Então novíssima sensação da MPB, a filha de Elis Regina (que deixou a cidade um tanto desapontada com seu provincianismo, nos anos 1960) tinha ouvido de amigos gaúchos que se apresentar em Porto Alegre seria diferente de tudo o que ela já tinha feito. Maria Rita admite que subiu mais ansiosa que o habitual ao palco do Teatro do Sesi. Terminada a quarta música do show, quando se preparava para anunciar o nome das canções, Maria Rita viu a platéia se levantando lentamente, em cascata. De repente, alguém do fundo do teatro gritou: "Sangue gaúcho!" Era o mais contundente ato de aprovação que um "estrangeiro" poderia receber em solo rio-grandino.
Os fortes ventos do decantado orgulho gaúcho que sopram o ano todo nas coxilhas distantes ou nos estádios de futebol mais importantes, Olímpico e Beira-Rio, onde as torcidas de Grêmio e Inter fazem tremular as bandeiras verde, vermelha e amarela do Rio Grande do Sul e entoam o coro de "Ah! Eu sou gaúcho!" durante os jogos, vêm com mais força ainda em setembro. É neste mês que se comemora a Revolução Farroupilha, a mais duradoura revolta civil armada em território nacional.
Em 1835, os gaúchos entraram em conflito ideológico e econômico contra o império, e chegaram a proclamar a República Rio-Grandense, com sede em Piratini, região sudeste do estado. O marco inicial da batalha, que durou dez anos e foi também conhecida como Guerra dos Farrapos, deu-se no amanhecer de 20 de setembro de 1835, quando os rebeldes invadiram Porto Alegre e tomaram o poder. Em 1995, a Constituição estadual determinou que essa data fosse decretada feriado estadual. Na manhã de 20 de setembro, o Desfile Farroupilha se repete pelas avenidas centrais de todos os rincões do Rio Grande do Sul, fechando um calendário de eventos que tem o dia 13 como o início da Semana Farroupilha e o dia 8 como data oficial do início do Acampamento Farroupilha. Neste, os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) e grupos de amigos (denominados piquetes) se reúnem a céu aberto para celebrar e dividir com o público sua história e suas tradições, em churrascos, rodas de chimarrão e projetos culturais que versam sobre feitos, origens, costumes, danças, lendas e mitos gauchescos. A confraternização acontece no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, popularmente conhecido como Parque da Harmonia, área de 65 hectares situada ao lado do Lago Guaíba (o povo chama de rio, mas geograficamente é um lago), em Porto Alegre.
A novidade dos últimos tempos é que os gaúchos estão explorando com mais competência o potencial econômico da paixão do povo por sua terra. Vide o tamanho e a organização atual do Acampamento Farroupilha. Estimativas oficiais indicam que perto de 800 mil pessoas vão passar por lá em 2008. As ofertas são variadas: workshops regionalistas (chimarrão, indumentária, comida), dezenas de shows e bailes nativistas gratuitos, realizados no Centro Municipal de Eventos da Cultura Gaúcha (com capacidade para 2 mil pessoas), uma feira com 50 estandes, que vendem produtos culturais e artesanais (de livros e discos a móveis rústicos), além de provas campeiras (os rodeios gaudérios). Também é possível apenas passear pelos piquetes e experimentar uma volta no tempo, pampa adentro.
A rigor, o acampamento dura o mês inteiro, porque os galpões que recebem os convidados começam a ser montados no fim de agosto e se estendem até uma semana depois do desfile do dia 20. A idéia inicial de que cada piquete reproduza um vilarejo permanece, mas os números são de grande cidade: cerca de 50 toneladas de carne, 25 de carvão e lenha, 20 de erva-mate e 400 mil cacetinhos (como é chamado o pão francês pequeno) são consumidos. O Acampamento Farroupilha chegou a esse estágio por causa de uma série de modernizações que vem sofrendo desde 2000, a despeito das desconfianças de esvaziamento de seu caráter tradicionalista (modernizar não é uma palavra exatamente bem-vinda entre os organizadores. "O acampamento era muito feio esteticamente, então começamos proibindo as lonas pretas, padronizamos a alimentação, regularizamos o merchandising e determinamos que cada piquete apresente um tema para que o lote seja concedido", diz o marqueteiro Josemar Basso, que em 2000 foi chamado para auxiliar na captação de recursos.
Em 1987, quando foi oficialmente instituído, o Acampamento Farroupilha permitia que simpatizantes simplesmente armassem seus galpões e barracas e permanecessem lá durante o mês de setembro. Agora a área é dividida em lotes (pouco menos de 400), que são leiloados aos piquetes que apresentem um projeto cultural a ser aprovado pela comissão municipal. De preferência, o projeto deve abordar um dos dez itens do tema da Semana Farroupilha. Em 2008, o mote é "Nossos símbolos, nosso orgulho": bandeira, hino, armas, cavalo crioulo, churrasco (o prato típico), chimarrão (a bebida), erva-mate (a planta), quero-quero (a ave), brinco-de-princesa (a flor) e macela (a planta medicinal). O acesso ao local é gratuito e também não há cobrança de ingresso aos shows. Os únicos gastos do turista no acampamento são os com bens de consumo.
