Há algum tempo Visconde de Mauá mudou. Suas pousadas muito confortáveis têm diárias que podem chegar a 900 reais e alguns de seus restaurantes estão entre os melhores do Brasil. Mas, no imaginário de quem não a conhece, Mauá vai ficar para sempre associada a um certo hippismo, cortesia dos viajantes paz-e-amor que se encantaram por ela nos anos 1970 e 80 e ali permaneceram, deixando as capitais em que moravam para se encontrar com a natureza e com uma vida mais "autêntica".
É difícil que esse timbre "outro mundo é possível" desapareça, mas o charme é marca há tempos do lugar. Ali estão algumas das melhores e mais requintadas pousadas da Mantiqueira, com quartos com lareira e hidromassagem. E, se tudo correr como planejado, em 2010 a esperada estrada-parque, que já conta com verbas do Ministério do Turismo e do Governo do Estado do Rio para a execução, pode estar pronta. Com isso, o asfalto viria de Capelinha, na boca da serra, e chegaria à vila mais distante, Maromba, ligando toda a região. Assim, adiós, estradas de terra. Um portal vai funcionar como pedágio, e os visitantes terão de pagar uma taxa ambiental. "A ideia é que seja uma estrada de contemplação, com velocidade máxima de 30 quilômetros por hora", diz Osvaldo Caniato, presidente da Mauatur, uma associação de fomento turístico da região. Acredita-se que o pedágio ecológico e o controle de veículos (fala-se em 1 400 por dia)livrem Mauá da superpopulação nos feriados e nos fins de semana de julho. "Não queremos turismo de massa. Mas tampouco que o turista deixe de vir por causa das estradas ruins", afirma Caniato.
Enquanto a estrada-parque não vem, e mesmo com os preços das diárias nas alturas, Visconde de Mauá segue com um je ne sais quois que deixa qualquer visitante "de boa". Esse talvez seja seu "ponto de não mutação", onde Mauá é a Mauá do imaginário hippie. Só lá para ficar parado na pontinha de pedestres sobre o Rio Preto porque Rosinha empacou, por exemplo. Rosinha, para quem ainda não foi apresentado, é uma jumenta que anda a esmo pelas vilas da região. Sua origem é desconhecida - fala-se que um pousadeiro a trouxe, mas ninguém sabe direito quem. Fato é que Rosinha se tornou celebridade local, com direito a aparições em camisetas e suvenires.
Entre maio e agosto, o clima seco deixa o céu mais limpo, quase sem nuvens, e a paisagem ainda mais bonita. É uma boa época para caminhar (é por esses dias que os aventureiros agendam escaladas à Pedra Selada, a montanha-símbolo da região) e fazer longas cavalgadas. Há passeios que varam as noites de lua cheia na Fazenda Águas Claras (24/9998-6918) e no Haras Monte Brilhante (24/3387-1555). Cavalgar é gostoso, mas seria preciso mais, seria preciso ser simplesmente o máximo para fazer com que qualquer pessoa normal preterisse aquilo que é a atividade perfeita em Visconde de Mauá no inverno: deixar-se estar em suas pousadas de charme.
Pense: dá uma tremenda preguiça sair do quarto quando o que se tem ao pé são uma lareira e uma cama quentinha. E, já que em julho as diárias chegam a dobrar - na bela Verde Que Te Quero Ver-Te, pulam de 150 para 300 reais -, não se penitencie por otimizar a estada. Não vão faltar dias ensolarados na primavera e no verão para uma segunda visita e, quem sabe, uma excursão às cachoeiras, como a famosa Do Escorrega, em Maromba, e para as tais cavalgadas.
Seja qual for a pousada escolhida, ela provavelmente vai ter cama box, lençóis de trocentos fios, decoração esmerada com objetos artesanais e atendimento direto dos proprietários. Na cara Mauá Brasil (estrada para Campo Alegre, mauabrasil.com.br, 24/3387-2077; diárias desde R$ 900; Cc: D, M, V; Cd: todos), o chalé é maravilhoso, com hidro num deque interno e vista panorâmica para a vegetação copiosa da serra. A Terra da Luz (estrada para Maringá,24/3387-1545, pousadaterradaluz.com.br; desde R$ 330, mínimo de três diárias; Cc: D, M, V; Cd: todos) tem chalés com TVs de tela plana, mas a grande lareira e a vista da serra costumam angariar mais audiência. Na Quinta da Grama (Vale da Grama, 24/3387-1110, quintadagrama.com.br; diárias desde R$ 450), o dono, Ivan Lopes, usou a expertise de ex-produtor musical para dar um ar de superprodução a um de seus cinco chalés: o Do Chef tem sistema de luz de teatro (a cama é o palco) e cozinha profissional.
