Tomando outro trem no aeroporto, leva-se dez minutos até a Hauptbahnhof, a estação principal. Suspenso por cabos, o opulento Anjo da Guarda, da artista plástica francesa Niki de Saint-Phalle, flutua acima dos recém-chegados. Alguns passos e você sai na Bahnhofstrasse, séria candidata a rua de compras mais chique da Terra. Vale gastar um tempo (e economizar uma fortuna) praticando o window shopping - a arte de namorar vitrines. Jóias cintilantes e relógios reluzentes estão à venda por preços estratosféricos, mas, para que preciosidades deliciosas caibam no orçamento, siga até a confeitaria Sprüngli (Bahnhofstrasse, 21, 41-44/224-4740, spruengli.ch; Cc: todos). Só o cheiro de chocolate já torna irrefutável a visita. Trufas feitas com cacau selvagem e pralinês que parecem vir em porta-jóias apagarão o encanto daqueles brigadeiros de festa de criança.
Pertinho dali fica a igreja de Fraumünster, convento célebre pelos vitrais do coro, criados por Marc Chagall. Quando abraçou o projeto, no fim dos anos 1960, o pintor bielo-russo já era octogenário, mas ainda tinha completo domínio de seu ofício. O melhor é ver os vitrais pela manhã, quando a luz do sol os invade com maior intensidade, irradiando cenas bíblicas num mosaico fulgurante. Na saída, vale andar pelos arredores: voltando pela Bahnhofstrasse, dá para se embrenhar pelas ruazinhas até a Lindenhof, colina em cujo topo há uma praça tranqüila com vista para o Rio Limmat. Foi ali que, no ano 15, os romanos fincaram um posto alfandegário, iniciando a ocupação de Zurique. Colada ao Lindenhof fica a Igreja de St. Peterskirche, que se diz dona do maior relógio de torre da Europa (não, não é o Big Ben), com 8,64 metros de diâmetro. Do outro lado da Ponte Münsterbrücke, a Catedral Grossmünster, em estilo românico, tem mais história. Foi nesse local que o pastor Huldrych Zwingli começou a pregar contra a Igreja Católica, no século 16, atiçando a Reforma Protestante.
A inclinação à rebeldia ressurgiu quatro séculos mais tarde num endereço bem próximo, Spiegelgasse 1, onde, em 1916, foi fundado o Cabaret Voltaire. Entre sessões de poesia e provocações ao público, o clube serviu de palco para o nascimento do dadaísmo, o movimento que fazia troça das convenções sociais - e da própria arte. Lá hoje funciona o centro cultural, adivinha?, Cabaret Voltaire (Spiegelgasse, 1, 41-43/268-5720, cabaretvoltaire.ch; Cc: todos). Daí, numa curta caminhada, se chega à Kunsthaus (Heimplatz, 1, 41-44/253-8484, kunsthaus.ch; CHF 18), um museu que expõe, além dos Picasso, Monet e Paul Klee da vida, a obra do suíço Alberto Giacometti, grande nome da escultura do século 20. Entre suas intrigantes figuras de bronze há um cão que, de tão esquálido, chega a dar dó. O museu tem dois andares. Dá para ver tudo em duas horas prazerosas.
No fim de tarde, estique as pernas até o Zürichhorn, um parque à beira do Lago Zurique e curta o visual, os picos nevados a refl etir o sol em dias de céu azul no background. De maio a setembro, rio e lago se transformam em enormes piscinas naturais: é "o" programa, como ir à praia no Rio de Janeiro. O lazer se estende à orla: há gente fazendo piquenique, passeando com o cachorro, andando de patins. Uma vez no parque, repare na Heureka, de Jean Tinguely, uma escultura que poderia ter saído da oficina do Professor Pardal, e na Heidi-Weber-Haus. Esta é um caixotão com retângulos coloridos, a última casa projetada por Le Corbusier, arquiteto suíço que lançou as bases do modernismo, foi influência confessa de Oscar Niemeyer e ilustra a cédula de 10 francos suíços. Zurique também tem bons restaurantes. No Blindekuh (Mühlebachstrasse, 148, 41-44/421-5050, blindekuh.ch; Cc: todos), ver e ser visto é definitivamente o que menos importa - as mesas são servidas num breu total, maneira que os donos, cegos (e os garçons, idem), imaginaram para repartir com os clientes a sua perspectiva de mundo.
Bem mais convencional é o Zeughauskeller (Bahnhofstrasse, 28, 41-44/211-2690, zeughauskeller.ch; Cc: todos). Vá de picadinho de vitela à moda de Zurique, com molho cremoso de vinho e champignons. Outro restaurante célebre é o Kronenhalle (Rämistrasse, 4, 41-44/262-9900, kronenhalle.com; Cc: todos), que também atrai por suas paredes forradas de originais de Picasso, Miró, Matisse, Chagall, Giacometti...Baratíssimo é o Sternen Grill (Theaterstrasse,22, 41-44/251-4949, vorderer-sternen.ch), um quiosque que serve a propalada "melhor bratwurst da cidade". Aí o negócio é comer com as mãos, molhando o respeitável salsichão no potinho de mostarda Dijon, daquelas picantes que sobem ardendo pelo nariz.
Nos últimos anos, o eixo da vida noturna - e diurna - deslocou-se para a Zürich-West, ex-zona industrial e hoje a região mais moderna da cidade. O que um dia foi um estaleiro agora abriga o Schiffbau, com restaurante, clube de jazz e salas de teatro, enquanto dos escombros de uma cervejaria vizinha brotaram galerias, bar, livraria, dois museus. Shopping centers e hotéis também foram se instalar ali - prova de que as transformações de Zurique parecem longe do fim.
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