão de conforto e estilo antes inexistente nas acomodações do resort.
O jeito legal de começar um dia de esqui em Las Leñas é tomando um espresso macchiato e comendo medialunas com doce de leite no terraço do restaurante Innsbruck enquanto se observa o pessoal chegando com seus equipamentos. Para usar as pistas é possível comprar passes diários (de 99 a 152 dólares) ou semanais (de 528 a 813 dólares). Os iniciantes podem contratar três aulas particulares, de duas horas e meia cada uma (de 174 a 246 dólares), e aulas coletivas (de 182 a 294 dólares).
Da base saem os meios de elevação para os dois setores principais da estação. Sete teleféricos interligam um emaranhado de pistas na face dianteira da montanha, a mesma que se vê do hotel: há pistas azuis (com desnível maior que o das verdes, para esquiadores intermediários) e vermelhas (bem inclinadas e com caminhos estreitos, recomendadas para intermediários avançados). Como tudo em Las Leñas, elas são batizadas com nomes da mitologia greco-romana. Quando o corpo pedir uma pausa, aponte os esquis na direção do café Olimpo, bem no meio das pistas. Com pufes coloridos espalhados pela neve, vista para todo o Vale de las Leñas e música eletrônica nos altofalantes, tem clima de lounge ao ar livre e é freqüentado pela turma mais jovem.
Para voltar à base é preciso escolher: com ou sem emoção? Logo à saída do teleférico Caris, dá para descer pelo terreno fora-de-pista Cenidor, um paredão de neve fofa com quase 40 graus de inclinação, parar em frente ao Innsbruck, largar os esquis no rack e pedir uma cerveja Quilmes para celebrar. Só que, antes disso, você tem de assinar, com um dos guardas que ficam lá em cima, um termo de responsabilidade que estipula multas de até 5 000 dólares para quem precisar acionar o resgate fora dos limites demarcados. Em todos os fora-de-pista de Las Leñas, o risco é literalmente por sua conta.
O verdadeiro olimpo de Las Leñas se revela no setor que fica escondido atrás da montanha, ao fim da viagem de 800 metros penhasco acima, pela temível telesilla Marte. No ponto mais alto da estação, a 3 430 metros de altitude, a sensação é a de entrar em outro mundo, silencioso e atemporal, em que picos afiados pela ação do vento se erguem na borda de imensas bacias de neve virgem. O único vestígio da presença humana são as marcações da longa pista azul Apolo, que corre pelo fundo do vale como uma ondulante estrada de gelo, rumo à base.
Olhando com atenção, às vezes dá para ver uns malucos pertinho desses picos, seus esquis deixando sulcos em forma de S na intocada neve powder (fina e seca). Como eles chegaram ali? Num trator snowcat adaptado para levar de dez a 12 passageiros, com guia (três subidas custam 40 dólares). A modalidade, conhecida como cat-skiing, é bem mais barata que excursões similares em helicóptero. Dá água na boca, mas não é para qualquer um.
Como essa aventura ainda está fora do alcance de um intermediário esforçado da Tijuca, Rio de Janeiro, resolvi aprimorar um pouco a minha técnica. A professora Lorena, argentina de Mendoza, fez o que pôde, em duas horas de aula individual, para
tentar melhorar minhas curvas e corrigir a postura do corpo durante as descidas. Ela não parecia muito animada com os resultados. Mas eu sou um esquiador brasileiro e não desisto nunca... Quem sabe na próxima eu já posso me aventurar no cat-skiing?