Para o turista, a impressão é a de que pouco foi acrescido a essa Londres que cheira a fritura de peixe e milho para pombos. Uma roda-gigante à beira do Tâmisa, a London Eye, e um grande museu, a Tate Modern, surgiram nos últimos anos e viraram sightseeings obrigatórios Nem mesmo as Olimpíadas de 2012, cujos principais estádios ficarão numa região a leste, devem conseguir mudar o cenário. Londres parece imersa num eterno e previsível imobilismo que faz a festa dos álbuns de fotos de viagem - se é que eles ainda existem.
Bem, se essa é a Londres que você encontrou em sua última viagem - ou espera encontrar na próxima -, é melhor parar de ler esta reportagem agora. Porque Londres, assim como aconteceu nos anos 60, o tempo dos Beatles, dos Rolling Stones e da Swinging London, está com tudo. É a cidade mais quente do mundo, e isso não parece se dever ao Big Ben, ao Parlamento, à rainha ou aos cisnes de sua propriedade que habitam os parques da cidade. Londres, que já havia se tornado uma metrópole global com a força de seu mercado financeiro, na década de 90 - nessa época, um em cada seis trabalhadores londrinos estava no setor -, só faz refinar-se. Em muito pouco tempo passou do lugar cujo expresso era "imbebível", na imagem de um cronista do jornal londrino The Observer, para uma cidade que ostenta 40 restaurantes estrelados pelo Guia Michelin. Uma capital realmente internacional, que trata seus visitantes como cidadãos - ou jogadores, nas palavras de James Harding, outro jornalista, este do mais conservador The Times. Harding cita em seu artigo três empresários para mostrar como a cidade acolhe os forasteiros. Os dois donos das principais empresas de telefonia celular do país, que são indianos educados nos Estados Unidos, e um bilionário russo exilado, que preside o Chelsea, um dos mais rentáveis clubes de futebol ingleses.
Não creio que esses três figurões londrinos estejam agora na minha frente, nessa "prainha" de verão que estou pegando na hora do almoço, no gramado da Soho Square. Mas talvez a indiana vestida de punjab, um conjunto de calça e túnica lilás bordadas, que traça um kebab de carneiro, o homem entrado em anos de turbante que toma um refresco e o polaco de lindos olhos azuis (suas botas de operário também descansam no gramado) abrindo sua caixinha de fish & chips sejam mesmo jogadores, atraídos a Londres tanto pelas oportunidades financeiras quanto por algo mais intangível, uma vibe de capital do mundo. Essa vibração por uns tempos ficou em Nova York, mas hoje parece ter voltado para Londres - vide a efervescência de sua cena pop e o preço de seu metro quadrado.
O cineasta inglês Guy Ritchie - ex-futuro-exmarido de Madonna - colocou em seu novo filme, RocknRolla, criminosos britânicos e russos em torno de uma operação imobiliária. Numa entrevista, queixou-se dos preços absurdos que os imóveis alcançaram em Londres. Guy e Madonna moram no chique bairro do Mayfair, em uma mansão avaliada em 7,5 milhões de libras (ou 22,5 milhões de reais). Nos últimos anos, compraram mais quatro casas. Na vizinhança, está em construção o prédio One Hyde Park, cuja cobertura é citada como o apartamento mais caro do mundo (foi vendida por 365 milhões de reais). O projeto leva a assinatura de Richard Rogers, prêmio Pritzker (o Nobel da arquitetura) e autor do Beaubourg de Paris. Para ter uma idéia, calculase que um flat com um quarto num bairro remediado como Walworth, perto da Tower Bridge, equivalha a uma boa casa no Brooklyn nova-iorquino.
O mundo pode sonhar com férias na ChampsÉlysées. Com os musicais da Broadway. Mas busca inspiração em Londres. Assim faz Worapong Manoopipatpong, um estudante de design que agora passeia pela margem sul do Tâmisa, onde está a Tate Modern - o museu de arte contemporânea que em menos de dez anos de existência já é uma das atrações mais visitadas da capital. Ele assiste à performance de skatistas em um vão grafitado abaixo da sala de concertos Queen Elizabeth. Worapong usa moletom de estampa gráfica e óculos Ray Ban Wayfarer, imortalizados por Bob Dylan. Parece à vontade em Londres, ele que é de Bangcoc, na Tailândia. "Em nenhum outro lugar do mundo existe tanta gente criativa interagindo", diz.
"Londres é a esquina do mundo", afirma a vendedora nova-iorquina Lauren Kaufman, sentada em um sofá feito de grama sintética ao lado do Instituto Britânico de Cinema, o BFI. Até por uma razão geográfica, ela está certa. Por um punhado de libras, é possível ir a Moscou em cinco horas, a Bombaim em sete e a Pequim em nove. Da estação internacional de St. Pancras, no norte da cidade e impecavelmente restaurada, trens levam e trazem viajantes de toda a Europa. E embaixo da London Bridge, a primeira ponte de Londres, a falta de fronteiras pega pelo estômago.
O Borough Market é um convite a degustar o mundo todo: a loja espanhola Brindisa faz sanduíches de chouriço, uma indiana perfuma a feira com bolinhos de curry e, em um único ábado, o suíço William Auglithorpe vende mais de 350 raclettes.
