Se Frank Sinatra tivesse conhecido Madri decentemente, teria pensado duas vezes antes de gravar aquela velha canção. A frase "never sleeps" rima mesmo é com Madri. A capital espanhola é hors-concours quando a conversa é sobre carpe noctem - aproveitar a noite.
É que Madri, antes de ser o centro geográfico, político e administrativo da Espanha, é uma das capitais da vida gregária do planeta. As pessoas ali gostam como poucas de ver, encontrar, tocar, conhecer, farejar outras pessoas. Difícil pensar em lugar diferente para a movida madrileña, quando se entrava e se saía de bares, restaurantes e clubes ao longo da noite. Sim, a movida, a explosão boêmia, cultural e artística que se seguiu ao fim da ditadura franquista e rendeu os primeiros filmes maluco- beleza de Pedro Almodóvar (como Pepi, Luci, Bom...), é dos anos 1980. Mas, uma vez movida, sempre movida, e Madri, mesmo com o violentíssimo atentado à estação de Atocha, em 2004, que matou 199 pessoas e levou a um endurecimento policial, moral e fiscalizatório, segue vivendo à noite. Da siesta à fiesta, como se diz. Melhor dormir à tarde para encarar o que vem depois.
Pois foi para absorver um pouco da velha movida de Almodóvar e de seus companheiros, como a cantora Alaska (recentemente em voga por posar nua em desagravo aos touros mortos nas touradas), que eu fui ao Via Láctea (Calle Velarde, 18, 3491/446-7581), casa onde tudo começou, há quase 30 anos. O lugar no bairro de Malasaña segue pulsante, atraindo quarentões, jovens de piercing no queixo, gringos, grupos de tatuados e seres indefiníveis de cabelos idem. "Os néons no teto, os espelhos de algumas paredes e os pôsteres são os mesmos desde a fundação da casa, em 1979", diz David Krahe, um dos sócios.
Junto ao Via Láctea, o El Penta (Calle Palma, 4, 3491/447-8460, elpenta.com; € 10) e a Sala Sol (Calle de los Jardines, 3, 3491/532-6490, elsolmad.com; Cc: A, M, V; € 9) são as "baladas" da movida original que sobrevivem até hoje.
Na época da movida, a rapaziada se reunia na Universidade Politécnica e na Plaza 2 de Mayo, em Malasaña. Como a história é caprichosa, a região, que decaiu profundamente nos anos 1990, voltou a ser hype. Hoje, quando a polícia tarda a chegar, ainda sai um botellón por ali, o hábito de comprar bebidas e sentar-se à praça para beber. Essa atividade espanhola por excelência é, veja o disparate, ilegal na Espanha.
Se boa parte dos lugares da velha movida se foi, outros vieram. A qualquer hora da noite há pessoas pelas ruas, dando a sensação de que são 5 da tarde, não da manhã. Às 6h30 da manhã, por exemplo, forma-se fi la pra comer churro com chocolate na Chocolateria San Ginés (Pasadizo de San Ginés, 5, 3491/365-6546), clássico desde 1894, cuja política é só fechar as portas das 7h às 9h - para a faxina. Inútil procurar na fila alguém preocupado com o batente em seguida.
Os baladeiros estão em seu elemento em Madri, e assim é muito difícil escolher onde começar a noite. Os turistas gostam das áreas centrais, a famosa Puerta del Sol (aquela com o imortal letreiro do jerez Tio Pepe), a linda e peatonal (para pedestres) Calle de lãs Huertas e a vizinha Plaza Santa Ana, onde, depois de uma volta tomando chupitos (doses de licor) grátis, oferecidos pelos muitos relações-públicas que ficam pelas ruas, entram nas discotecas ou seguem pelos bares. É preciso chegar cedo para conseguir mesa no Las Cuevas de Sésamo (Calle del Príncipe, 7, 3491/429-6524), um bar de sangrias sempre lotado. Se você quiser provar tipos diferentes de jerez, opte pelo antigão La Venencia (Calle Echegaray, 7, 3491/429-7313), espaço reverencial dessa bebida. Boas tapas (e um piano antigão) valem a ida ao El Madroño (Plaza Puerta Cerrada, 7, 3491/364-5629; Cc: D, M, V). E, se for sexta ou sábado, fique pela Echegaray e vá à Sala Sol e Sombra (Calle Echegaray, 18, 3491/542-8193, solysombra.name; Cc: A, M, V), disco com pachangueo (festa) até as 4 da madrugada. A noite ainda é una niña, então o Café Bourbon (Carrera San Jerónimo, 5, 3491/532-5857, thebourboncafe.net; Cc: A, M, V; € 10) é o lugar para esperar o amanhecer com mais copas e música. Mesmo as segundas-feiras são bem vivas na cidade. Há discotecas, como o Palácio Gaviria (Calle del Arenal, 9, 3491/531-2601, palaciogaviria.com; Cc: A, M, V, desde € 10), lugar de 1846 que, como todo palácio que se preze, tem espelhos enormes, lustres e décor aristocrata. Ao lado está a disco Joy Eslava (Calle del Arenal, 11, 3491/366-5439, joy-eslava.com; Cc: A, M, V, desde € 10), também bem antiga, dentro de um teatro e devotada à música eletrônica. Tanto a Joy como a Kapital (Calle de Atocha, 125, 3491/420-2906, grupokapital.com; Cc: A, M, V, desde € 12), uma casa de sete andares - cada um com um ritmo diferente -, são ponto de encontro dos pijos e das pijas, os mauricinhos e as patricinhas da cidade. Para aproveitar a noite sem ferir os tímpanos, o Populart (Calle de las Huertas, 22, 3491/429-8407, populart.es) é bom para ouvir jazz ao vivo.
