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Portugal

O vale das uvas de ouro

Os vinhedos e o rio: Patrimônio da Humanidade

Antes era o vinho do Porto. Agora, as montanhas escarpadas às margens do DOURO, no norte de Portugal, também produzem tintos e brancos fabulosos
No início do século 18, os ingleses imploraram por um vinho que fosse "um fogo potável no espírito, uma pólvora incendiada no queimar, uma tinta de escrever na cor, um Brasil na doçura e uma Índia no aromático", segundo o livro Ilha de Xisto, do português Manuel Carvalho. Seja feita a vossa vontade. Para atender ao pedido - e também fazer com que a bebida agüentasse as longas viagens -, os portugueses meteram aguardente no mosto em fermentação. Surgia a fórmula do cobiçado vinho do Porto, produzido na região banhada pelo Rio Douro.

Não fosse esse rio que começa na Espanha e corta Portugal pelo norte, cavando caminho entre as montanhas, não haveria uvas na região. E, se não fosse a valentia humana que partiu o xisto e fez terra para depois fincar videiras em socalcos desenhados nas encostas, também não haveria parreiras por lá. Se o Porto é como é, o tempero vem da geografia, da diversidade de altitudes e exposições solares. É porque ali o inverno é inverno, e o verão, um inferno. E tem mais: as vinhas velhas, algumas com mais de 100 anos.

Salpicada de aldeias históricas, a região do Douro é a mais antiga denominação de origem regulamentada no mundo (em 1756). Em 2001, foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Quem passa por ali em época de vindima (colheita e pisa das uvas) confirma que pouca coisa mudou na fórmula do vinho do Porto. Por outro lado, repara num crescente frenesi. Essa pode ser a terra onde se produz há mais de 300 anos um dos grandes néctares do planeta, mas é também palco de alguns dos melhores vinhos tintos e brancos do momento. Isso por causa de uma geração de enólogos inconformados que, no começo dos anos 1990, resolveu acrescentar novo capítulo a sua história. Cinco desses irreverentes produtores - Niepoort, Quinta do Vale Meão, Quinta do Vallado, Quinta do Vale Dona Maria e Quinta do Crasto - uniram forças, criando uma associação para promover os seus vinhos no exterior. Batizados de Douro Boys, eles são notícia nas revistas especializadas de todo o mundo.

Tamanha badalação tem atraído um número cada vez maior de turistas e, com isso, surgem novos hotéis e restaurantes de luxo. Mas nada disso ameaça aquele belo casarão secular de família transformado em hotel rural ou o restaurante onde quem atende os clientes é o próprio dono e quem toca a cozinha é sua esposa. É aí que está a graça do Douro: na capacidade de se reinventar sem perder o sabor único.


Por: Patrícia Jota | Foto: Marco Pomárico
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