Os defensores de Nova York como a capital da Terra gostam de dizer que, se Londres é a grande metrópole cultural do mundo, é do outro lado do Atlântico que o dinheiro está. Quem circula por Canary Wharf, a próspera região das docas, desconfia. Nos últimos cinco anos, 870 novas companhias abriram seu capital na bolsa de Londres, contra 526 na Nasdaq nova-iorquina. Se continuar assim, até 2010 mais gente irá trabalhar com finanças em Londres do que em Nova York. O boom financeiro está no skyline: a cidade cresce, e é para cima. O 30 St. Marie Axe, prédio comercial concluído em 2003 e batizado de Erothic Gherkin por sua fálica forma de um "pepinão", já é vendido como cartão-postal nos mercadinhos de bairro tocados por paquistaneses e outros asiáticos.
Desenhado pelo arquiteto Norman Foster, que, como Richard Rogers, tem status de lorde, o Gherkin foi o primeiro arranha-céu famoso. Londres mantém, por bairros e bairros, a arquitetura do pós-guerra, com sobrados de até quatro andares. Mas há muitos outros prediões em construção na cidade - a ponto de a prefeitura delimitar áreas para que eles não atrapalhem a vista. Dá para entender: a Catedral de Saint Paul, que em 2010 completa 300 anos, é estupenda, e o Big Ben, charmosíssimo com seus míseros 96 metros de altura (o Gherkin tem 180 metros).
Entre tantos bairros fervilhantes de Londres, talvez nada "pegue" mais que Shoreditch, não muito longe da Old Street Station - que com Hoxton forma a área hype da cidade. Chego numa avenida aparentemente degradada. Teria descido na estação errada? Ao chegar a Hoxton Square, vejo que não: ali estão a movimentada White Cube Gallery, restaurantes moderninhos, a Hoxton Boutique. Pelo caminho, os predinhos populares que agora são residência de artistas plásticos, designers e músicos. Eu já havia mesmo lido na revista Time Out, que sabe captar o humor da cidade: o East é "o novo nirvana cultural de Londres". Estúdios de fotografia, lojas loucas de jovens estilistas, cabarés e gastropubs (agora com mulheres, sinuca e até cozinha contemporânea) fervilham por aqui. As festas ilegais continuam - mas agora são divulgadas na comunidade do site My Space, em vez de no boca-a-boca.
Com os preparativos para as Olimpíadas de 2012 - a vila olímpica está em construção, próximo a Stratford (em São Paulo, seria algum lugar entre Penha e Cangaíba) -, muita coisa vai mudar por aqui. Uma nova linha de metrô tem conclusão previsão para 2010. Tapumes anunciam lofts de luxo. Até o Victoria & Albert, o lindo museu de artes decorativas de South Kensington, instalou seu acervo infantil em uma nova sucursal no bairro de Bethnal Green. Se você pretende visitar a região, aproveite o fi m de semana, quando fervilham os mercados da Rua Broadway (perto da Hackney Road) e o brechó ao ar livre da Brick Lane, rua da comunidade de Bangladesh e também do sujinho Bagel 24 horas, há anos uma instituição. Perto dali, está o mercado de Spitalfields, que acaba de ser renovado. Se Paris dita as passarelas, é a capital britânica que ensina o planeta a se vestir. Atenção, fashionistas: quando as ruas do mundo cultuam o All Star, Londres já voltou à moda dos tênis Keds.
Sobre a Ponte do Milênio (a única construída sobre o Tâmisa nos últimos 100 anos), o gaúcho Marcos Kotlhar apressa o passo para o show do Radiohead - uma das bandas mais importantes, talvez a mais importante do pop dos últimos 15 anos. "É a primeira vez que eu vou a um show antes das 8 da noite", diz ele, com uma fração da gigantesca agenda cultural da cidade anotada num bloquinho. A caminho da Hayward Gallery, a empresária mineira Simone Mourão tem menos pressa. "Selecionar é essencial para aproveitar a cidade", diz. Ela sabe das coisas: ir a Londres é deixar de ver muita coisa, mas ter a certeza de que, uma hora, você acha o que procura.
Dentro da roda-gigante London Eye, a 135 metros de altura, eu considero a cidade "vista". Para fruí-la, seria preciso mais (um ano? uma vida?). O passeio na London Eye, cujas "cadeiras" são na verdade bondinhos como o do Pão de Açúcar, prova que Londres sempre se supera. Quem pode imaginar hoje em dia a cidade sem seus olhos de vidro, instalados há apenas oito anos à beira do Tâmisa? Na saída da cápsula, sou guiada pelas notas da guitarra de Lewis Floyd Henry. Nascido no subúrbio de Londres, o músico é apenas mais um entre tantos - a face in a million - que fazem boa música nas estações de metrô e nas ruas. Tem esperança de encontrar por lá um produtor, que o tornará "pop star". Impossível não é: aconteceu com os Sex Pistols, aconteceu com Amy Winehouse, a diva que estampa dia sim, dia sim as suas histórias de excessos nos tablóides. Como Henry, ela vivia na periferia ouvindo Ella Fitzgerald. Na voz, os dois trazem o sotaque cockney, aquele típico das ruas menos centrais. Amy gravou o primeiro disco aos 19 anos, ganhou prêmios a mancheias e tornou difícil a vida da próxima estrela. Henry tem 31 anos e espera "o tempo de um blues voltar". E não é em Chicago, Nova York ou no Mississippi, mas em Londres mesmo que ele pretende ver isso acontecer.
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