Os iniciados na capital espanhola talvez não se entusiasmem tanto, mas o bairro La Latina, também central, é outro roteiro bacana, em que as tabernas antigas dão o tom. Ali vá de tapeo, ou seja, petisque. Aos domingos, a atração adicional é o enorme mercado de pulgas do Rastro, na saída do metrô La Latina. Depois de bater pernas, vai bem uma voltinha para tomar uma clara (cerveja com limão) e comer huevos rotos (ovos mexidos com batata frita e jamón) na Taberna Los Huevos de Lucio (Calle Cava Baja, 30, 3491/366-2894, casalucio.es; Cc: todos) ou na vizinha La Chata (Calle Cava Baja, 24, 3491/366-1458; Cc: todos). E o esforço mínimo é a regra depois disso. Dê menos de dez passos e ouça flamenco no La Soleá (Calle Cava Baja, 27, 3491/366-0534). Madri não é Sevilha, mas o flamenco vive também na capital espanhola. Endereços como o Casa Patas (Calle Cañizares, 10, 3491/369-3394, casapatas.com; Cc: A, M, V), onde primeiro se janta e depois se vê a apresentação, o Las Tablas (Plaza de España, 9, 3491/542-0520, lastablasmadrid.com; Cc: A, M, V), em que as donas dão canja junto com os convidados da noite, o Las Carboneras (Plaza del Conde de Miranda, 1, 3491/542-8677, tablaolascarboneras.com; Cc: todos), com um menu de tapas, e o Café de Chinitas (Calle Torija, 7, 3491/547-1502, chinitas.com; Cc: todos) estão entre os melhores da cidade. Os bailarinos gostam de fechar a noite no basicão Candela (Calle Olmos, 2,3491/467-3382). E, se você ficar com vontade de dançar, vá ao Almonte Sala Rociera (Calle Juan Bravo, 35, 3491/563-5470, almontesalarociera.com), tome um rebujito (espécie de vinho andaluz com Sprite) para desinibir e rodopie pelo salão.
O bairro mais moderninho - e GLS - de Madri é Chueca, onde boa pedida é o El Tigre (Calle de las Infantas, 30). Ali, a cada caña você ganha um prato muito generoso de tapas - tortilha de batata, torradas com jamón serrano e croquetes. No Bogui Jazz (Calle del Barquillo, 29, 3491/521-1568, boguijazz.com; Cc: A, M, V; € 10), a noite vai do jazz ao indie-rock. A Isolée (Calle de las Infantas, 19, 3491/522-8138, isolee.com; Cc: todos) mistura moda e gastronomia. Chueca está do lado de Malasaña, e aqui se volta ao Via Láctea e à velha movida. Bom saber que em qualquer ponto de Madri chineses vencem o frio da noite vendendo cerveja em lata a 1 euro, além de sanduíches bem mais ou menos. Se for o caso, prefira as quentinhas com espaguete às 4 da madrugada. Daí você escolhe: vai caminhando entre os prédios históricos da Gran Vía até chegar à Plaza Cibeles, de onde saem os ônibus que funcionam até as 6 da manhã, ou continua sua "marcha" até o amanhecer e pega o primeiro metrô com os companheiros de boemia. Em Madri, nunca é demais lembrar, tudo se mueve.
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