Se você, como eu, sempre imaginou essa cena em um spa do vinho, pode esquecer. Nesse ambiente a bebida não entra. A lição foi aprendida durante um teste anônimo no Villa Europa Hotel & Spa do Vinho Caudalie. O empreendimento, inaugurado em setembro de 2007, é o primeiro na América do Sul - e um dos cinco do mundo - a abrigar um spa da famosa marca francesa Caudalie, especialista em tratamentos vinoterápicos.
Administrado pelo grupo Accor, o hotel de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, tem ótima localização para um spa do vinho: fica num terreno cercado de parreiras no coração do Vale dos Vinhedos (a principal região produtora da bebida do Brasil), em frente à Vinícola Miolo.
Minha missão era descobrir quão inebriante seria ficar no Villa Europa. Para o teste do spa, escolhi um pacote de quatro tratamentos. Mas o que esperar deles? A vinoterapia usa como matérias-primas a uva e outros elementos envolvidos no processo de vinificação. Combinados de forma correta, eles auxiliam na limpeza, desintoxicação, esfoliação e hidratação da pele. Um dos princípios ativos presentes na uva, com comprovado efeito antioxidante, é o celebrado resveratrol - o mesmo que faz com que médicos recomendem o consumo moderado de vinho tinto para prevenir problemas cardíacos.
A franquia da Caudalie é a parte mais eficiente do complexo do Villa Europa. Atendimento prestativo na recepção, funcionárias discretas, atenciosas e bem informadas nas salas individuais de tratamento, água aromatizada e chá orgânico servidos em todos os ambientes. Comecei com um relaxante Bain Barrique, sem vinho nem barrica (apenas uma jacuzzi revestida de madeira). Na água de fonte própria, agitada por numerosos jatos de ar, foi despejado o conteúdo de um pequeno copo com extratos de polpa, sementes, pele e talos de uva.
No segundo tratamento, a ligação com a uva era bem mais direta: a terapia com o infame nome de Pulp Friction usava suco e pedaços de uva-itália em uma massagem por todo o corpo. A terceira etapa foi um envelopamento: permaneci "ensanduichado" por duas mantas quentes enquanto um extrato com argila bentonita (usada no processo de clarificação do vinho branco) e óleo de semente de uva agiam no meu corpo. Meu dia de rei terminou com uma sessão de esfoliação facial, limpeza de pele, hidratação do rosto e massagem nos pés e na cabeça. Após cinco horas de day spa, os resultados eram evidentes: pele de pêssego, um cheiro de uva que não me abandonava e estresse zerado.
Para compensar a ausência da bebida nos tratamentos, contei com a boa carta de vinhos do Leopoldina, o restaurante do Villa Europa. Rica em produtos do Vale dos Vinhedos - alguns pouco conhecidos do grande público -, ela também tem bela quantidade de rótulos de outras regiões do país. Tudo a preços bem razoáveis (fora do restaurante, na grande adega do hotel, os mesmos vinhos podem ser levados para casa com 30% de desconto).
O cardápio do Leopoldina foi feito com a consultoria do francês Philippe Remondeau, um dos mais badalados chefs de Porto Alegre (responsável pela cozinha do Chez Philippe). Se a comida ainda não brilha em qualidade - há deslizes em algumas receitas, como o filé mignon com molho de vinho que estava com o gosto da bebida acentuado demais -, ela supera a média burocrática dos restaurantes da hotelaria nacional. Pontos positivos vão aos pratos inventivos e ao uso de bons ingredientes regionais no café-da-manhã. Para quem está em busca do cardápio italiano da Serra Gaúcha, o hotel também conta com uma tratoria (que funciona como restaurante de apoio e espaço para eventos).
O diferencial do Villa Europa é mesmo seu spa do vinho, aliado à localização privilegiada. Acomodações, áreas comuns, qualidade de comida e nível de serviço cumprem o que se espera de um estabelecimento com a bandeira Mercure. O quarto de padrão luxo tem bom tamanho (há espaço para mesa de trabalho, mesa de refeição e sofá) e mobília e equipamentos novos. A decoração dos apartamentos segue um modelo clássico, com sofás e cortinas estampados: foge da linha impessoal da maioria dos hotéis, mas não tem muitos vínculos com os principais temas locais, as uvas e os vinhos. Esse universo, entretanto, está representado pelos minivinhos (de 187 mililitros) e as meias garrafas (de 375 mililitros) nacionais dispostos ao lado do frigobar.
Se faz do hotel um bom destino para casais em busca de romantismo e descanso, a fórmula do Villa Europa é carente de um lazer mais diversificado, o que atrapalha o programa de famílias com filhos pequenos. A única piscina coberta e aquecida do hotel, por exemplo, é de uso exclusivo dos clientes do spa (era lá que, com pose de Baco, eu degustava uvas-itália entre um tratamento e outro). Os outros hóspedes só podem usar uma piscina descoberta - que no inverno é bem difícil de encarar.
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