Não fosse esse rio que começa na Espanha e corta Portugal pelo norte, cavando caminho entre as montanhas, não haveria uvas na região. E, se não fosse a valentia humana que partiu o xisto e fez terra para depois fincar videiras em socalcos desenhados nas encostas, também não haveria parreiras por lá. Se o Porto é como é, o tempero vem da geografia, da diversidade de altitudes e exposições solares. É porque ali o inverno é inverno, e o verão, um inferno. E tem mais: as vinhas velhas, algumas com mais de 100 anos.
Salpicada de aldeias históricas, a região do Douro é a mais antiga denominação de origem regulamentada no mundo (em 1756). Em 2001, foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Quem passa por ali em época de vindima (colheita e pisa das uvas) confirma que pouca coisa mudou na fórmula do vinho do Porto. Por outro lado, repara num crescente frenesi. Essa pode ser a terra onde se produz há mais de 300 anos um dos grandes néctares do planeta, mas é também palco de alguns dos melhores vinhos tintos e brancos do momento. Isso por causa de uma geração de enólogos inconformados que, no começo dos anos 1990, resolveu acrescentar novo capítulo a sua história. Cinco desses irreverentes produtores - Niepoort, Quinta do Vale Meão, Quinta do Vallado, Quinta do Vale Dona Maria e Quinta do Crasto - uniram forças, criando uma associação para promover os seus vinhos no exterior. Batizados de Douro Boys, eles são notícia nas revistas especializadas de todo o mundo.
Tamanha badalação tem atraído um número cada vez maior de turistas e, com isso, surgem novos hotéis e restaurantes de luxo. Mas nada disso ameaça aquele belo casarão secular de família transformado em hotel rural ou o restaurante onde quem atende os clientes é o próprio dono e quem toca a cozinha é sua esposa. É aí que está a graça do Douro: na capacidade de se reinventar sem perder o sabor único.