Claro que é cedo para saber se a Azul terá sucesso ou não. Mas acredite: o turista brasileiro vai sair no lucro. "A concorrência é sempre positiva", diz André Castellini, especialista do setor aéreo da consultoria estratégica Bain & Company. O número de cidades atendidas pelas maiores companhias aéreas já está sendo ampliado. A TAM e a Gol pediram autorização à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para voar em rotas de interesse da Azul. Em outubro, a Gol começou a operar em uma delas: Londrina-São Paulo. Outro ponto positivo: com mais empresas disputando a preferência dos passageiros, a tendência é que o preço das tarifas, a médio prazo, baixe. "No começo, o impacto da Azul no setor aéreo deve ser pequeno", analisa Paulo Bittencourt Sampaio, diretor da Multiplan Consultoria Aeronáutica. "A diferença será mesmo sentida se os planos da companhia, de entrar nas grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, se concretizarem. A Azul precisa ser competitiva nessas rotas para crescer", diz ele.
Neeleman fala português com sotaque tipicamente americano, tem cara e jeitão de ianque - alto, olhos claros, criado em Salt Lake City, no estado de Utah. Mas nasceu em São Paulo 49 anos atrás, quando o pai, Gary, era correspondente da United Press International. Foi esse fato, aliás, que lhe permitiu criar a Azul: a legislação brasileira estabelece o limite de 20% de capital estrangeiro para as empresas aéreas nacionais. A família voltou aos Estados Unidos quando Neeleman tinha 7 anos. Aos 18, ele retornou ao Brasil como missionário mórmon e ficou por dois anos. "Reaprendi a falar português", diz ele, que mora com a mulher, Vicki, e os nove filhos (sim, todos da mesma Vicki) em Nova Canaã, Connecticut. Seu escritório localiza-se a poucos quilômetros, em Darien, a 50 minutos de trem de Nova York. A cidadezinha, de apenas 20 mil habitantes e poucas ruas, lembra um daqueles vilarejos que aparecem em seriados, como Desperate Housewives. O "quartel-general" fica no andar de cima de um banco. A gente chega e dá de cara com uma portinha e o logotipo: "Azul Linhas Aéreas". Ali dentro o que se ouve é uma espécie de "portuglês", mistura de inglês com português carregado. Um funcionário liga para o Rio de Janeiro e, no meio da conversa, usa expressões como: "Falou, entôum" e "Márravilhia!"
Neeleman notabilizou-se, como executivo e empreendedor, com a JetBlue, criada em 2000. Seus aviões voam para 51 destinos e carregam 25 milhões de passageiros por ano, mais da metade do que todas as companhias brasileiras transportaram no ano passado. Graças a processos operacionais criativos e econômicos - um call center formado por senhoras que trabalham em casa, por exemplo -, a empresa conseguiu implantar tarifas que estavam entre as mais baixas do setor (até um terço menor que as das concorrentes). Em 2004, Neeleman foi eleito pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Em fevereiro de 2007, ele deixou o cargo de CEO após um longo conflito com o conselho administrativo. A gota d'água foi um incidente no aeroporto JFK, em Nova York. Um avião da JetBlue tentou decolar durante uma tempestade, não conseguiu e permaneceu na pista durante 11 horas. Ao menos em matéria de caos aéreo, o empresário já está escolado. Depois do episódio, foi à TV pedir desculpas aos americanos (o máximo que tivemos foi o clássico "relaxa e goza"). "No fim foi bom. Se nada disso tivesse acontecido, eu não estaria voltando ao Brasil", diz Neeleman.
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