VT Em seu livro, você afirma que não é boa viajante. Por quê?
ELIZABETH GILBERT Para mim, os verdadeiros viajantes são pessoas que se misturam com a população local em qualquer lugar, não chamam atenção, falam uma dúzia de idiomas, sabem estar no lugar certo na hora certa e não passam por problemas corriqueiros, como se queimar demais ao sol. Eu viajo de um jeito tosco. Não faço boa pesquisa sobre os lugares, não falo vários idiomas e, por ser grande e desajeitada, chamo atenção de um jeito ruim.
É seguro para uma mulher viajar sozinha, como você fez?
Essa situação traz mais vantagens que desvantagens. As pessoas confiam mais nas mulheres do que nos homens - certas barreiras caem antes para a gente do que para um macho man. Nunca nada de horrível aconteceu comigo. Muito por sorte, é verdade. Mas também porque eu soube fazer escolhas cuidadosas. Há lugares no mundo, inclusive em meu próprio país, para os quais eu não viajaria sozinha. Por isso, antes de sair por aí, deve-se aprender sobre o lugar. Durante a jornada, é importante escutar a intuição. Sei que isso pode soar um tanto conservador, mas ao visitar culturas conservadoras, o melhor é se vestir pudicamente.
Que conselhos você daria a alguém que pretende embarcar numa jornada como a sua?
Primeiro: aproveite. Às vezes, nos esquecemos de curtir as experiências enquanto elas acontecem. Em segundo lugar: não seja tímido. Tente encontrar gente e, se você está visitando um país pela primeira vez, use todas as oportunidades para treinar o idioma. As pessoas são mais receptivas quando você se esforça para falar a língua delas. Terceiro: leve poucas malas. Assim, você se locomoverá com facilidade e terá espaço para as coisas que comprar. Quarto: seja esperto. Não se coloque em perigo. Pergunte a si mesmo: se eu tivesse uma irmã mais velha e cautelosa, ela me deixaria fazer isso? Maturidade começa quando nós mesmos nos tornamos nossa irmã mais velha. Em quinto: se você está numa jornada de auto-conhecimento, como eu estava, saiba que nenhuma transformação ocorre do dia para a noite. Por último: vá a Nápolis e coma a pizza de lá. Ninguém deve morrer sem antes fazer isso.
O que é imprescindível em uma viagem à Itália, à Índia e à Indonésia?
Para a Itália: leve bons sapatos para caminhar e vá sem medo de engordar. Na Índia: tenha paciência, jogue fora os prejulgamentos, use bom repelente e só beba água engarrafada. Na Indonésia: boné, muita atenção para não ser enganado e uma tonelada de humildade. O país é complicado, e você não entenderá nem uma fração do que está experimentando.
Além de Itália, Índia e Indonésia, que outros lugares do mundo você considera ideais para comer, rezar e amar?
Acho que as pessoas podem comer, rezar e amar em qualquer lugar do mundo, inclusive dentro de casa. Mas, se você quer saber para onde eu iria com o objetivo de repetir a viagem, escolho o norte do Laos para comer (estive lá há anos e provei a melhor comida da minha vida na cidade de Luang Prabang), a Grécia para rezar em algum lugar silencioso e o sul da França, com meu marido, para amar...
Você e Felipe, o brasileiro com quem se envolveu em Bali, ainda estão juntos?
Sim. Estamos casados há dois anos.
Você conhece o Brasil? Qual foi sua impressão?
Sim. Estive em Florianópolis com meu marido para visitar a família dele e depois fomos para Natal, onde alugamos um carro para passear pela cidade e seus arredores e tivemos férias maravilhosas. Como ele também tem parentes em Manaus, pretendemos ir para lá, se tudo der certo, ainda no próximo ano. Amei o Brasil e, claro, os brasileiros. Quando um de vocês entra em algum lugar, o ambiente parece ficar mais iluminado e alegre. Também, pudera! Quem come feijoada uma vez por semana não pode ser infeliz.
Você mantém contato com as pessoas que conheceu durante a viagem?
Sim, são pessoas que ajudaram a mudar a minha vida. O xamã Ketut Liyer, por exemplo, realizou minha bela cerimônia balinesa de casamento.
Em algum momento você pensou em desistir e voltar para casa?
No início, em Roma, eu me sentia terrivelmente sozinha. Acho que, quando romantizamos a viagem, nos esquecemos do quanto ela pode ser solitária e desorientadora. Mas nunca pensei em desistir e voltar para casa.
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