Porto de Galinhas é um case sem precedentes no turismo brasileiro. Não faz 20 anos, aquilo era uma singela vila de pescadores nos arredores de Recife. Um lugar de natureza selvagem e intocada, de piscinas naturais de águas transparentes, de estreitas ruas de areia. De lá pra cá, mais de 150 hotéis e pousadas se instalaram e o centro ganhou galerias, cafés, lojas de grife e bares da moda. Um calçadão com exóticos bancos de granito foi plantado quase à beira-mar. Hoje, a vila, que integra o município de Ipojuca, recebe meio milhão de turistas ao ano, mais do que o número de visitantes de Recife. Porto é eleita a melhor praia do Brasil desde que o Prêmio VT foi criado, em 2001 e este ano, conquista seu oitavo título consecutivo. Só o Internacional de Falcão e Vacaria ganhou tanto.
No Réveillon de 2000, eu precisei andar por mais de uma hora pelo mato desde a vila até minha pousada, na Praia do Cupe, então afastada do centro. Hoje se chega em menos de dez minutos à ainda mais distante Muro Alto, completamente isolada naquela época - e o mato virou cidade. Nannai e Summerville, os primeiros resorts que Porto veria nascer, e, junto com o Beach Class no top 10 do Prêmio VT, estavam batendo suas primeiras estacas, e os bugueiros seguiam quase de graça pela areia da praia só para mostrar as novidades aos turistas. Em 2008, o asfalto é um tapete que vai não só até o Nannai e o Summerville mas aos outros gigantes que se instalaram lado a lado nas margens daquela praia de águas represadas pelos arrecifes (os bugueiros continuam indo ali, mas já cobram 60 reais pelo "city tour").
Se Muro Alto ficou logo ali, Maracaípe, no extremo oposto, vai fi car também - mas, se isso é bom pela facilidade de acesso, é igualmente ruim. A praia, reduto de surfistas, com ruas de areia e astral meio hippie, ganhou recentemente um outdoor gigantesco que anuncia a construção de uma pista (dupla!) de asfalto desde o centrinho de Porto. Com isso, o lugar pode acabar bastante descaracterizado. Pior se o granito, ele de novo, for usado para padronizar algumas fachadas da região, como se aventa.
Enquanto as obras não saem do papel, Ana Soares toca tambor e dança com o grupo de maracatu da vila. Freqüentadora de Porto desde os anos 1980, ela é dona da colorida Pousada Porto Verde, fundada em 1997. A pousada está num lugar tranqüilo, escondido atrás de um bem-cuidado jardim, no centro da vila. Suas duas filhas, de 1 e 5 anos, nasceram ali - a mais velha quando ainda era possível contar o número de pousadas da vizinhança. "Porto de Galinhas só acontecia em janeiro", lembra Ana. "Hoje, quando vejo aquele mundo de gente nas piscinas naturais, todos os dias, eu me pergunto onde é que isso vai parar." A preocupação não é infundada. Os mesmos milhares de pessoas que pisam sem dó os arrecifes que formam as piscinas naturais pertinho da praia hoje já passam por uma favela e por lixões na chegada a Ipojuca e são obrigados a circular por ruas esburacadas e mal sinalizadas tão logo deixam a orla.
O crescimento desenfreado tem clara contrapartida ambiental. Os corais correm risco com os turistas que os exploram, mas há mais: a vila não tem saneamento básico e o esgoto vai direto para o mangue - e para o mar. E, em Maracaípe, ver cavalos-marinhos pode se tornar um espetáculo datado. "Se nada for feito, eles podem ser extintos", diz a bióloga Rosana Silveira. O número de jangadeiros que levam turistas para ver os bichinhos quintuplicou desde que o passeio foi criado, em 2001.
Mas muitas coisas em Porto não correm perigo, ainda bem. O Beijupirá, restaurante estrelado pelo Guia Brasil 2009, continua servindo as mixiras (misturas, em tupi) de Adriana Didier, uma das primeiras forasteiras de Recife a se instalar por ali. É o caso do beijumanga, peixe grelhado com gergelim acompanhado de arroz de coco, farofa de gengibre e banana caramelada, ou do camarulu - camarões com mel de engenho e arroz de maracujá. O camarão na moranga do Munganga Bistrô segue saboroso, especialmente ao ser servido no deque de vidro de frente para o mar. Para quem tem menos grana, as deliciosas tapiocas das barracas de rua ainda são feitas na hora.
A esses clássicos se juntam boas novidades a cada verão. O Fiteiro, bar famoso em Recife por seu chope cremoso e pelos bons salgadinhos, já virou febre. A La Creperie vive lotada no fim do dia com seus crepes mirabolantes, como o de carneseca, queijo de coalho, creme de queijo e cebola. A sorveteria Parmalat tem um petit gâteau recomendado até pelos garçons da concorrência. E a novata La Tratoria está muito longe de fazer feio com suas massas.
Se o maior trunfo de Porto de Galinhas é o ecletismo - você pode se hospedar em hotéis-fazenda com animais para entreter as crianças, resorts muito chiques e pousadinhas descoladas -, sua marca registrada é a ambição. Só nos últimos três anos surgiram três resorts de peso: o Beach Class, com a maior piscina do Brasil, que serpenteia pelo jardim, passa sob pontes de madeira, cai em cascatas e chega quase ao mar; o Enotel, um resort-butique com quartos de design, cabanas de massagem à beira-mar e uma prainha particular de areia; e o Marulhos, outro que investiu numa grande piscina e em quartos especiais para famílias que acomodam sete pessoas.
Prevê-se que até 2010 outras três grandes novidades ampliem a capacidade turística de Porto de Galinhas em consideráveis 30%. Exatos 1 520 novos quartos estão ganhando forma pelas mãos e pelos euros dos portugueses: 200 num hotel da rede Pestana, na Praia do Cupe; 120 no complexo do Enotel, que já tem 348 quartos construídos e em operação; e 1 200 no projeto do grupo Teixeira Duarte, o mais ambicioso da região, que prevê dois hotéis num terreno de 70 hectares entre a praia do centro de Porto de Galinhas e Maracaípe.
Enquanto massageava minhas costas numa cabana de bambu de frente para o mar de Muro Alto, o terapeuta Alzi, do resort Nannai, profetizava: "Minha filha, isto aqui vai virar o Caribe brasileiro". E depois de uma pausa para um suspiro dramático: "E, olha, não demora nada".
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