Bater papo com os proprietários é um bom motivo para deixar o quarto de quando em vez. Suas histórias inspiradoras quase sempre versam sobre a chegada a Visconde de Mauá: boa parte dos hoteleiros foi turista um dia. Adriana e Henrique Ramos mudaram-se para o lugar quando ela estava grávida. Nome da pousada? A já citada Terra da Luz. Nome da filha? Luz. No caso dos cariocas Vera e José Bazeggio, da pousada Um Lugar de Mato Verde (Estrada do Vale do Pavão, 24/3387-1528, lugardematoverde.com.br; diárias desde R$ 280; Cc: D, M; Cd: M, R), uma das mais novas, a decisão teve também um quê de oportunidade. O casal soube que o terreno que pertencia à excêntrica socialite francesa Odile Rubirosa, idade não revelada, estava à venda e foi à luta. "Quando jovem, ela tinha fama de andar sem roupa. Vendeu a casa com obras de arte nas paredes e até calcinhas na cômoda. Veio tudo de bônus", diz José Bazeggio.
É verdade que há em Mauá um excelente motivo para deixar de bestar nas pousadas. A vila tem alguns dos melhores restaurantes de toda a Mantiqueira. São mais de 30, a maioria deles na chamada Alameda Gastronômica, na parte mineira da vila de Maringá(Maringá, que é dividida pelo Rio Preto, tem um lado mineiro e outro fluminense). O melhor de todos é o italiano Rosmarinus Officinalis (estrada para Maringá, 24/3387-1550; Cc: A, D, M; Cd: M, R), duas estrelas segundo o Guia Brasil 2009. Como muitos outros do lugar, tem um toque orgânico: conserva um enorme pomar e uma horta em que cultiva as ervas que temperam pratos como o ótimo soffiotti de mussarela de búfala ao molho de tomate fresco. Rosmarinus officinalis é o nome científico do alecrim, tempero muito utilizado na casa, mas apenas um dos plantados e colhidos lá. No Gosto com Gosto (Rua Wenceslau Braz, 148, 24/3387-1382; Cc: D, M; Cd: M, R), na vila de Mauá, outro restaurante estrelado pelo Guia, as lingüiças de cordeiro, de javali e de avestruz são artesanais. No também estrelado Babel (Estrada do Vale do Pavão, 24/9977-0152; reservar), queijos e cogumelos vêm direto do produtor mais próximo, o Capril Maluvito's.
Plantar o que se come, um lema digno de uma comunidade do tipo "Trigueirinho", é levado a sério em Mauá, como se vê. Uma das melhores novidades de 2009, o Restaurante da Kashi (24/9946- 8577, comidaviva-kashi.blogspot.com), em Maringá, segue radicalmente essa receita. A chef, Kashi Dhyani, nascida ali mesmo, na vila de Maromba, passou quatro anos na Costa Rica estudando alimentação viva (uma vertente culinária que usa ingredientes crus e pouca ou nenhuma cocção). De volta, abriu uma casa vegetariana com pérolas da raw food, como o biscoito crock, feito com grãos que germinaram juntos - e mais nada. "Tem tudo a ver com a região", diz ela. A musse de cacau com polpa de coco, óleo de coco, castanha-de-caju, cacau e mel, todos ingredientes crus, também faz sucesso. Já a chef Maria Olímpia, da pousada e restaurante A Cozinha do Visconde (Rua Wenceslau Braz, 314), investe em outra vertente, a slow food. O conceito, praticado ali há 14 anos, é comer sem pressa, sem nenhuma pressa.
Mas, se a proposta, como se dizia, é conhecer um pouco do velho arquétipo mauaense, aquele maluco-beleza dos anos 70, uma passada no romântico Le Petit (24/3387-1554), em Maringá, vale a viagem. A comida da chef Miriam Parreiras ganha um toque especial com as loucuras do marido, Sapo Carneiro (ele não revela seu nome de batismo). A casa, que já mudou de endereço umas quatro vezes, costuma ser sede de uma estranha comunidade, a Confraria de Observação do Cotidiano Alheio, cuja função precípua é fofocar (Sapo usa a expressão "análise social"). "O que se fala aqui tem toda importância e nenhuma importância", explica. Mas não peça a Sapo para ler alguma "ata" da confraria. Ele vai desconversar. Esse tipo de deferência só é feito para os iniciados na Velha Mauá.
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