Corta para o Uruguai. Depois de desembarcar em Montevidéu e pegar um ônibus que atravessa despovoados 135 quilômetros entre os dois destinos, chego a Punta, o balneário mais famoso do Uruguai. Agora estou na entrada do cassino do Hotel Conrad, no meio de 550 máquinas caça-níqueis e 72 mesas de jogo. O hotel é uma das marcas de luxo da rede americana Hilton, e os brasileiros - e os argentinos - são a esmagadora maioria ali.
Sou atraída por um tumulto de vozes, risadas e gritos e, sobretudo, pelo barulho incessante dos caça-níqueis. As máquinas também têm luzes coloridas, desenhos psicodélicos, paisagens, imagens de animais, heróis. Se fossem admitidas em tal ambiente, as crianças ficariam maravilhadas, imagino. De King Kong a Cleópatra e pedras preciosas, tudo é tema dos caça-níqueis. E no meio disso tudo, com um balde cheio de fichas e nada daquele sorriso majestático, Marlene. "Hoje está muito fraco, ninguém está ganhando nada", reclamou. Seria mesmo um dia de raro e profundo azar coletivo? "Os clientes sempre dizem que há vários truques aqui no cassino para que eles percam", disse-me depois o gerente da casa, Diego Berná. "E, mesmo assim, voltam sempre para jogar."
Um dos segredos do cassino para conquistá-los é deixar o jogo bem acessível. Com 1 centavo de dólar já se pode tentar a sorte nas máquinas. Nas mesas - onde estão as roletas, os jogos de pôquer, de pôquer Texas, blackjack e afi ns -, o valor mínimo sobe para 2 dólares. Cerca de 15 mil pessoas passam diariamente por ali no verão, número que cai dramaticamente no inverno. O cassino divulga ter pago aos jogadores, só em 2008, mais de 74 milhões de dólares em prêmios. Quanto lucrou, não revela. "As pessoas sempre perdem mais do que ganham, senão todos os cassinos estariam falidos", afirma o gerente Berná. Carlos Muñoz, um dos crupiês mais antigos da casa, só fica perto de fichas e cartas quando está a trabalho. "Não vejo a menor graça em perder dinheiro."
Mas os brasileiros não vão a Punta só por uma irrefreável atração pelas mesas verdes e pelas máquinas que engolem moedas. Punta vale por vários fatores, que, somados, lhe conferem um quê de glamour raro na América do Sul. Um deles é a vida noturna selvagem nos meses de verão. De dia, as praias se enchem - e conseqüentemente seus paradores, espécie de barracas chiques que viram pura balada; à noite, discos, como a Tequila e a grife internacional Crobar, fervem.
Por ser um destino típico de férias, Punta também atrai grupos de amigos. No último Réveillon, o advogado porto-alegrense Fábio dos Santos fez sua Noche del 8, com mais de 600 pessoas numa casa alugada. Neste ano, são nove amigos na organização da Noche del 9, agora para mil convidados. Fábio vai bastante a Santa Catarina, onde surfa, mas gosta de Punta porque tem "astral, badalação e é um lugar superseguro". No verão, a cidade pula de seus 15 mil habitantes para uma população flutuante de meio milhão de pessoas. Punta ganha em glamour - com a chegada de habitués, como a supermodelo argentina Valeria Mazza e a global brasileira Ana Maria Braga - e perde em congestionamentos.
Outro ponto a favor do balneário é a diversidade de suas praias. Toda recortada, Punta tem mar calmo numa península e agitado, ao norte. A Praia Mansa tem poucas ondas e faixa de areia bem extensa e plana, ótima para caminhadas. O sol se põe ali, então há quem venha no fim do dia só para assistir ao espetáculo. El Emir e Los Ingleses, por sua vez, concentram os adeptos de surfe e kitesurfe; a Brava recebe os turistas com ondas fortes. É no comecinho dela que fica um símbolo de Punta, a escultura Los Dedos: cinco dedos da mão que parecem brotar da areia - há quem diga que representam uma pessoa se afogando. Seguindo para o norte, e cruzando uma inusitada ponte com duas corcovas, chega-se a La Barra, a praia da juventude dourada de Punta. Dividida nas zonas Montoya e Bikini, ela é boa para surfe e kitesurfe. Nessa região o grupo Fasano, em parceria com a incorporadora JHSF, pretende lançar, em 2010, seu primeiro hotel fora do Brasil, com 20 bangalôs e uma vila residencial de 205 casas - que vão custar de 350 000 a 2 milhões de dólares. A área é belíssima e integra um cenário natural de pedras que parece ter sido arranjado por um paisagista.
Deixando as areias de lado, vale andar pela península, onde estão algumas lojas legais de
Punta. Mas, se você espera preços bons pré-repique do dólar, esqueça. Punta é um lugar em que um expresso não sai por menos de 3 reais e um jeans feminino não fica por menos de 100. O charme das ruas, que levam nomes poéticos como Las Gaviotas, Las Focas, Los Arrecifes, está na arquitetura das casas, nas fachadas e vitrines. A Avenida Gorlero é o epicentro, com restaurantes, galerias e o cassino público. Ali também fica uma lanchonete famosa, a La Pasiva, que serve chivitos (sanduíches) e panchos (cachorros-quentes) acompanhados de uma mostarda que leva cerveja na receita.
Na Avenida El Remanso, paralela à Gorlero, as lojas vendem grifes como Fendi, Tommy Hilfi ger, Valentino, Louis Vuitton. Descendo em direção ao porto, outro ponto de agito: bares (como o transado Moby Dick, com música ao vivo nos fins de semana) e restaurantes com vista para o mar, vários com mesinhas num deque de madeira na beira da praia. E foi em um deles que encontrei Marlene, a do cassino, em companhia de uma Patricia, famosa cerveja local. "Você vai hoje?", perguntou, como se fôssemos velhas amigas e iniciadas em algo que não havia necessidade de nomear. Antes de responder, vieram-me à cabeça as palavras de Carlos, o crupiê, aquele que não gosta de perder dinheiro. "Hoje não, querida", eu disse. Mais tarde, quando ela partiu, foi a minha vez de pedir ao garçom uma Patricia.
COMO CHEGAR Na Pluna (11/3231-2822, pluna.aero), a passagem até Montevidéu mais traslado terrestre para Punta custa desde US$ 442. A Gol (0300-1152121, voegol.com.br) voa para Montevidéu desde US$ 460. Do próprio aeroporto há ônibus para Punta desde US$ 7.
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