Bem, esqueça tudo isso. Ao menos na África.
Chris Lowe era o nosso ranger - o sujeito que, num safári, serve de guia, motorista e, em caso de necessidade, segurança. Parou o carro num pequeno bosque. Alguns paquidermes comiam amarulas, as frutinhas amarelas que rendem um ótimo licor de mesmo nome, vendido inclusive no Brasil. Ao longe, um elefante se aproximava. Saquei a minha câmera e comecei a fotografar. A cena era bonita: o grandalhão vindo lenta e decididamente em nossa direção, as orelhas bem abertas. Uma hora ele ia parar. Ele tinha de parar. Mas não parou.
Quando Chris percebeu as péssimas intenções do animal, estávamos a uns 3 metros dele. O ranger deu a partida e saiu rapidamente. Fomos perseguidos por algum tempo, até o bichão descobrir outra coisa para pisar. "Elefantes adoram atacar jipes", diz Chris. "São animais vingativos." Em minha ignorância urbanóide, não sabia do sinal de que ele está com impulsos homicidas: as orelhas abertas. "É para ele parecer maior", diz.
Foi a primeira surpresa da Reserva Sabi Sabi, uma das maiores reservas particulares da África do Sul, fundada em 1978, a sudoeste do mítico Kruger Park. A segunda foi que o rifle dos rangers está carregado de balas, e não de tranqüilizante - até o tranqüilizante fazer o bicho dormir, será tarde demais. A África do Sul é um desses lugares que pegam você aos poucos. Nada é o que parece ser. A selva parece pacífica, mas é... a selva. O apartheid foi abolido, mas seu impacto está no dia-a-dia. Brancos e negros aprenderam a conviver, mas é só nos outdoors oficiais da rainbow nation (nação arco-íris). O país parece rico, mas há bolsões de pobreza de padrões... africanos. É a cara do Brasil, mas tão estranho. A Copa do Mundo de 2010 está a todo vapor, só que não se vêem obras e ninguém dá a mínima para isso - jornais, população, governo. Os elefantes parecem de bom humor. Mas podem estar com a macaca.
Dentro da Sabi Sabi ficam quatro lodges. Um deles, o Earth Lodge, me serviu de pouso. Moderno, bonito, integrado com a paisagem. Os games (como são chamadas as saídas para os safáris) ocorrem na primeira hora do dia (5h) e na última (17h, 18h), quando os animais estão mais ativos. Uma das diferenças em relação ao Kruger é que os Land Rovers podem deixar a estrada e ir até bem perto dos animais. Um game perfeito é aquele que permite avistar os Big Five: leão, leopardo, rinoceronte, búfalo e elefante. Meninos, eu vi. Os cinco. E, desses, não tem pra ninguém: o leão é o melhor. Vai soar péssimo, mas... ele é o rei dos animais.
Era uma tarde quente quando avistamos os bichos deitados sob uma árvore enorme. Esses felinos dormem 18 horas por dia e caçam, principalmente, à noite. O maior deles, o chefe do bando, bocejava mostrando os caninos afiados para a platéia de três carros que ficava em torno. Por que eles não atacam os automóveis? O jipe tem o motorista e o tracker (sempre um negro), que indica os caminhos acomodado numa cadeirinha na dianteira do carro. Era só abrir e boca e nhac: um tracker a menos. "O leão vê o carro e imagina que se trata de outro animal - mas bem maior que ele e, com aquele cheiro de gasolina, pouco apetitoso", diz Chris. Um bando de leões deitados, bocejando, a 1 metro, é interessante. Mas longe de ser emocionante. Encrencas costumam acontecer quando o ranger resolve injetar um pouco de adrenalina na cena. Eventualmente, uns malucos saem dos jipes. No momento em que fazem isso, porém, passam a ser enxergados como um pedaço de carne vestido de bege. Passíveis, portanto, de ser devorados. Acontece. Entre 1990 e 2005, perto de 600 pessoas foram comidas por leões na Tanzânia. Na África do Sul é mais raro e não há números ofi ciais. Mas, quando acontece num game ou numa reserva, o efeito é imediato: o lugar em que ocorreu o ataque se transforma num sucesso de mídia e de público.
Reservas particulares são empreendimentos feitos para dar dinheiro. Não é bom negócio frustrar a clientela. "Trocamos mil impalas por quatrorinocerontes do Parque Swahili", conta Louie Lesotho, um ranger um tanto mal-encarado. Por obra desses escambos, difi cilmente não se avistam os Big Five numa visita. Na noite anterior aos passeios, determinados bichos são "desviados" para as áreas em que os turistas passarão. Até o mais evasivo deles, o leopardo, deu as caras na nossa turnê. Em três dias, nosso grupo seguiu dois: um estava no topo de uma árvore com uma presa; o outro, uma fêmea, escoltava o filhote em meio à vegetação alta. Para nós, brasileiros, ver a bicharada é emocionante. Mas, para europeus e americanos, que detonaram suas florestas há séculos, o arrebatamento pode beirar a histeria. A francesa Albanne Yunna teve de ser calada pelo tracker quando vimos uma girafa.
A última noite no Little Bush Lodge, outra propriedade da Reserva Sabi Sabi, incluiu um jantar com os hóspedes e o ranger Sonny. Sul-africano, negro, Sonny contava histórias sob a luz de velas, numa mesa montada no gazebo. A americana Michelle Williams, loira, casada com um inglês afetado, divertia-se. Estava um tanto bêbada. Um dos "causos" de Sonny era tenebroso: o primeiro encontro, aos 9 anos, com um animal de que apenas ouvira falar, mas nunca vira. "Eu estava caçando com meu tio. Meu pai apareceu com ele", dizia. E arregalou os olhos: "Um homem branco". Prosseguiu. "Era o dono da fazenda. Me enfiei num cupinzeiro, tremendo. Meu pai teve de chamar ajuda para me tirar de lá. Dois homens me puxaram para fora. Nunca passei tanto medo na vida." Michelle deu um sorriso amarelo e tomou de uma golada todo o vinho que estava no copo
* Esta reportagem foi paga pela VIAGEM E TURISMO. Nós não aceitamos convites ou jabás. Confie no que você lê na VT.
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