Sempre que a minha vida pára, eu ponho-me a andar. Confuso? Eu explico. Há dias em que nada parece dar certo, os planos mais bem pensados morrem à nascença, a boca que era para beijar desvia-se do caminho, o grande êxito que esperávamos nem ao palco nos levou, o aplauso não veio, o dia amanheceu em cinzas, o peito apertou-se como um pão inútil. É nessas alturas que me ponho a andar. E corro Lisboa como se corresse dentro de mim. Lisboa, a cidade do retempero, do inesperado, da confusão, da história, das sete colinas, a minha cidade natal que foi o meu divertimento em garoto.
Conta uma lenda antiga - todas as lendas são cabelos brancos da memória - que houve um reino a que chamavam Ofiusa, terra junto a um grande mar oceano habitada e governada por gigantescas serpentes... A mais poderosa delas, rainha sem escrúpulos, era uma serpente com formas de mulher, um poder de intensidade e de sedução, um retraimento de fêmea e uma ousadia de mulher, uma alma de combatente em jeitos de menina, uma feiticeira cujos poderes atraíam todos os que aportassem ao seu reino...Num belo dia, vindo de uma das suas longas viagens, ancorou no porto de Ofiusa o grande herói Ulisses. A rainha apaixonou-se logo por ele e quis desposá-lo. Ulisses fingiu corresponder-lhe - mas sabia correr perigo de morte! Tinha de proteger-se e aos seus companheiros; foi amante dessa serpente, jurou-lhe a eternidade dos afetos! Mas Ulisses traiu-a, como às vezes os homens fazem às mulheres, por mais sedutoras ou serpentes que elas se apresentem...Ludibriou-a; fugiu, perdendo-se no mar alto, enredando-se em novas aventuras.
Enraivecida e enganada, a rainha, numa tentativa desesperada para alcançar o seu amado, foi serpenteando até ao mar. Falhou! Mas ainda hoje podemos ver as marcas desse desespero: as sete colinas de Lisboa, que descem sobre o mar à procura do amor eterno... E é nesse amor que me reencontro, sempre que a minha vida pára, e eu me ponho a andar pela minha Lisboa, serpente e menina, cúmplice e restauradora deste lisboeta que, orgulhoso, eu sou.
Por Tiago Salazar
Por José Eça de Queiroz, cineasta, escritor e artista plástico
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