O cantor Neto Fagundes, um dos importantes renovadores da música regional gaúcha que cresceu indo aos acampamentos de Alegrete, onde nasceu, vê o evento como um grande negócio. Respeitador das tradições, ele saúda a exploração comercial do orgulho gaúcho, mas pede equilíbrio. "Um cara de outra região pode achar esquisito, às vezes até agressivo, mas as pesquisas mostram que esses temas são muito bem aceitos por aqui." No começo deste ano, Fagundes foi convidado a abrir o tradicional festival de música pop Planeta Atlântida, em Xangri-lá, praia do litoral gaúcho. Pilchado (isto é, trajando bombacha, bota, chapéu e lenço no pescoço), ele cantou o Hino Rio-Grandense e foi ovacionado por cerca de 30 mil jovens, que fizeram coro no refrão: "Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra". A cena recorrente de quem passeia nos fins de semana pelo Parque Farroupilha (como tudo em Porto Alegre, mais conhecido com outro nome, Parque da Redenção) é uma das provas evidentes de que a preservação das tradições, se tem como defensor intransigente o Movimento da Tradição Gaúcha (MTG), ecoa naturalmente na maioria da população "civil": centenas de casais e grupos de amigos carregam seus kits de chimarrão pelos gramados da Redenção - a cuia, a bomba e a garrafa térmica, acondicionados em horrorosos mateiros, normalmente de couro. Inclusive há locais no parque que abastecem as térmicas com água quente, ao custo de 2 reais. O Parque Farroupilha, inaugurado em 1935 como parte dos festejos do centenário da Guerra dos Farrapos e sede de uma concorrida feira de artesanato e antiguidades, o Brique da Redenção, é passeio obrigatório para quem visita a capital dos gaúcha.
Por enquanto, não há local específico para que turistas se instalem no espaço interno do Acampamento Farroupilha, mas a infra-estrutura para recebê-los é satisfatória: é fácil chegar ao parque (de ônibus ou de carro) e há diversos estacionamentos pagos ao redor do lugar (preços desde 5 reais), um posto de saúde 24 horas, restaurantes tanto de comidas típicas (carreteiro, lingüiça) como também da culinária italiana, além de lanches rápidos, uma churrascaria e uma praça de alimentação. Ao redor do parque, as tradicionais bancas de ambulantes informais pululam, mas não têm a garantia de qualidade imposta pelos organizadores. Como a circulação de carros na área interna do parque é proibida, produtos necessários à sobrevivência dos acampados são vendidos em estabelecimentos montados no local, como açougues, bolichos (armazéns), padarias e revendas de gelo, carvão e lenha, além de distribuidora de bebidas.
É bastante comum que os adeptos do tradicionalismo programem suas férias anuais para o período do acampamento. A grande maioria participa do Desfile da Semana Farroupilha, que se desenrola no Parque Marinha do Brasil, igualmente na orla do Lago Guaíba, e também vem sentindo os ventos da modernidade. "Há pouco tempo tínhamos menos de 5 mil pessoas vendo cavalos desfilando durante horas; agora temos 50 mil apreciando carros temáticos", conta Josemar Basso, que ajudou a idealizar o novo conceito do evento. O desfile abre com a Brigada Militar, continua com as invernadas, em carros alegóricos (o que corresponde às alas do Carnaval) e culmina com o passeio de cavalos montados por gaúchos e gaúchas devidamente pilchados. Obviamente a "carnavalização" sofre duras críticas, mas as TVs (alguns canais mostram o desfile) agora têm um produto bastante variado e atrativo.
Só não estranhe ver cavalos andando pelas calçadas da cidade durante a Semana Farroupilha (acredite, não é comum durante o ano), tampouco funcionários públicos, taxistas ou motoristas de ônibus pilchados (isso é bem comum, mas se intensifica em setembro). Algumas solenidades incluem trajetos montados, sobretudo as que envolvem a chama crioula, a tocha olímpica da Semana Farroupilha, que é acesa em agosto em alguma cidade do estado e percorre o trajeto até Porto Alegre, levada por uma comitiva especial, os cavalarianos. Neste ano a chama crioula foi acesa dia 16, em São Leopoldo, e será levada ao Acampamento Farroupilha no dia 13. Depois do desfile do dia 20, os cavalarianos farão a viagem derradeira até o Paço Municipal, onde a chama será extinta pelo prefeito da cidade. A solenidade marca o encerramento da semana mais festejada pelo povo gaúcho, que aproveita para enfeitar a fachada dos prédios com bandeiras estaduais. Já o orgulho, este não se apaga jamais.
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