Faça como a maioria dos forasteiros e inicie por Salta, a 1 600 quilômetros de Buenos Aires, entre o fim dos pampas e o início dos Andes. A arquitetura colonial é o que mais chama atenção na cidade. À noite, seu centro histórico fica lindo, todo iluminado e sem a multidão que circula por lá durante o dia. Observe como é bonita nesse horário a fachada do Convento de San Bernardo, onde só carmelitas podem entrar. Durante o dia, visite o Cabildo, antiga sede do governo municipal, atual Museo Histórico del Norte, e também a catedral erguida no século 19 para abrigar uma imagem da Virgen del Milagro - ela teria conseguido parar o terremoto que atingiu a região em 1642.
Em algum momento, prove o quitute oficial da cidade, a famosa empanada salteña. O molho suculento e a carne picada com faca, em vez de passada no moedor, são as principais características da iguaria. E justificam o seu apelido de "empanada piernas abertas", que muitos turistas só entendem quando a primeira gota do recheio mancha suas roupas.
Os turistas mais corajosos costumam embarcar no impressionante Tren a Las Nubes, que faz jus ao nome. Essa colossal obra de engenharia, que concretou e concretizou a improvável façanha de atravessar a Cordilheira dos Andes, liga Salta ao altíssimo viaduto La Polvorilla, a 4 220 metros de altitude, e parece voar sobre pontes sem proteção - bem perto das nuvens.
Mesmo que o casario colonial imponente e a catedral cor-de-rosa da Plaza 9 de Julio justifiquem o apelido de "La Linda", Salta é apenas uma base estratégica para conhecer o resto da região. Para ter uma boa noção do que é o norte argentino, seu roteiro precisa incluir as províncias vizinhas de Jujuy e Tucumán. A 103 quilômetros rumo norte, San Salvador de Jujuy é uma cidade alaranjada, bem movimentada e um tanto esculachada. Mas não se desaponte, pois é ali perto, no caminho para Tucumán, que ficam as maiores jóias da região: a Quebrada de Humahuaca e a Quebrada de Cafayate - dois vales esculpidos por rios formados de águas de degelo vindas da Cordilheira dos Andes. Parece improvável que o magro filete que você verá correr entre os rochedos vermelhos, verdes e acinzentados tenha sido responsável por lapidar aquela imensidão toda. O tempo e o vento também contribuíram para criar o quadro, que inclui, entre outras "esculturas", uma concha acústica natural batizada de Anfiteatro.
Talvez pelo efeito do eco ou pela concentração dos ônibus de excursão, o Anfiteatro costuma reunir aqueles músicos com flauta, tambor e violão que parecem bolivianos ou peruanos. Mas eles são argentinos mesmo, de origem indígena. É que a região foi ocupada por povos préhispânicos desde 10000 a.C., e até hoje diversas etnias habitam pitorescos vilarejos ao longo do Vale do Rio Grande, aos pés das quebradas. O cenário é surreal, e o contato com o povo andino, mais ainda. Não se intimide com os olhares desconfiados, mas também não tente se esquivar de levar para casa os broches de lã que eles vendem a preço de banana.
A 180 quilômetros de Salta, a silenciosa Purmamarca é rodeada pelo Cerro de los Siete Colores, tem mercado de artesanato e igrejinha com belas pinturas. Lá, o vermelho das montanhas se mistura ao das paredes das casas e das ruas de terra. Tapetes e casacos de lã tecidos artesanalmente pelas comunidades indígenas que vivem ali acrescentam ainda mais colorido ao povoado atemporal.
Apenas 10 quilômetros depois fica Maimará - que para os incas significava o "lugar onde caem as estrelas". Além de um fotogênico cemitério, a cidade abriga uma das mais lindas composições pictóricas do pedaço. É a cadeia de montanhas La Paleta del Pintor, cujo nome é bem apropriado à miscelânea de cores que exibe. Tente apreciar esse show da natureza durante o pôr-do-sol. Além de encantar os olhos, a policromia dessas elevações ajuda a identificar os períodos em que surgiram. As tonalidades azuis, verdes e violetas pertencem às rochas mais antigas, muito antes da formação dos Andes - quando o lugar ainda era mar -, enquanto os tons amarelos e laranjas são de períodos recentes.
Continuando mais um pouco, você chegará a Tilcara, a mais vibrante e artística das cidades da rota, sede de El Púcara - uma fortificação construída pelos índios omaguacas na época pré-colombiana. Além dos resquícios arqueológicos, a paisagem é dominada por impressionantes cactos milenares de até 6 metros de altura, os cardones.
A cidade de Humahuaca, que dá o nome à quebrada, fica a 40 quilômetros de Tilcara. Ali, tão interessante quanto suas ruelas de paralelepípedo e casas de barro é observar a população da etnia quíchua vendendo artesanato nas ruas. Dê uma olhada também na igreja em estilo colonial. Antes de seguir viagem, que inclui ainda minúsculos povoados, como Coctaca e suas misteriosas ruínas, experimente mascar folhas de coca. Elas ajudarão a minimizar o desconforto causado pelo ar rarefeito - tontura, enjôo, dor de cabeça - que provavelmente você sentirá ao cruzar a Puna de Jujuy, a 4 mil metros de altitude, para chegar a Salinas Grandes. E nesse enorme lago de 12 mil hectares, de onde se extrai sal, você vai querer se sentir em plena forma para caminhar sobre a superfície e ver os trabalhadores em ação.
Depois de explorar os vilarejos ao norte de Salta, desça 183 quilômetros até Cafayate, cidade que já faz parte da rota do turismo enológico argentino. A região, chamada de Valles Calchaquíes, tem vinhedos situados a mais de 1 700 metros do nível do mar, num lugar de pouca chuva e muito vento - uma feliz combinação de fatores que ajuda a prevenir pragas. Para provar taças e mais taças de bons tintos e brancos, percorra suas bodegas, que têm conquistado prestígio internacional graças à uva-símbolo torrontés, que produz vinhos brancos frutados.
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