Para quem acha que todas as cidades americanas são tediosamente parecidas, Boston surpreende. Presença obrigatória em qualquer lista das cidades mais cool do país, e muito mais que capital do estado com nome de música cantada pelos Bee Gees, a impronunciável Massachusetts, Boston é a menos americana e a mais brasileira de todas as cidades dos Estados Unidos. Serve ao viajante um coquetel de atrações à prova de ressaca. É uma mistura equilibrada feita à base de história, combinada com generosa dose de metrópole moderna.
Fundada pelos ingleses em 1630, Boston tornou-se o principal centro cultural da América do Norte nos tempos de domínio britânico. Estes, por sua vez, foram convidados a retirar-se em 1776, depois de várias revoltas, entre as quais a célebre Boston Tea Party de 1773, quando colonos americanos invadiram os barcos da Companhia Inglesa das Índias e lançaram o carregamento de chá ao mar. Durante os séculos 19 e 20, ela virou um centro industrial de peso, atraindo imigrantes de todo o mundo, em especial os irlandeses. Estabelecida em um tempo em que ainda não haviam inventado centros comerciais, automóvel e supermercado, Boston, com seus edifícios históricos, praças antigas e ruas estreitas ao lado de imponentes prédios com arquitetura avançada, é um perfeito exemplo de que o velho e o novo podem conviver em harmonia. O apelo desenfreado ao consumo e o modelo de vida estressado da civilização americana definitivamente não ditam o tom por lá. Eis a maior graça de Boston - uma cidade que se recusa a ceder totalmente à modernidade, e que se orgulha das construções e do traçado original das ruas seculares. Os 6 milhões de moradores da área metropolitana, apesar de antenados no cotidiano, preservam traços de comportamento herdados dos tempos coloniais.
Justamente nessa cidade e em suas cercanias vivem 230 mil brasileiros. Ninguém sabe ao certo quem faz parte desse exército invisível, a maioria ilegal, exceto que é formado principalmente por mineiros, goianos, paranaenses e catarinenses em busca de melhor oportunidade de vida. Pois é em Boston e seus arredores o lugar com que o brasileiro que vive nos Estados Unidos, também conhecido como "brazuca", mais se identifica. É só dar um pulinho em Martha's Vineyard, a charmosa ilha freqüentada por aristocratas, artistas, vips e amantes da natureza e da qualidade de vida para constatar que dez entre dez prestadores de serviços - pedreiros, pintores, garçons, carpinteiros, faxineiros - são todos brasileiros. "Não sei o que seria da gente se eles não estivessem aqui", diz a dona de um restaurante. Passe na frente de qualquer obra em Vineyard e pergunte, em voz alta e bom português, aos operários quem deles é brasileiro. Sem exceção, todos olham. Em Boston não é diferente. Por exemplo, a maioria dos quiosques Dunkin' Donuts - aqueles que vendem rosquinhas em forma de pneu recheadas de deliciosas calorias que são a alegria do Homer Simpson - é operada por brasileiros. Uma espécie de máfia das guloseimas.
Como é que uma cidade que não prioriza o consumo pode ser fonte de atração de um povo tão apegado às compras como o nosso? A explicação é simples.Por trás da imerecida fama de terra de aristocratas esnobes, existe em Boston uma comunidade despojada e calorosa. Formada por intelectuais, estudantes e pessoas de bem com a vida, a cidade não só preserva o seu rico passado, mas também velhos costumes, como o de priorizar o relacionamento humano. Há algo mais brasileiro? E não pára aí. "Tirando a distância do Brasil e a falta da família, aqui tem de tudo: queijo catupiry, goiabada, picanha fatiada e até tevê a cabo com programas em português", conta o engenheiro Gilberto Neves, mandado a Boston, em 1989, pela empresa em que trabalhava, para morar por apenas dois anos, mas que acabou ficando até hoje.
Verdade seja dita, poucos tiveram a sorte de Gilberto. A maioria está no país de forma ilegal, como Joana, que emigrou com o marido dentista de Maringá, no Paraná, há mais de oito anos. Os sonhos de uma vida melhor foram bruscamente interrompidos por um câncer violento que a tornou viúva em dois meses de Estados Unidos. Apesar de formada em letras e psicologia, trabalha como garçonete. "Circulo à vontade dentro do país, mas não posso sair daqui sob o risco de não conseguir mais voltar", diz. Tem quem não retorne mais, mesmo. Estima-se que milhares de compatriotas estejam fazendo o caminho posto: voltar ao Brasil. É gente que não consegue pagar a prestação da casa própria, perdeu o emprego e acumula dívidas com cartões de crédito.
Fruta de mil sabores
Não pense que essa é uma daquelas cidades-museu que cheiram a mofo. Como máquina do tempo, em Boston é possível atravessar três dimensões em questão de segundos. Quer regressar ao passado? Basta caminhar sobre a Freedom Trail - uma trilha de 4 quilômetros que leva o visitante a 16 pontos históricos de até quatro séculos atrás. Quer se surpreender com o presente? Atravesse o chamado Big Dig (algo como a "Grande Escavação"), uma ousada rede subterrânea que precisou de mais de dez anos para ser construída e que liga interestaduais e vias expressas, que cortam a cidade de ponta a ponta, com até dez pistas. Que tal dar um pulinho ao futuro? Bem ali nas cercanias, conheça o Massachusetts Institute of Technology (MIT), além de universidades famosas, como a Harvard, e inúmeras empresas de tecnologia avançada, onde cientistas e pesquisadores desenham neste momento o que um dia fará parte do nosso cotidiano.
