O cruzeiro do Zenith de oito dias - partindo de Santos, com paradas em Buenos Aires e Punta del Este - me parecia perfeito para avaliar o nível de qualidade que um all-inclusive sobre o Atlântico pode atingir. Primeiro, porque o Zenith é um top de linha operado pela CVC. E, depois, porque o roteiro incluía dois dias inteirinhos de navegação na ida e mais dois na volta - um itinerário que me permitiria experimentar tudo o que o navio tinha. Aviso importante aos navegantes: neste verão os circuitos do Zenith serão diferentes. Alguns terão escala em Punta, mas nenhum pára em Buenos Aires.
O embarque
Minha partida estava programada justamente para o dia em que seria batido o recorde de navios de cruzeiro a zarpar num mesmo dia do Porto de Santos. O cais de passageiros ficou entupido de gente - e o embarque, lentíssimo. Depois de 45 minutos de empurra-empurra fora da sala de embarque e outros tantos na fila do check-in, a chegada ao navio ainda nos reservaria um contratempo final: metade dos passageiros não pôde ter acesso imediato a suas cabines porque as chaves tinham se desprogramado sozinhas. E lá fomos nós para mais uma fila de meia hora, dessa vez na recepção.
Uma vez acomodados, contudo, o resto da tarde foi só alegria. O dia estava lindo, com sol quente ainda às 6. A festa de boas-vindas, no de- que da piscina, já ficou animada antes mesmo de o navio zarpar. A saída foi emocionante: por causa do tal recorde de partidas de navios, meia Santos veio se despedir dos transatlânticos. Nos píeres e deques da Ponta da Praia, apinhados de gente, todos acenavam com lenços brancos. No navio, os passageiros se espremiam para retribuir, tremulando bonés, toalhas e camisetas. Um barco do Corpo de Bombeiros apareceu esguichando água para todos os lados, feito uma fonte italiana. Um espetáculo que ninguém esperava estar incluído no all-inclusive.
O estilo
Em termos de design, o Zenith é eclético - revelando provável processo de renovação do navio em etapas. O ambiente mais moderno é o da piscina, que tem acabamento em madeira clara e espreguiçadeiras levíssimas, de estrutura de alumínio e leito de náilon. (No deque inteiro, um único senão: o piso de sisal, quando molhado, não proporciona nenhum toque agradável ao pé descalço.) As cabines, de bom tamanho, também seguem uma linha agradavelmente minimalista. Outro recinto com ar contemporâneo é o da recepção, que não ficaria deslocada em hotel novinho. Já o restaurante principal (Caravelle) e o teatro têm linhas mais clássicas (e classudas). Os bares e cafés, por sua vez, acompanham o cassino naquele estilo hotelzão-de-Las-Vegas peculiar aos navios. O único ambiente que destoa totalmente é o do restaurante-bufê, o Windsurf, cujo jeitão de refeitório prejudica bastante a aura de navio de luxo do Zenith. Felizmente, é possível servir-se e levar o prato ao restaurante externo, o The Grill, onde o mobiliário vagamente escandinavo, o ar fresco e a vista do mar fazem você se sentir a muitas milhas náuticas de distância do bandejão.
Os incluídos
Nada é mais importante num all-inclusive do que a variedade e a qualidade da oferta de comida e bebida. E nesses quesitos o Zenith se sai muito bem. Mesmo no bufê, as saladas estão sempre frescas e as massas não passam do ponto. No The Grill, os grelhados são acompanhados por batatinhas fritas na hora e, numa concessão ao gosto brasileiro, arroz e feijão-preto. Entre as sobremesas, prove as light, tão gostosas quanto as mais calóricas. O jantar "sentado", servido em dois turnos no Caravelle, revela uma cozinha seguríssima, que sabe executar pratos sofisticados em grande escala. Todas as noites eu e meus companheiros de mesa nos surpreendíamos: como eles conseguem preparar isso, e para tanta gente, num navio? Se durante o seu cruzeiro oferecerem costeletas de cordeiro, não deixe de pedir. As bebidas são servidas generosamente por uma equipe que passa 16 horas por dia abrindo garrafas, enchendo copos e preparando drinques sem parar. Nem sempre a marca de cerveja preferida pela maioria está disponível ("Ainda não gelou", dizem os barmen); os vinhos branco e tinto são do Vale do São Francisco; e a vodca e o gim usados nos coquetéis, genéricos (a não ser que você peça uma marca específica). Mas o uísque é escocês; e o espumante e o vinho rosé, espanhóis. Descobri o ótimo rosé no finzinho da manhã do segundo dia, e no meio da tarde já estava tão, digamos, "all-inclusive", que precisei ir para a cabine tirar uma sonequinha.
