"Te gusta el Rei?", pergunta. Eu arrisco um "si, por supuesto", e ele usa a referência para me apresentar Juan Luis Guerra. Como nosso astro, Guerra já ganhou o Grammy e vendeu milhões de discos pelo mundo. "Es nuestro Roberto Carlos", compara Prudi, referindo-se ao dominicano que escreveu a versão original de Borbulhas de Amor, interpretada pelo cearense Raimundo Fagner. Como no Brasil, quase tudo no Caribe é música. E na República Dominicana nada - nem o mar azul-alucinante de Punta Cana, destino da maior parte dos 18 mil brasileiros que devem desembarcar no país em 2008 (boa parte nos novos vôos da Copa Airlines e nos dois charters semanais da CVC) - parece agradar tanto aos dominicanos quanto um bom bailado de merengue.
NASCI PARA BAILAR
Na Plaza España, Kíntia Monteiro solta um grito de animação que seduz imediatamente Kushi Kio, um estudante vindo de Tóquio. "Nunca vi nada parecido", diz ele enquanto acompanha a duras penas o movimento das cadeiras da bailarina. Kíntia não chega a ser uma mulher estonteante, mas fica indiscutivelmente charmosa com aquele sorriso, a flor rubra nos cabelos, a saia rodada e colorida. Ela é uma das 24 dançarinas do Balé Folclórico, do maestro Oscar Batista, que já viajou por 12 países para apresentar o ritmo que mistura tambores africanos, accordéon europeu e güira - um instrumento usado em rituais desde os tainos, os primeiros moradores da ilha que a República Dominicana divide com o Haiti. Os turistas não chegam perto da fronteira com o país conhecido por suas guerrilhas e seus conflitos. Mas suas exóticas bruxarias podem ser encontradas no (sujinho) Mercado Modelo de Santo Domingo.
Como o nosso samba, o merengue é paixão nacional. Ecoa nos táxis, nos bares e nas ruas úmidas e quentes. Até Oscar Wao, o personagem derrotado do escritor dominicano Junot Díaz (premiado com o Pulitzer por A Breve e Maravilhosa Vida de Oscar Wao), fazia sucesso com as garotas só por saber "imitar o movimento hipnótico dos adultos". Por muito tempo, no entanto, o som oficial do país foi negado pela alta sociedade por suas letras "vulgares e de duplo sentido". Assim, não é de admirar que Porfírio Rubirosa, o lendário conquistador dominicano que seduziu Marilyn Monroe com seu "detalhe" anatômico de 30 centímetros, tenha sido obrigado a fingir que tocava violino. (Está tudo relatado na biografia A Vida Louca de Porfírio Rubirosa: o Último Playboy, de Shawn Levy).
Na mesma praça onde se confraternizam as (hoje orgulhosas) dançarinas do Balé Folclórico e os forasteiros abobalhados por elas aconteceu outro encontro pioneiro: Cristóvão Colombo aportou ali, em 1492, e deparou, pela primeira vez, com alguns dos mais de 400 mil índios que viviam na ilha. Da família Colombo, a maior lembrança é a casa onde morou o filho de Cristóvão, Diego. Dos tainos e da corte, há peças bem organizadas no acervo do Museu de las Casas Reales. Santo Domingo é cidade pioneira: tem a primeira catedral e a primeira universidade do Novo Mundo. Também tem áreas verdes gostosas, como a do Jardim Botânico, e ótimos charutos feitos a mão, além de rum e jóias com pedras azuis chamadas larimar e âmbar. Da Plaza España, coalhada de restaurantes e bares descolados, nota-se também a primeira fase de um porto novinho em folha.
Do alto da Fortaleza Ozama, uma construção de pedras de 1501 na Calle de las Damas, dá para ver as obras do tal porto, o Sans Soucí, direitinho. É um complexo turístico que, finalizado, terá capacidade para 3 800 passageiros em seus dois terminais (o suficiente para atender, ao mesmo tempo, dois navios com 70 mil toneladas cada um), além de abrigar marina, hotel, condomínio e centro de convenções. A previsão do diretor de relações internacionais do grupo, Jorge Esteves, é que ele traga 20 mil empregos e aumente em até 1% o PIB nacional. Uma mudança relevante para um país que vive do turismo e emprega mais de 2 mil haitianos na construção civil e no cultivo da cana-de-açúcar.
