É que São Francisco é um dos poucos lugares da Mantiqueira que preservam manchas de Mata Atlântica. Em vez da paisagem plácida e um tanto suíça de morrinhos pelados e vaquinhas bicolores, a exuberância de verdes e dos manacás avançando pelas encostas. O lugar para onde eu fui, a Pousada A Rosa e o Rei, a melhor da cidade segundo o Guia Brasil 2008, fica exatamente numa área ladeada por uma enorme seção de Mata Atlântica, com direito a duas cachoeiras (a "Rosa" e a "Rei"). Com suas 11 suítes charmosas, todas com ofurô de verdade (em tinas de madeira), era uma escolha feliz para este teste - e mais ainda para este avaliador.
Mas eu falava da mata, e ela não era nada exuberante ali há cinco anos. Em 2003, o empresário Reinado Fredianelli andou pela região em busca de um lugar mais frio que Rondonópolis (MT), onde ainda planta arroz, para passar seus dias. Viu o lugar, arrematou 4 alqueires íngremes e começou a replantar furiosamente. O que pretendia era construir o cenário perfeito para um centro de treinamento pessoal de tai chi chuan - a ginástica chinesa que trabalha movimentos corporais complementares e dá enorme relevo à respiração. O centro não saiu, mas sim uma das pousadas mais charmosas da Mantiqueira paulista.
Bem, meu interesse não era o tai chi, que rola aos sábados, mas o ofurô. Fiquei na suíte 6, num ponto alto da pousada, com uma vista dramática para todo um vale e o costão de Mata Atlântica. O chalé de madeira, com pé-direito alto e uma terceira cama num corredor estreito, é muito acolhedor. Os toques que cativam as mulheres estão todos lá: pantufas, roupão, cerâmicas, sabonetinhos em embalagens delicadas. A tina, com cerca de 1 metro de diâmetro, ao lado da charmosa lareirinha antiga de ferro e do grande boxe com ducha, está limitada por duas janelas para o caso de você querer ficar com os olhos abertos. Mas eu preciso de um longo tempo para me acostumar à água quente, e a minha experiência pregressa com ofurô quase terminou em desmaio - é sabido que a água quente age como vasodilatador, levando à queda de pressão. Desta vez não dei chance para o azar e saí com uns dez minutinhos de banho.
Como havia chegado num horário inusitado e ainda pedi outra suíte - ficaria a princípio numa com ofurô externo, com direito a sonoplastia das cachoeiras -, tive de esperar algum tempo até arrumarem o quarto. O que não foi nada molesto, já que nas salas contíguas à recepção tocava a Polonaise, de Chopin, e havia uma mesa cheia de livros
dispostos elegantemente. Muitos títulos de filosofia e medicina chinesa, o clássico Libertação Animal, de Peter Singer, Jung, Chopra, Castañeda e outros. Bastante estímulo interno, sem falar da linda gata Sombra dormindo numa poltrona. Durante aquela prazerosa meia hora aprendi que, para matar resfriado, bom é caldo de alho-poró com açúcar mascavo - mas nunca durante a crise: antes. E tomei um suco de laranja fresquíssimo. E fui ver um platô lá embaixo, uma área cimentada circular, ilhada por
verde, que tanto podia parecer um heliponto como um altar para sacrifícios pré-cabralinos. Dali, sempre por um caminho de belas pedras são tomé, chega-se às salas de massagem e às cachoeiras.
A esta altura já deu para perceber, suponho, que eu estava no meu elemento. Se tivesse de encontrar o meu eixo, para usar a velha expressão do senador Eduardo Suplicy, eu talvez devesse procurá-lo em lugares como a pousada. Não sai barato: a diária para casal com as três refeições custa por volta de 470 reais. Eu havia perdido o almoço, então fiquei com a sopa de mandioquinha com pastéis de carne de soja e o bom - mas nada opulento - café-da-manhã do dia seguinte. (Destaque? O ascético pão integral, comprado na cidade.) Tudo em acordo com o espírito local: comida saudável e com parcimônia. Copiosos ali são a beleza do lugar e o bem-estar que ele proporciona.