Pense em Boston como uma fruta de mil sabores que se adapta ao gosto de cada um. Não tente comparar com a deliciosa maçã-símbolo de Nova York, por sinal a apenas três horas de carro só que para poucos. Boston é do jeito que você quiser, com a tal fruta prontinha para ser consumida. Só precisa mesmo é escolher a melhor forma de fazer isso. Por exemplo, decidir o meio de transporte. Há vários. Como a cidade é plana, ela se presta para caminhar a pé entre suas ruelas antigas, o mercado, as casinhas e as lojas. Com um pouco de imaginação dá para ouvir vozes do passado e sentir o ambiente pesado dos colonos revoltados com as taxas extorsivas impostas pelo domínio inglês. Ou de dentro de um ônibus turístico que permite, com uma só passagem, entrar e sair à vontade nos pontos durante um dia, observar os edifícios históricos e as pessoas. Só falta surgir em uma das sacadas um cidadão trajado como se estivesse no século 18 e que atrai o povo com discurso inflamado. Pois não é que isso acontece de repente? Ora, é apenas um dos inúmeros artistas contratados pela prefeitura para dar mais realismo à cena.
Dá também para chegar ao centro de Boston por debaixo da terra, via metrô, conhecido como "T". É o mais antigo do país, e que mais parece uma velha maria-fumaça. Só não se espante se a estação ficar bem pertinho de um dos velhos cemitérios que convivem, sem trauma, com o tráfego de carros e a gente apressada. Entre fantasmas de cidadãos ilustres (você precisa se cuidar para não tropeçar no túmulo) está o de Paul Revere. A menos que você se interesse pela história americana, provavelmente nunca ouviu falar nele. Pois saiba: é um herói, junto com Samuel Adams, que virou marca de cerveja, e John Hancock, que se transformou em marca de seguros - nomes reverenciados por todos os americanos.
Mesmo sem ser um deles, você pode acabar se emocionando com a história de Revere. Ele teria passado incógnito pela história não fosse uma determinada noite. Às vésperas da revolução, pegou o seu cavalo e percorreu a região para avisar os compatriotas de que as tropas inglesas iam chegar traiçoeiramente e atacar. Essa cavalgada fez a diferença. Os colonos não foram pegos de surpresa e se prepararam para a reação. O resto está nos livros.
Há outra forma de conhecer Boston, de um ângulo bem original. Embarque num dos caminhões anfíbios que sobraram da Segunda Guerra Mundial e que foram transformados em alegres viaturas de turismo. O passeio é convencional até certa etapa, mas ganha emoção quando a viatura se lança com passageiros e tudo às águas de um imponente rio que banha a cidade com nome de gente, o Charles. Conhecidos como Duck Tours - literalmente "Tours de Pato" -, esses simpáticos veículos pintados de cores alegres foram adotados pelos bostonianos, que os saúdam nas ruas com um gesto de mão em forma de bico e um sonoro "quá-quá" (em inglês é "quack-quack").
Boston também respira esportes. Os jogadores de beisebol do Boston Red Sox com suas meias vermelhas e seu templo sagrado, o estádio Fenway Park ou o time de futebol americano New England Patriots são fonte eterna de orgulho dos moradores. E, em final de campeonato, corre uma eletricidade no ar que até contagia, com comemorações que lembram as festas de torcidas do Brasil. "Quando há um jogo importante, os bostonianos podem ser encontrados em restaurantes, bares ou em casa pregados em frente à TV. Parecem até brasileiros", diz Suzanne Locke, executiva de marketing, ela mesma uma bostoniana que deixou seu país para morar em São Paulo com seu atual marido, o brasileiro Wilberto Lima Jr. Suzanne, que prepara caipirinha melhor que seus amigos daqui, divide seu tempo e coração entre as duas cidades. Para ela, Boston e São Paulo se complementam. "Mas a primeira ainda mantém um jeitão de cidade pequena."
Em sua longa existência, Boston se transformou em símbolo de luta pela liberdade, um tema que se popularizou e se multiplicou pelo mundo quase tanto quanto o seu delicioso clam chowder - um creme de mariscos do qual cada cidadão local se orgulha de ter a melhor receita. Essa liberdade pode ter muitas facetas. Uma delas é a econômica, a mesma que ironicamente atraiu e agora inviabiliza a presença de imigrantes brasileiros na cidade. Mas no fundo isso pode ser uma boa notícia. Quem sabe não é sinal de novos e melhores tempos em que brasileiros morarão só no Brasil, de onde nunca deveriam ter saído pelas razões que imigraram? E, a partir daí, não passem a visitar Boston apenas como turistas, encantando-se com seu charme quatrocentão?
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