Os excluídos
Para consumir tudo o que está fora do plano all-inclusive - de massagem no spa a compra nas lojas - é preciso abrir uma conta na recepção, com cartão de crédito internacional ou dólares. O cassino, comparável ao de qualquer grande hotel, tem caça-níqueis funcionando desde as 10h30 da manhã; as mesas começam a operar às 2 da tarde e vão até de madrugada (não custa lembrar: cassino de navio sempre fecha quando a embarcação está parada num porto). Os preços do spa assustam quem sai de casa com a expectativa de não ter mais nenhuma conta a pagar. O acesso à internet não é dos mais rápidos e custa 25 dólares a hora - por isso há máquinas disponíveis a qualquer momento.
Os shows
A bebida liberada é o combustível que anima ainda mais os shows, que começam às 12h e se estendem até a madrugada. Durante todo o dia, em algum ponto do navio há alguma apresentação. Podem ser os humoristas que fazem concursos e charadas, um dos dois pianistas que se revezam no piano-bar ou ainda uma das quatro bandas que atacam - com competência - covers de rock, pop, MPB, samba, pagode e axé. No meio de uma tarde de sol, depois de duas bandas e inúmeras idas per capita ao balcão do bar, o clima do deque da piscina é o de um megachurrascão no clube. Não dá pra não soltar a franga.
Quem prefere ambiente mais recatado fica pelo piano-bar, onde a compostura é mais facilmente mantida. E os que não curtem som ao vivo podem se refugiar na sala de jogos, cujas mesas são ocupadas por senhorinhas ávidas por um carteado. Também é possível se esconder na sala de ginástica, que conta com professores da Fórmula Academia. Mas, à diferença do que conheço em academias de verdade, no meu cruzeiro sempre havia muitas esteiras desocupadas. As crianças têm dois espaços próprios, um para os pequenos, outro para os maiorzinhos - este, com várias máquinas de videogame. Mas as tias e os tios inventam várias atividades em outros cantos do navio; não passa nem um dia em que você não cruze com alguma turminha no meio de uma aventura.
O ponto alto da programação é o show noturno, apresentado no teatro, em duas sessões de uma hora e meia. A primeira metade do espetáculo tem sempre bons números de música e dança - na minha viagem apareceu, inclusive, um Elvis Presley hilariante. Mas o que todo mundo espera é a segunda parte, comandada pela estrela-mor dos cruzeiros da CVC: Alexandre Sadan. Ele é um artista completo: canta, dança, sapateia, improvisa e faz piadas engraçadas (sem nenhuma apelação). Sabe aqueles números de platéia em que pobres espectadores são escolhidos para pagar mico? Pois Sadan é tão talentoso que no fim todo mundo parece gostar de pagar mico a seu lado. (Dica: para participar do show, basta descer desavisadamente do mezanino para a platéia pela escada ao lado do palco. Sadan pára tudo na mesma hora e incorpora o espectador ao show). O melhor momento fica para a última noite: uma personificação impecável de Ney Matogrosso que pode fazer você enfartar de rir. Outro aviso aos navegantes: até agosto não estava confirmada a presença de Sadan nos roteiros deste ano.
O desembarque
A saída do navio revelou-se um repeteco, piorado, do embarque: centenas de passageiros empoleirados nas escadarias internas do navio, com direito a acessos de claustrofobia. Só que a culpa, dessa vez, não foi do Porto de Santos nem da organização do navio, mas dos próprios passageiros, que não respeitaram as instruções da tripulação. O pessoal do Zenith bem que poderia inventar uma saideira all-inclusive no deque da piscina. Aposto que pouca gente iria ter tanta pressa assim de desembarcar...
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