Foi uma iluminação. De cara, a frase me soou como uma divertidíssima versão nordestina para aquelas camisetas chatinhas que dizem "NO STRESS". Mas logo em seguida me dei conta de que, mesmo com sotaque, "aperreio" é a mais adequada tradução de stress para o português. Que estresse, que nada! Aperreio é muito melhor. Já pensou? Livrar-se do aperreio da vida moderna? Combater as doenças ligadas ao aperreio? Desaperrear no spa? Tomar pílulas antiaperreio? Fazer uma massagem desaperreante?
Finalmente, "Xô, aperreio!" me pareceu um slogan perfeito para a Paraíba inteira. Uma frase que resume tudo o que se experimenta em latitudes paraibanas: o sossego, a falta de afetação, a felicidade revigorante que vem junto com a brisa e a maresia. Não é toda hora que se encontra um slogan assim, pronto e acabado, disponível na natureza. Eu já podia ver os outdoors: praias tranqüilas, gente simpática, comida boa e barata - e xô, aperreio!
O publicitário que ainda mora dentro de mim sempre achou equivocados os principais argumentos de venda turística da Paraíba. Seu maior cartão-postal, o Tropical Tambaú, um clássico da arquitetura moderna assinado por Sergio Bernardes, só é bonito como maquete, quando visto de cima; ao rés-da-areia, porém, o hotel é um disco voador de cimento que enclausura seus hóspedes e sonega um naco da orla a quem passa pela beira-mar. Outro orgulho paraibano, o fato de João Pessoa ser "a segunda cidade mais verde do mundo", é um artifício contábil: as árvores abundantes da Mata do Buraquinho fazem falta nos bairros praianos. Finalmente, Tambaba, primeira praia de nudismo oficial do Nordeste, é um chamariz que acaba não se materializando na viagem de quase ninguém, já que a imensa maioria dos visitantes não se dispõe a tirar a roupa - e alguns dos que gostariam de curtir a praia, como eu, são barrados na entrada por estarem avulsos. Em compensação, a Paraíba tem uma série de qualidades que fazem toda a diferença nas férias do visitante. Vem comigo.
João Pessoa, para começar, é a dona da orla mais simpática entre as capitais nordestinas. Não há prédios altos nas quadras próximas ao mar - nenhunzinho para fazer concorrência aos coqueiros ou deixar a areia na sombra antes da hora. Mesmo em pleno janeiro, é possível hospedar-se por cerca de 200 reais em hotéis arrumadíssimos e desaperreados na beira-mar de Cabo Branco. E, sem sair da área urbana, você pode escolher entre praias com diferentes modos de usar. Em frente aos hotéis de Cabo Branco fica a praia clássica da cidade - com calçadão, quiosques e jardins bem cuidados sob o coqueiral. Às 5 da madrugada, o sol já pegou no batente e, até as 8 horas, a avenida fica reservada a andarilhos, joggers, ciclistas e patinadores. No verão o mar fica azulzinho, mas as areias só lotam para valer no fim de semana.
A beira-mar passa por Tambaú, que funciona mais como centro comercial e gastronômico do que propriamente como praia. Segue por Manaíra e então desvia para o interior. Escondidinha por ali fica a aconchegante Praia do Bessa, de faixa de areia mais estreita e com barracas, como a Golfinho Bar, a preferida da garotada, e a Peixe Elétrico, onde batem ponto intelectuais e alternativos.
Quando o mar volta a ficar à vista, é sinal de que você chegou à Praia de Intermares, já no município de Cabedelo. O Bar do Surfista indica o ponto em que quebram as melhores ondas de toda a orla urbana. Logo em seguida a costa volta a ter casas que dão direto na areia, e o mar fi ca calminho, calminho: as praias do Poço e de Camboinha são perfeitas para ir com crianças. Vinte dias por mês - em torno das luas cheia e nova -, a maré baixa faz surgir ali a ilhota da Areia Vermelha, um banco de areia rodeado por mar raso e claríssimo, a cinco minutos de barco. No verão, o fenômeno da natureza é ofuscado pelo fenômeno de concentração de lanchas em torno da ilha. (Para você não dizer que não viu muvuca na praia em João Pessoa.)
As praias do Sul estão a a um pulo da cidade, pela Rota do Sol - e exibem um cardápio de paisagens completo. Fãs de praias que ficam na esquina de rio com mar vão encontrar na Barra do Gramame (a 16 quilômetros de Cabo Branco) um dos exemplares mais bonitos do gênero no Nordeste. Menos de 10 quilômetros adiante, passando o centrinho meio bagunçado de Jacumã, as falésias de Carapibus escondem piscinas naturais que emergem numa curva da praia na maré baixa. Sua vizinha Tabatinga tem de tudo: falésias, mangue, um riozinho - e uma ótima barraca de praia, a Tabatinga Arte Bar. Na seqüência, a Praia do Coqueirinho também tem dois lados distintos. A enseada da esquerda, cercada pelo coqueiral, tem mar calmo - gostosíssimo de entrar - e barracas concorridas. A praia da direita, em mar aberto, tem falésias e um bar sofisticado, o Cânion de Coqueirinho.
