Aquele verão de 1994 não foi o Verão da Lata, não foi o Verão do Apito, não foi o Verão-da-Cerveja- a-6,80-Cruzados. Mas eu tinha 17 anos, e isso basta. Desembarquei naquele vilarejo de uma única rua mal asfaltada depois de um pinga-pinga desde Natal na companhia de galinhas, sacos de verduras, surfistas e hippies. Ali rachei uma casa pé-na-areia com jardim repleto de coqueiros. O único ventilador era revezado pelos habitantes dos quatro quartos do imóvel. A conta: 4 reais por dia.
Catorze anos depois, e vivendo na Espanha havia sete, eu estava de malas prontas para a "Playa de la Pipa", onde amigos e conhecidos dos amigos espanhóis compram terrenos, abrem restaurantes de cozinha mediterrânea e, junto com outros gringos (portugueses e italianos, especialmente), fazem do lugar um dos balneários mais sofisticados do Nordeste brasileiro. Qual seria a dessa nova Pipa com gazpacho? Pus-me a pensar nos efeitos danosos da globalização das areias brasileiras, e bolei uma saída para o caso de ficar deprimida com a versão "exportação': rumaria ao sul, para a Barra do Cunhaú, onde o turismo está em segundo plano.
Convertido numa mistura de Beco das Cores de Arraial d'Ajuda com Rua das Pedras de Búzios, o centrinho da Pipa ganhou charme, constatei. A miscelânea entre shoppinzinhos e lounges com bangalôs balineses fez da Avenida Baía dos Golfinhos, a via principal, um bom lugar para lamber vitrines, paquerar e desfilar. Mas bastava sair dela para atolar o pé na lama, o que combina com a Pipa velha, mas é basfond para as sandálias de salto das turistas de hoje. A prova dos noves, porém, era o retorno à Praia do Madeiro - para mim uma das mais bonitas do mundo. Depois de caminhar ao lado do asfalto, cheguei à escada de madeira que serve de acesso. A cada degrau, um suspiro de alívio. Lá embaixo, fui recebida por um golfinho logo no primeiro mergulho. Sim, eles continuavam por ali, como se a natureza conspirasse para que meu amor pela Pipa não sofresse mais arranhões.
Ok, a praia ganhou barracas. Mas são charmosas, com espreguiçadeiras de madeira e teto de palha. Um pouquinho mais ao sul, outra aquisição recente, a pousada Oka da Mata (Estrada para Tibau, 84/3246-2326, okadamata.com.br; diárias desde R$ 280; Cc: V; Cd: V), com mobília mineira e vista para a Praia do Curral, vale a estada. Ao sul da vila, a Praia do Amor segue linda (apesar da falésia um tanto erodida) e com os deliciosos pastéis de siri da barraca do Marinheiro. Quando rola onda, suas cadeiras na areia são o melhor lugar para assistir às manobras dos surfistas. Não fossem tão apetitosos, os lendários pastéis estariam com seus dias contados. De sushis a tapas, de cozinha mediterrânea fusion a pratos tailandeses, hoje é possível comer de tudo na Pipa. O Papillon (Avenida Baía dos Golfinhos, 788, 84/3246-2287; Cc: V; Cd: V), francês, o Tapas (Rua dos Bem-Te-Vis, 8, 84/9414-4675), auto-explicativo, e o Cruzeiro do Pescador (Rua dos Concris, 1, 84/3246-2026), português, são apenas alguns dos que servem comida européia. A Pipa não é mais a mesma. Mas eu também já não estou na idade de atacar PF de arroz, feijão e peixe frito todo dia. A propósito, fui à Barra do Cunhaú. Foi só uma escapadela. De noite eu já estava de volta aos lençóis macios de minha pousadinha na Playa de la Pipa.
COMO CHEGAR A Gol (0300-1152121, voegol.com.br) voa a Natal desde R$ 1 230. A TAM (4002-5700, 0800-5705700, tam.com.br), desde R$ 1 459. Na Rodoviária de Natal, a Oceano (84/3205-3656) tem ônibus para Pipa, por R$ 9,75. O trajeto dura duas horas.
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