São comuns por aí cursos voltados para alunos que mal sabem fritar ovo - o que estava longe de ser o meu caso -, mas um domínio básico da língua é vital para não passar aperto nas aulas nem correr o risco de transformar uma receita em um desastre gastronômico. Um aluno com dificuldade no italiano pode trocar facilmente o aceto (vinagre) pelo azeite em uma preparação, bem como usar óleo comum no momento em que a receita pede olio (quase sempre sinônimo de azeite para os italianos). Por falar nisso, já fica a dica, prezzemolo é a nossa usual salsinha.
No programa de uma semana que fiz em Florença, comprado na SIP Travel, a agência paulistana acertou ao deixar clara a necessidade de nível básico de italiano. Eu tentei fazer a minha parte: 40 dias de aulas particulares intensivas me afastaram da possibilidade de morrer de fome ou matar alguém envenenado dentro de uma cozinha.
Confesso que não virei exatamente um prodígio no idioma de Dante, e fluente em "embromazzione", cheguei a Florença louco para conhecer o perfil de meus colegas de aula. Tricotaria com senhoras aposentadas ou cozinharia ao lado de jovens da geração fast-food? No meu caso, a classe era formada por adultos de várias partes do mundo - a holandesa não falava nenhuma palavra em italiano, aliás -, e esses adultos eram bem mais maduros que meus colegas das aulas de idioma.
Sem muitos detalhes sobre o curso de culinária, fui pego de surpresa quando cheguei à escola e descobri que teria aulas práticas em uma instituição com nome francês - e a velha briga entre italianos e franceses pela melhor gastronomia do mundo? Mais: o nome oficial era Scuola di Arte Culinaria Cordon Bleu. Não consegui saber se a escola tinha algum vínculo com o mais famoso centro de formação de chefs de cozinha do mundo, o Le Cordon Bleu - que não tem campus na Itália.
Apesar da rapidez, o resultado foi satisfatório. Se não aprendi técnicas novas ou revolucionárias, foi muito positivo conhecer ingredientes locais e ver quão frescos eles chegam a ser ali. Quisera eu pudesse comprar num supermercado brasileiro uma alcachofra como a daqueles dias. Mas a estrutura era bem modesta - apenas um escritório com uma cozinha meio caseira. Havia ainda falhas de higiene. Não nos pediam para usar touca, por exemplo.
Muita gente deve se perguntar se a dobradinha entre língua e culinária italiana vale o investimento. Não é só questão dos pelo menos 2 000 euros envolvidos. Acompanhar todo o curso envolve privações, e essas privações viram uma pequena tragédia quando se sabe que lá fora está Florença.
Mas quem acredita que aprender um idioma de um país é o primeiro passo para entender sua cultura e atingir sua alma pode entrar tranqüilo numa dessas. E, independentemente de seu grau de interesse por cozinha e comida, mergulhar de cabeça nisso permite enxergar raízes de hábitos e gostos locais que nem sempre estão expostas em museus, igrejas e prédios históricos.
Sobretudo quando o curso em questão acontece na Itália, um país em que as pessoas não usam o alimento apenas como combustível do corpo. Os italianos, com seu respeito à qualidade dos ingredientes, às técnicas de preparo de sua cozinha e aos rituais da mesa, parecem respirar comida.
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