Tambaba é outra praia duas-peças. Você chega a uma espécie de ante-sala, onde todos os banhistas ainda estão vestidos e a água fica represada entre pedras. Dali sai uma trilha de cinco minutos pela mata até a parte nudista da praia, que tem mar aberto e um cantinho entre pedras. Um primeiro fiscal só deixa passar casais ou grupos em que haja mulheres. No final da trilha, a entrada é permitida apenas a quem tirar a roupa. A maioria dos visitantes se contenta com uma olhadinha protocolar de 15 segundos e dá meia-volta, terminando o dia no Coqueirinho.
(Não espalhe: homens avulsos podem arriscar a entrada pelo outro lado da praia, onde a fiscalização é menos constante. Continue de carro pela estradinha de terra até a Barra do Graú, então volte a pé - e boa sorte.)
A paisagem mais sui generis do pedaço está 10 quilômetros ao sul de Tambaba: na Praia Bela, uma lagoa fica rente à praia, alimentada pelas águas da maré alta. No alto de um barranco, bares rústicos preparam peixes fresquinhos; no trapiche que atravessa a lagoa há caiaques para alugar. Desconhecida pelos turistas de fora, a praia é muito popular nas redondezas; vá durante a semana.
Apesar de caber perfeitamente em passeios que partem de João Pessoa, o litoral sul já tem estrutura para quem quer fazer o contrário: passar a maior parte do tempo aproveitando suas praias semi-selvagens e curtir a capital em pequenas incursões. Além de pousadas de charme alternativo, como a Pousada dos Mundos (onde avistamos juntos, no início deste passeio - lembra? -, a placa "Xô, aperreio!"), a região ganhou recentemente uma pousada superestruturada com porte de pequeno resort: a Aruanã, na falésia de Carapibus.
Quem gosta de praias rústicas deve pegar a BR-101 e rumar para o litoral norte. A 100 quilômetros de João Pessoa, quase na divisa com o Rio Grande do Norte, o pacato vilarejo de Barra do Camaratuba só é famoso entre surfistas. Mesmo que você não curta ondas, não vai perder a viagem: passeios de barco levam a uma prainha no meio do mangue do Rio Camaratuba. Atravessando o rio de balsa, você passa pela reserva indígena potiguara - aproveite para comprar artesanato na Aldeia Galego - e chega ao mirante da Praia do Forte, onde os canhões antigos vão deixar mais bonitas suas fotos da Baía da Traição.
Muito procurada por paraibanos nas férias, a Baía da Traição é base para visitar a mais bonita praia "para cima" de João Pessoa: Coqueirinho do Norte, uma enseada de águas calmas, enfeitada de barquinhos, aonde só se chega de bugue. De lá barqueiros levam até a Barra de Mamanguape, sede da mais singela das estações do Projeto Peixe-Boi Marinho. Depois do (bom) vídeo didático, você é levado de canoa até o viveiro dos simpáticos mamíferos no rio. Se o peixe-boi não aparecer de livre e espontânea vontade, o monitor aciona uma mangueirinha de água doce que funciona como bebedouro - e faz com que os filhotes mostrem o focinho. Click! Click! Click!
O maior segredo da Paraíba - ou pelo menos o seu tesouro menos divulgado - está debaixo do nariz dos visitantes: o centro histórico de João Pessoa, cuja fundação remonta a 1585. Não é nenhum conjunto homogêneo, mas, percorrendo suas ruas, você vai passar por casas azulejadas, igrejas multicentenárias, fachadas neoclássicas e predinhos art déco. Recentemente o centro ganhou a Estação Cabo Branco Ciência, Cultura e Arte, assinado pelo incansável Oscar Niemeyer. Encerre sua visita no Centro Cultural São Francisco, um conjunto de igreja e convento que continuaria chamando atenção mesmo se estivesse no Pelourinho ou em Olinda. A vista de suas janelas para o Rio Sanhauá, onde a cidade nasceu, já vale o passeio.
Em outros lugares o sol se põe sozinho, mas na Paraíba ele tem a ajuda de um homem: Jurandy do Sax. É ao som do Bolero, de Ravel, tocado por ele, que o sol se esconde atrás do mangue do Rio Paraíba. Quem teve a idéia da trilha sonora foram os antigos donos do Bar Jacaré, que acabou dando seu nome ao trecho da praia fluvial. Mas foi a chegada de Jurandy, em 2000, que transformou o lugar, com razão, num centro de peregrinação turística. Desde 2002, o músico passa boa parte da apresentação no rio, rodopiando num barco, de sax em punho; só na parte final da música é que sobe ao palco do trapiche. Seu timing é perfeito: o último acorde sempre coincide com o suspiro final do sol. O espetáculo fez surgir uma pequena cidade na Praia do Jacaré: hoje são seis bares, cada um com seu trapiche (e seus intérpretes do Bolero); atrás deles há um centrinho comercial com lojinhas e cafés. Quem não quiser pagar a consumação mínima dos bares (menos de 5 reais!) pode assistir ao espetáculo na margem do rio.
É piegas? Sim. É brega? Talvez. Dá para perder? De jeito nenhum! Chegue cedo, perto das 4 da tarde, para pegar um bom lugar no trapiche do Bar Friends, que é onde Jurandy tem se apresentado ultimamente. (Cheque antes - de vez em quando ele muda de palco.) Não perca o horário: o sol se põe antes das 5 e, lá pelas 4 e meia, pode ter trânsito na entrada da Praia do Jacaré. E você não veio até a Paraíba para se aperrear, concorda?
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