Ushuaia tem uma história fascinante. Começa com os yamanas, os "esquimós" do Polo Sul, que viviam aqui pelo menos seis mil anos antes de as primeiras expedições europeias chegarem, no século 16, e os dizimarem,no início do século 19. Além de alguns traços na população, restaram apenas retratos no Museu Yamanas e nos livros das lojas de suvenires. Já dos navegadores ficaram os relatos sobre a terra hostil, o frio que arrepia os ossos, as aves que continuam a povoar a Isla de los Lobos, bem ilustrados no Museu Marítimo. Se quiser ir além, pegue um dos catamarãs que saem do porto, na Avenida Maipú, rumo ao Farol Les Eclaireus. A vista do Canal Beagle é tão bonita quanto a do avião, e no passeio de duas horas e meia podem-se observar leões-marinhos e cormorões-imperiais - pássaros que parecem pinguins mas voam -, além de sentir um pouquinho da emoção dos primeiros desbravadores.
Também pelo canal chegaram os prisioneiros que, em 1896, começaram a construir o povoado como ele é hoje. Num primeiro momento viveram em casas fueguinas, feitas com madeira e chapas de metal, que ainda podem ser vistas em algumas ruas, quase sempre pintadas com cores fortes. Depois construíram o Presídio Nacional, hoje Museu do Presídio, pelo qual passaram desde assassinos de alta periculosidade até batedores de carteira ilustres, como Carlos Gardel, que viveu ali por três anos, além de presos políticos. Para aguentar o frio da Patagônia argentina, os prisioneiros iam até o bosque, hoje Parque Nacional Tierra del Fuego, a fim de buscar lenha para a calefação do presídio. Esse caminho era feito num trem, que foi reformado em 1994, assim como parte dos trilhos, para receber turistas e é conhecido como Trem do Fim do Mundo.
Como está a apenas mil quilômetros da Antártica, até cerca de 50 anos atrás pesquisadores e uns poucos turistas passavam pela cidade apenas para uma pausa antes de chegar às geleiras antárticas. A instalação da sede da Marinha argentina, em 1950, facilitou expedições científi cas e, pouco depois, cruzeiros turísticos. Alguns desses visitantes se enamoraram pela cidade e resolveram ficar por lá, iniciando o desenvolvimento de uma infra turística. Abriram hotéis, restaurantes e centros de lazer, atraindo mais pessoas para Ushuaia.
Do tempo dos prisioneiros e navegadores uma coisa não se altera: o silêncio após as 22 horas. Mesmo na Avenida San Martín a maioria dos lugares já está fechada e todo mundo parece se recolher aos hotéis. No entanto, se você quiser estender a noite mais um pouquinho, há uma opção certeira: Bodegon Fueguino. O restaurante da casa amarela serve bons cordeiros, vinho em garrafa de 500 mililitros, atendimento simpático e música ambiente latina. Há também o Casino Club, que não cobra entrada e tem mais de 100 máquinas caça-níqueis. Na Avenida Maipú, em frente ao Canal Beagle, o restaurante-pub Kuar funciona até o amanhecer, é dividido em dois ambientes e tem lareira, meia-luz e mesas bem próximas na área do bar, o que facilita a paquera. Mas não espere muito agito ou badalação. O dia em Ushuaia termina cedo para raiar com o vento, que canta ao envolver os Andes num céu em tons de vermelho, laranja, rosa, amarelo... Monet não faria melhor.
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