BARBADAS DOMINICANAS
Para quem visita a República Dominicana (no ano passado foram 4 milhões de pessoas), Santo Domingo é tão recente quanto a chegada dos cruzeiros em seu porto. Até hoje o país foi destino de quem procurava os resorts baratíssimos de Punta Cana, na costa leste do país. Boa notícia: as barganhas por lá continuam generosas, cumprindo a seu modo a promessa "seis noites com passagem aérea, comida, mojitos e o Caribe no quintal incluídos". A rede hoteleira se estende para as praias vizinhas, como Bávaro (mas quase todo mundo vende a praia como Punta Cana mesmo). É para essa região que seguimos, em uma estrada asfaltada entre canaviais, quando, próximo à entrada de La Romana, esbarramos com uma típica "pelada" dominical. De beisebol. "Quero ser o próximo Edwin Encarnación", diz Franklin Vasquez, de 16 anos, que segue os passos do ídolo que, como outros 100 dominicanos, joga na liga americana do esporte. Se estivéssemos
com pressa, poderíamos fazer o trecho de avião (Punta Cana tem um aeroporto internacional no qual pousa a maior parte dos vôos charter para a República Dominicana). Ao desembarcar, há quem não saia da praia para mais nada.
Punta Cana praticamente não existia antes da construção do aeroporto e do Club Med, na década de 1980. Hoje, sinto os novos ventos que sopram no mercado hoteleiro (e eles não têm nada a ver com os últimos furacões, a exemplo de Ike e Gustav, que de vez em quando dão as caras no Caribe entre junho e setembro). Hotéis-butique e megaprojetos imobiliários surgem em profusão, aproximando o país do luxo de St. Barth e da vizinha colônia britânica Turks & Caicos. O golfe também tem atraído o jet set de Hollywood - ao todo são 22 campos e, da sacada da minha suíte, eu vejo um assinado pelo cultuado designer (de campos de golfe) Jack Nicklaus.
"Mais de 40% dos hóspedes nos procuram por causa do golfe", contabiliza Karina Argüello, a gerente do Sanctuary Cap Cana, que tem entre seus investidores ninguém menos que Donald Trump. Faço parte dos que preferem a piscina com jacuzzis às tacadas; ou o trecho de areia branca, "varrida" por um funcionário todas as manhãs; o café-da-manhã servido com esmero, individualmente; e a cama macia que ocupa parte dos 350 metros quadrados da suíte. O serviço confuso, no entanto, me faz pensar se o complexo - com marina, condomínios residenciais, três campos e quatro hotéis - será tudo o que pretende. Para o hotel não faltam concorrentes: o mais novo é o Agua Resort, com apenas 53 suítes vip.
Por estar no Caribe, há quem considere o luxo da nova geração de hotéis desnecessário. "Com um mar desses, nem casais em lua-de-mel querem ficar apenas dentro dos quartos", diz o italiano Marino Rosseti, de Milão, que veio acompanhado da esposa e de um casal de amigos. Para eles, pegar praia na mesma ilha de Julio Inglesias (que possui uma vila particular) ou Brad Pitt (que teria comprado terras na Baía de Samaná, mais ao norte) sai barato: 1 euro equivale a mais de 50 pesos dominicanos (o valor de uma garrafa de cerveja Presidente, com direito a troco). Para nós, o custo de uma viagem não é muito mais alto que o de um bom pacote para o Nordeste - desde 1 500 dólares.
PAROU POR QUÊ?
Os pacotes tradicionais incluem seis noites em Punta Cana e uma em Santo Domingo. Não deveriam. A República Dominicana está na segunda maior ilha do Caribe, mas sua área não é maior que o Rio Grande do Norte. Atravessar da costa leste à norte de carro leva oito horas (ou 40 minutos em pequenos aviões locais). E há boas surpresas para quem fica só estendido na espreguiçadeira. A sua operadora pode "enriquecer" o pacote com noites em Puerto Plata, ao norte, que não tem o mar do Caribe (é o lado voltado para o Atlântico), mas tem a animada Praia de Cabarete, uma das melhores para a prática de kitesurfe; de janeiro a março, avistam-se baleias na Baía de Samaná, aquela que atrai Brad Pitt e os investidores do momento (uma estrada acaba de diminuir a viagem desde Santo Domingo de quatro para duas horas). O centro do país, onde está a montanha mais alta do Caribe (o Pico Duarte, com 3 175 metros), agrada aos ecoturistas. Dá para passar uns dias em Bahyahibe, um dos últimos refúgios dos pescadores da ilha, que está a um passeio de lanchada bela Ilha Saona (conhecida por ser o batevolta mais interessante desde os resorts de Punta Cana). Só não deixe de ficar na Zona Colonial de Santo Domingo. Lá você não encontrará os dominicanos que todo mundo vê nos hotéis, com camisas floridas e mojitos na bandeja. Eles certamente estarão se divertindo mais bebendo cerveja Presidente na Plaza España, falando mal de Trujillo e (se você der sorte) requebrando feliz da vida em um animado bailado.
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