O dia começou bem. Pão com manteiga, galão (café com leite) quentinho, mesa ao sol e o jornal na mão. Não o pude ler, pois minha mulher fala muito. Fomos encomendar o salmão do jantar e seguimos pela Rua de São Paulo para entrar nas velhas lojas que vendem quase só uma coisa: ou parafusos, ou bombas hidráulicas, ou cordas. Comprei uma mochila de um comerciante que lá está desde 1832. Pelo caminho, velhotas ao sol, o elétrico a passar, café, pastel de nata, uma ginginha no quiosque. Vestígios de um mundo que só por milagre ainda sobrevive.
Seguimos a errar pelas ruelas das Mercês. De repente lembrei-me de uma taberna na Rua da Cruz dos Poiais, para sentar nos bancos toscos de madeira à mesa de mármore, beber umas taças de vinho e olhar as paredes repletas de bugigangas. Havia jogo e as cartas eram violentamente batidas na pedra. Também havia homens de olho pregado na TV. Então não é que de repente aparece o António lá do Chiado, onde canta na rua, de guitarra na mão? Já vem tocado do vinho das tabernas a caminho. Começa a tocar e do jogo levanta-se um a cantar. De repente temos fado. Nem sei bem quanto tempo depois fomos ver o pôr-do-sol no Tejo. A ponte, o Cristo Rei, o brilho laranja do rio, aquela canoa de tela erguida e mais um copo antes do jantar.
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